Assunto de Meninas: O Tabu do Sexo.

Essa madrugada uma amiga, ainda dos tempos de escola, veio dormir em casa e ficamos lembrando de professores e colegas antigos, de como nós tivemos uma fase de odiar o colégio e muitas pessoas com as quais tínhamos uma convivência forçada. A escola tem um papel fundamental na formação de indivíduos, e não falo só da educação que está nos livros, mas de um processo muito mais profundo e humano que educar consiste. É engraçado olhar pra trás e ver como era nossa vida há 4 anos, e como fomos educadas para sermos meninas recatadas que abaixam a cabeça para tudo e não tem direito a questionar qualquer tipo de regra.

Me veio à memória um episódio em que eu quase tomei uma advertência porque eu estava desesperada para ir ao banheiro e, mesmo depois de terminar a lição, a professora simplesmente decidiu que eu, com uns 14 anos então, não poderia de forma nenhuma sair da sala e deveria esperar 40 minutos até a aula acabar. Coca-cola é diurética e, pra que nenhum acidente acontecesse, saí da sala sem permissão e fui ao banheiro.Voltei pra sala de aula e encontrei a professora  possessa porque, segundo ela,  minha atitude era muito subversiva! Foi uma confusão imensa e fui levada à direção para assinar uma advertência (?)!  Oi? Posso ter necessidades íntimas? Sem ter que me constranger perante a minha turma inteira e virar lenda na escola de preferência? Não. Fui obrigada a discutir com a professora na frente da classe inteira e soltar: e seu eu estivesse menstruada, a senhora ia me emprestar suas calças pra assistir o restante das aulas e voltar para casa?

Até hoje me lembrar desse momento me trás um pouco de constrangimento e principalmente indignação. Só mostra como alguns professores colocam sua ordem à frente do real motivo de estarem numa sala de aula e como muitos colégios não têm o mínimo preparo para lidar com qualquer tabu, ou situação limite e, por isso, acabam distanciando os alunos da realidade e os dando o sentimento de culpa, ao invés de segurança e sabedoria para lidar com alguns conflitos que surgem naturalmente na adolescência. Me lembro de ter uma momento nas aulas de biologia onde falávamos de sexo e escrevíamos perguntas anônimas que a professora respondia. Todas as dúvidas que fugiam da “normalidade” eram descartadas pela professora. Nada era abordado no sentido de sexo para além da reprodução e a imagem que tínhamos era que qualquer forma de desejo sexual era errado, sujo. Não se podia sentir vontade. Os meninos que perguntavam sobre masturbação eram respondidos, e olha, que glória era ser homem e ter o direito a ter orgasmos. Lembro que para as meninas masturbação era um assunto quase proibido e, se chegava a alguma discussão, era tratado como algo nojento, errado, sujo, mesmo que muitas ali tivessem sim suas experiências com o próprio corpo. A diferença era que para os meninos era legal, para as meninas era errado e ponto final.

Também não se falava de homossexualidade ou outras formas de família que fugissem do padrão pai, mãe e irmãos. Tudo o que fugisse ao padrão era proibido e logo não era abordado. Sorte minha e de algumas meninas que sempre tivemos nossas más influências que nos livravam desse conceito cristão arcaico que só faz reprimir a sexualidade da mulher. Simone de Beauvoir não poderia ser mais clara em sua afirmação: “Não se nasce mulher: torna-se!”. Talvez a escola não tenha mesmo o papel de tratar sobre sexo, pois é de fato um dever dos pais. Mas fujamos à hipocrisia desse tipo de afirmação que desconsidera que é muito raro que pais e filhos se sintam a vontade para tratar do assunto e acabam o ignorando. O ambiente escolar seria então o lugar secundário para tratar da sexualidade e o tema deveria ser abordado por profissionais capacitados e bem preparados para lidar com jovens e não com professores de Biologia, já que esse é o ambiente onde os indivíduos crescem, estão tentando buscar sua auto-afirmação, auto-conhecimento, e é precário  haver ainda esse tipo de repressão que acaba impedindo o desenvolvimento total dos alunos e principalmente das meninas, que são induzidas a ver o próprio corpo com medo.

Desde os anos 60, com a Revolução Sexual que foi iniciada com o uso do anti concepcional, muitas coisas mudaram, mas o machismo permanece arraigado na sociedade e pior, nas próprias mulheres. Elas não tem liberdade com o próprio corpo e sua sexualidade e, algumas, tampouco com suas escolhas. Embora as mulheres tenham conquistado um espaço de maior visibilidade, vejo que muitos pensamentos ainda são os mesmos de 40 anos atrás. Sim, as mulheres hoje trabalham, estudam, mas suas obrigações com casa, marido e filhos, continuam intocadas, há somente um acúmulo de tarefas. Com a suposta liberdade que foi conquistada, ainda hoje atribuímos funções domésticas ao sexo feminino.

Defendo que as mulheres tenham liberdade para observar o próprio corpo e que se quebre com essa cultura machista de que somente o homem irá desvendar a sexualidade feminina. As mulheres precisam conhecer a si mesmas, eliminar o sentimento de culpa que está relacionado a isso, afinal, desejos sexuais são comuns à todos, é uma condição, e negar isso é sucumbir aos preceitos de uma sociedade arcaica que reserva toda a soberania aos homens. E também é necessário que os homens não vejam o feminismo como algo ruim para eles, pelo contrário: com essa libertação das mulheres eles também serão beneficiados. O comportamento das escolas só reflete então, a cultura da sociedade, e esse é o motivo da necessidade da educação sexual como matéria e que esta seja lecionada por profissionais que compreendam que a sexualidade está presente, independente de teorias e tabus que tentem esconder a realidade.

E, por coincidência hoje é Dia das Mães. Parabéns para a minha mãe e todas as mulheres que cumprem jornada tripla de trabalho e mesmo assim não têm reconhecimento da sociedade que  de fato merecem. O mundo deveria ser de vocês.

Pitty – Desconstruindo Amélia

Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar
O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair…

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende porque
Tem talento de equilibrista
Ela é muita se você quer saber
Hoje aos 30 é melhor que aos 18
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra nigth ferver

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro

Recomendo: O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir;

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23 comentários

  1. definitivamente era o que eu precisava ler pra crer que esse assunto não só nos interresou com ‘desc amélia’ de fato o que foi citado vivenciei com amigas na escola, e olha que elas era do contra e tocavam em alguns assuntos, e sobre padrao de familias, acho que merecer ser o prox post.

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    1. Eu também era do contra e você sabe que falo abertamente de tudo! hahahaa
      Padrões de família é um bom tema! (:
      Vou pensar no que escrever!

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  2. É.. hoje em dia, a brincadeira de criança de 14 anos é totalmente diferente daquela época.Apesar de ser um post grande, e não tirando o mérito de que é um belissimo post sobre abordagem desde assunto..acho bacana trazer a tona um assunto que pra muitos pais é dificil lidar para com as filhas..Seu blog é interessante,seria bom se houvesse pessoas que viessem aqui ler tudo e não comentar qualquer coisa,mas enfim..vá em frente.. Abraços.

    Se puder retribur,
    http://redesenhei.blogspot.com

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  3. Show o texto. sempre tive uma visão feminista e não nego…até que mulheres tenham reconhecimento, respeito e igualdade, temos que gritar e lutar. Hoje a coisa está andando para a causa, podemos observar o fato de ter mais mulheres em cargos superiores, tanto no setor privado quando no público, porém, como você mesma disse: ainda a tarefa doméstica predomina na figura feminina e logo essa imagem faz com que mulheres sejam inferiorizadas culturalmente numa visão machista. Outro tabu é a ideia sexual feminina, a mulher mesmo com todo o processo evolutivo desde a revolução sexual, tem dois caminhos: santa ou puta, não porque ela quer, mas sim por ser atribuida a ela. Quando uma mulher( garota) se mostra mas desinibida com relação a sua própria sexualidade, ela passa a ser taxada de Puta e outros adjetivos, caso ela seja retraída, ela é taxada de sem vida, seca, opaca, frígida e puritana…enfim. pegando essa linha de pensamento, hoje podemos dividir as mulheres em diversas categorias: as que vendem o próprio corpo( prostituta e as sub celebridades( dançarinas frutas)), as que se conformam com o comodismo e se deixam impor pela lei máxima: mulher é piloto de fogão e as que vão além: são de fato mulheres!
    Entrando na discussão de um modo geral, podemos observar que a mulher é inferiorisada tanto pelo aspecto social como cultural, observamos isso desde antiguidade, onde a mulher não exercia nenhum tipo de opinião. a Igreja (cristianismo) veio somente a propagar o que a antiguidade já vinha fazendo: deixar o feminino como subalterno do masculino. Hoje em aspecto religioso, podemos observar essa constatação no Oriente Médio, mesmo tendo alguns tabus sendo quebrados.

    enfim, se eu ficar aqui, faço outro texto!

    sou um homem feminista que acredito que temos sim que acabar com a cultura predominante machista!

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  4. Acho ridiculo esse tipo de machismo nas próprias mulheres. Na minha época de escola era igual, e para você ter ideia, minha tia falava para minha prima que ela tinha vindo da cegonha.
    Eu ria tanto da inocência dela…
    Mas enfim, hoje em dia as coisas deveriam ser diferentes, mas infelizmente SEXO ainda é um assunto tabu.
    Como meu pai me dizia quando eu era pequena… Ele contava a história de uma criança que perguntava ao pai o que era o sexo.
    O pai dela carregava uma sacola cheia de coisas e pediu para que ela pegasse a tal sacola.
    Ela tentou e não conseguiu. E o pai dela perguntou porque ela não conseguia pegar a sacola.
    Ela repondeu que não conseguia pegar porque era muito pesada.
    Então o pai dela explicou que o sexo, ainda era uma coisa muito pesada para que ela entendesse o que era.
    Muitas pessoas tratam outras, com pouco conhecimento, da mesma maneira que este pai tratou de sua filha…

    @Detachez

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  5. Olá, texto realmente muito bom. Eu estou numa fase nostálgica, cada placa de transito, casa bola jogada no meu pé, eu lembro do tmpo de escola. Gostei muito dp texto 😛

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  6. É realmente revoltante ver na atual sociedade a força do machismo sobre nós mulheres que somos sempre o “sexo frágil”. Mas incrível é ver a dedicação e a força das mulheres que são capazes de infrentar casa, marido, filho, trabalharem e estudarem, e muitas vezes essas mesmas mulheres não são reconhecidas por todos esses esforços. Dentro de muitas instituições familiares ainda vemos um “homem” dominante dentro de casa e tudo isso por sua força física! O que para mim não significa nada sabe? Acho que é muita hipocresia pensar na mulher como personagem secundário em uma sociedade, na minha família tenho um tio que assumio tarefas de mulher e ele não se sente menos homem por isso, a sociedade precisa parar de ver as coisas como anormalidade e abrir os olhos para o mundo que vivemos hj em dia. Não é mais uma ditadura, mas as pessoas estão tão alienadas que acabam sendo marionetes, seja de igrejas, de politicos ou do que quer que seja. Ainda são robôs feitos apenas para seguir o que lhes é imposto, sem questionarem-se e sem preocuparem-se em dar uma educação moral às crianças. Acho que até mesmo por isso vemos muitas pessoas que tratam o sexo como forma de prazer carnal, sem se preocupar com o sentimento de quem divide a cama sabe?
    Acho que essas são questões que vão além de ensino, mas também englobam valores e moral de todos os cidadãos!

    @jehvias

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  7. Amei o texto. Não só por falar de sexo e conter a música da Pitty que eu tanto amo, mas por tratar de algo que é super importante. É mega dificil encontrar pessoas que falem sobre o assunto abertamente, mesmo sabendo que praticamente todo mundo faz e aqueles que deviam e não fazem, muitas vezes são infelizes por isso. Sou super grata ao fato de que tenho um namorado/amigo que escuta aquilo que preciso dividir com ele e atende a necessidades que muitos homens não prestam atenção e nós mulheres desejamos tanto.
    Infelizmente é dificil fugir as funções domésticas pois nós mulheres/meninas, crescemos aprendendo essas coisas, enquanto eles muitas vezes, crescem aprendendo a como concertar um objeto, mas isso tudo está mudando e provavelmente, ao nossos filhos e principalmente as nossas filhas safrerão menos que nós.

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  8. A gente passa tantos anos de nossas vidas tendo de ir à escola, que este deveria ser o primeiro lugar (depois de nossas casas) onde todo mundo pudesse se sentir à vontade para ser o que quiser. Infelizmente as escolas hoje em dia ainda seguem aqueles modelos de antigamente, onde só existe um certo e um errado.

    Na escola onde eu estudei quase a vida inteira, falar de sexo até que não era uma coisa difícil, mas parecia que existia o “sexo para os homens” e o “sexo para as mulheres”. Além de que abordar temas como o homossexualismo era praticamente impossível, porque até mesmo os professores, diretores e outros funcionários tinham a cabeça muito “fechada” para isso.

    Mas é bom sair por aí e ver que muitas pessoas já estão abrindo os olhos e aceitando as mudanças. Fiquei muito feliz quando entrei para a universidade e notei que era um universo bastante diferente, cheio de possibilidades para discutir qualquer coisa. Claro que, mesmo em ambientes assim, ainda existem tabus e preconceitos, mas já é um grande avanço que haja pessoas indo contra essas coisas.

    @ http://reunidoradepalavras.blogspot.com

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  9. Acredito que da parte feminina é mais como forma “inocente” de proteção e que muitas vezes é mal interpretado e até subvertido como machismo.
    Belo texto e belo blog, estou a seguir.
    Beijos.

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  10. Você construiu a discussão de uma forma excelente, de verdade. Quando, no meu blog, eu me referi que à celebração exacerbada pela aprovação, por parte do STF, da união civil homossexual como uma babaquice superficial, me referia que a raíz da questão da sexualidade é muito mais ampla do que uma aprovação em tribunal. Você tirou a discussão dos tribunais e da superficialidade.

    Bom, algumas pontuações mais interessantes. Ter colocado a sexualidade como um tabu. Realmente, falar o que é reprodução sexual em sala de aula não tem ABSOLUTAMENTE NADA A VER com a discussão sobre sexualidade. E é engraçado que, numa sociedade em que todo mundo busca sexo, todo mundo cria segundas intenções em relações de sociabilidade, a vontade de fazer sexo seja tratada como algo que não possa ser declarado. O sexo mesmo nem chega a ser errado, mas a intenção de fazer… ai ai. A homossexualidade mesma foi apreendida muito bem como um conceito, mas assumir um desejo homossexual ainda faz muitos progressistas coçarem a cabeça. Disserto mais se for dada continuidade à discussão.

    E só outra colocação. Você falou da revolução sexual. A revolução sexual foi um fenômeno surgido na sociedade francesa, com abrangencia em toda Europa ocidental e com repercurssões nos EUA. Mas, assim como outros muitos processos progressistas, não aconteceu no Brasil. Eu diria que, simplesmente, no Brasil, nunca houve revolução sexual. E isso explica muito.

    ótimo texto, (e é só a “administração” do blogger deixar eu acessar minha conta que eu respondo o “selo”).

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    1. É no Brasil nunca aconteceu uma revolução sexual, mas eu diria que o reflexo sim… Como mulheres de biquini na praia, tirando a roupa no carnaval! É uma contradição muito grande esse tema num país como o nosso!

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  11. Gente na minha sala tem um professor ele não é bonito de rosto mas de corpo é lindoooo,eu acho que ele me acha bonita pois ele conversar comigo diferente não que ele queira algo comigo e sim pelo motivo que falei,sera que estou certa to ate começando a gostar dele acreditam?

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