O Problema do Amor Unilateral

Semana passada, lendo alguns blogs, fui apresentada ao psicanalista Flávio Gikovate, que foi um dos pioneiros no Brasil a abordar questões sobre amor e sexualidade. Gikovate escreveu diversos livros e apresenta todos os domingos às 21h, pela CBN, o programa “No divã do Gikovate”. Foi uma enorme e maravilhosa surpresa assistir a uma palestra do psicanalista na qual ele fala sobre amor e sexualidade, temas que por serem dotados de tantos clichês e obviedade, tornaram-se chatos e desinteressantes. Gikovate porém, os abordou com uma enorme clareza e os expondo de maneira pouco corriqueira, provou que é sim possível falar sobre amor e sexualidade sob novas perspectivas.

Segundo o autor, crescemos buscando a sensação de perfeição, paz e plenitude que sentíamos ainda no ventre materno, que seria responsável pelo fenômeno do amor. Entretanto, crescemos acreditando em uma forma de amor que foge à realidade dos relacionamentos amorosos saudáveis e felizes, já que esta se baseia na ideia de um amor romântico, no sentido literário da palavra, que parte da premissa de que o indivíduo é sempre incompleto e então, irá se relacionar com outro ser tão incompleto e assim, os dois irão se completar, como se essas pessoas fossem a “fórmula da felicidade” de seus respectivos amores. Contudo, esse modelo não funciona, pois, baseado nessa relação de inter-dependência, os envolvidos passam a descontar suas frustrações e insatisfações nos parceiros, e a relação jamais evolui. Daí surge também a ideia de quem os opostos se atraem, visto que a mesma é alicerçada nos dizeres de que o o traço que um indivíduo não possui por natureza, ele irá encontrar em seu parceiro.

E então, dado o problema, qual seria a solução, a fórmula secreta que todos querem descobrir para viver relacionamentos amorosos saudáveis, felizes e prósperos? O segredo estaria na individualidade, que leia-se, é totalmente diferente do egoísmo. E realmente faz muito mais sentido: uma relação entre duas pessoas que são completas, que sabem conviver consigo mesmas, que não se afligem com a solidão e que se amam e acrescentam um ao outro. Foi lendo Gikovate que entendi o motivo de ser tão incompreendida por algumas amigas e de (quase) sempre me envolver com as pessoas erradas. Foi Rita Lee quem disse: “Amor sem sexo é amizade”, mas quando avançamos no patamar dos relacionamentos, acabamos nos envolvendo sentimentalmente com quase-amigos, quase por que, além do envolvimento afetivo, há simultaneamente o envolvimento sexual.

Estar ou não em um relacionamento concreto, estar namorando, morando junto, ou casado com alguém, é tido como um bônus para alavancar o status social, logo quem não está envolvido com ninguém é tido como um coitado, visto como incompleto. Realmente nunca tive ou sempre deixei minha sorte no amor escapar, o que não significa que eu seja menos feliz do que alguém que tem com quem dividir o travesseiro todas as noites. De fato, depois que parei de emendar relacionamentos que pouco me fizeram crescer, e perdi o medo de ficar sozinha, de não ter sempre companhia para o cinema, para quem ligar tarde da noite e falar coisas quentes, aprendi a gostar de quem eu sou e reconhecer o que há de bom e de ruim em mim, e conquistei o prazer de conviver e lidar bem com isso. Não há nada mais gratificante do que conhecer a si mesmo, e saber que esse auto-conhecimento foi conquistado à suas próprias custas, sem depender de uma terceira pessoa e claro, usar isso a seu favor, escolhendo melhor as futuras pessoas com quem irá se relacionar.

Contudo, é difícil que as pessoas percebam isso, como eu também demorei a perceber, e continuem no eterno ciclo vicioso dos relacionamentos de inter-dependência que nunca funcionam, até que resolvam mudar a fórmula. Talvez a dificuldade nessa mudança seja fruto de uma ideia de posse e ciumes existente na maioria dos relacionamentos, que ao invés de serem baseados na cumplicidade do casal, se estruturam em cobranças e obrigações. Nessa situação, acaba sempre existindo aquele que necessita menos de amor e o que necessita mais, sendo que sempre vai haver insegurança, insatisfação e a grande armadilha do amor unilateral,onde um sempre ama mais, ou ama a projeção que fez do outro para alimentar suas expectativas desesperadas de encontrar companhia e a cura para seu vazio interior. Não sei se é muito, mas talvez seja mais difícil encontrar quem esteja disposto a vivenciar um relacionamento “moderno” onde o amor e não convenções sejam a regra, e que haja sinceridade para que nenhuma das partes se aproveite da liberdade que o relacionamento fornece para garantir benefícios apenas a si próprio.

E segue abaixo um trecho da palestra de Flávio Gikovate no programa Café Filosófico:

As demais partes do vídeo podem ser vistas no youtube e se você quiser saber mais sobre o tema, pode ler o artigos no site do psicanalista.

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5 comentários

  1. Querida, vi o anúncio de seu blog numa das comus e fiquei curiosa de vir conhecer. Ele é ótimo, sua escrita é lúcida,limpa, suave e agradável. Realmente amor não é fórmula, remédio, biotônico Fontoura, pó de pirlimpimpim. Não é saída, é entrada. A gente não chega para tirar, para ordenhar; chega-se basicamente para oferecer. Martha Medeiros sempre cita uma frase (de outrem) que diz mais ou menos: amor não é uma forma de a gente resolver problemas, é um prêmio para quem resolveu os seus. 🙂 Não é bem assim, mas a ideia é essa. Claro que a gente não chega perfeito ao ser amado, porém a intenção é de melhorar a vida dele e não a própria. Iluminá-lo em vez detomar luz emprestada. Beijos e sucesso no ótimo blog!!

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    1. Poxa, e eu acho que Gikovate fala coisas tão óbvias que chego a ficar impressionada com a quantidade de pessoas que se surpreendem com o discurso dele. Muito do que ele diz são coisas que eu já cansei de remoer na minha cabeça, talvez por isso o discurso me pareça óbvio na maioria das vezes. Não digo em relação aos livros, mas aos vídeos e textos da internet. Certa vez um amigo me disse que eu tinha uma boa percepção das coisas, e que a maioria das pessoas não era assim. Pode ser. Às vezes eu acho que penso demais, mesmo.

      Mas já percebi que um dia o Flávio Gikovate diz uma coisa, e no outro dia lança uma ideia amenizando o que tinha dito anteriormente. A impressão que tenho é que ele quer agradar a gregos e troianos…

      Abçs

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