O ‘Brinquedo Torto’ de Tempos Modernos

Charles Chaplin é um dos cineastas, humoristas e pensadores mais incríveis que o mundo já teve o privilégio de conhecer. Seus filmes, carregados do humor e críticas, são geniais e não há outra palavra que melhor os defina. O meu preferido é, sem dúvida alguma, Tempos Modernos. O filme começa com um relógio e uma música frenética que ajuda Chaplin a compor uma metáfora irônica e brilhante: centenas de ovelhas indo para o abate com pressa e medo e, logo em seguida, milhares de homens nas ruas, acelerados, indo para as fábricas, onde se tornam apenas uma peça do maquinário do sistema capitalista, reduzidas a uma função repetitiva e alienante, prestando ordens a um patrão, sendo ordenados. Um crítica maravilhosa à sociedade que se formou logo após a primeira Revolução Industrial, onde os operários eram engolidos pelo poder do capital e aquele que fosse contra o sistema e suas imposições acabava excluído da sociedade e posto às suas margens. Pausa.

Coincidência ou não, há algum tempo, ouvindo Brinquedo Torto, da Pitty, tive um insight relacionando a música a Tempos Modernos. No filme, o personagem de Chaplin (Carlitos) é engolido pela máquina,  metáfora que simboliza o homem sendo devorado pelo sistema (capitalista), que é exatamente o tema de Brinquedo Torto. Sofremos controle do Estado e do sistema a todo instante, de maneira muito velada e sutil, de forma que não podemos visualizar isso de maneira clara. Assim como Carlitos e todos aqueles homens uniformizdos que aparecem no início do filme,  fomos todos engolidos pelo maquinário do sistema e dançamos a música que nos mandam.

“Esqueci as regras do jogo e não posso mais jogar, veio escrito na embalagem ‘use e saia pra agitar’, vou com os outros pro abate, o meu dono vai lucrar. Seja cedo ou seja tarde, quando isso vai mudar? (…)”. É assim que a Brinquedo Torto começa, com uma Pitty nada direta nos fazendo um convite ao pensamento e instigando nossa crítica. Enquanto Chaplin retrata a sociedade e sua dinâmica, Pitty nos faz perceber a maneira como nos adequamos à ela, nos submetendo a regras, adquirindo valores que não são verdadeiramente nossos , vendendo nossa mão-de-obra, nossa capacidade intelectual, nos rendendo a tudo que foi previamente estabelecido pelo estado e pela mão invisível que comanda o sistema; em suma, assumimos personagens e esquecemos quem deveríamos ser.

O filme e a música se encaixam por fazerem a mesma crítica de um sistema que controla as pessoas para que assim possa lucrar, e que exclui aqueles que fogem aos padrões pré estabelecidos que garantem a massificação do pensamento dos indivíduos que constituem a sociedade, já que, pensando da mesma forma, é mais fácil manter a ordem; cria-se uma mostro com vários braços e pernas e uma só cabeça, para que este possa ajudar a combater qualquer forma de subversão, fazendo com que a sociedade sabote a si mesma e jamais se volte contra as normas.
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Pitty – Brinquedo Torto

Esqueci as regras do jogo
E não posso mais jogar
Veio escrito na embalagem
Use e saia prá agitar
Vou com os outros pro abate
O meu dono vai lucrar
Seja cedo ou seja tarde
Quando isso vai mudar?

Não me diga: eu te disse
Isso não vai resolver
Se eu explodo o meu violão
O que mais posso fazer?
Isso é tão desconfortável
Me ensinaram a fingir
E se eu for derrotado
Nem sei como me render

E eu me vendo como um brinquedo torto
E eu me vendo como uma estátua
E eu me vendo como um brinquedo torto
E eu me vendo como uma estátua

Esqueci as regras do jogo
E não posso mais jogar
Veio escrito na embalagem
Use e saia pra agitar
Vou com os outros pro abate
O meu dono vai lucrar
Seja cedo ou seja tarde
Quando isso vai mudar?

E eu me vendo como um brinquedo torto
E eu me vendo como uma estátua
E eu me vendo como um brinquedo torto
E eu me vendo como uma estátua (2x)

Uma estátua
Uma estátua
Uma estátua.

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2 comentários

  1. Não é a primeira vez que a Pitty comete essa façanha. A música “Adimirável Chip Novo” faz referência a um livro que se bem me lembro tem o mesmo título.
    Mas é bem legal discutir esse tema já que a sociedade está a cada dia ditando mais regras e as pessoas vivendo diante delas como se tudo fosse normal.
    Muito bom o texto.
    Beijão

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  2. Esses vários braços e pernas seriam os aparelhos estatais, sempre regendo nosso jeito de viver.

    Basicamente, o filme e a música expressam a forma como o sujeito é tratado. Mais uma máquina. Mesmo hoje, após a tentativa frustrada de uma administração com base em pessoas, não em máquinas, as “pessoas” ainda são tratadas como máquinas, só mudou o nome.

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