Onde estão os imperfeitos?

Nos esforçamos para não comer muito e nos mantermos magros e criamos cada vez mais obsessões com nosso peso e nossas formas. Submetemos nossos corpos à torturas: cirúrgias plásticas com finalidades puramente estéticas, métodos de depilação cada vez mais eficientes e não menos doloridos, e cuidados com nossa aparência que levam a psicopatologias modernas e amplamente aceitas.

Paralelamente, passamos metade dos nossos dias nos privando de nossas próprias opiniões, com um alerta ligado nos dizendo que precisamos ser “do bem” o tempo todo. Não somos sinceros porque uma simples opinião pode ser sinônimo de ofensa. Então acreditamos que somos desprovidos de preconceitos, que nossa moral está acima de qualquer prova e vivemos nesse ambiente simplista e ilusório. Sequer temos coragem de perceber que embora nosso alerta de ações politicamente-corretas-ou-não esteja sempre ligado, ele não nos impede de sermos hipócritas, arrogantes e prepotentes. Nosso ego nos faz crer que nossas verdades são sempre as mais sábias e inquestionáveis. Não odiamos os gordos, mas cometemos loucuras para permanecermos magros, assim como xingamos infratores de “baianos” no trânsito, mas não temos nada conta o nordeste e sua gente que tem “sotaque feio e vem tumultuar o metrô de São Paulo”.

Além disso, embora não acreditemos, nos achamos tão superiores uns aos outros que perdemos a noção do bom-senso e do respeito em nome de modismos questionáveis. Desrespeitamos a fé alheia em nome do nosso direito de não crer em nada. Desrespeitamos a vida alheia pelo nosso direito de viver à nossa maneira. Desrespeitamos o direito do outro de ter livre expressão em nome do nosso direito de expressão!

Não acredito que tenhamos todos que mostrar atitudes exemplares (quando muito as pessoas ainda servem de exemplo para seus filhos), e então, não faz nenhum sentido vivermos como se tivéssemos a obrigação de sermos incríveis e boa gente o tempo todo, isso só leva a maiores confusões! Deveríamos, de uma vez por todas, assumir que somos hipócritas, paradoxais, contraditórios, presas de nossa própria vaidade, sem excessões! Nada mais rejuvenescedor e construtivo do que poder mudar de opinião quantas vezes quiser, mas estamos limitando o nosso direito de ter opiniões, confundindo liberdade com a escravidão gerada pelas próprias regras que criamos e alimentamos.

Se julgassemos menos, talvez tivessemos mais amigos e amássemos mais. Se refletíssemos mais, talvez conseguíssemos enxergar outros pontos de vista melhores. Se parássemos de desperdiçar nosso tempo com pessoas, tarefas e pensamentos que nos sugam e nos cansam, talvez tivéssemos mais tempo para nós e para os nossos e soubéssemos aproveitar mais… Se assumíssemos nossa condição, talvez sobrasse mais tempo para entender que sim, podemos ter opiniões, criticar e odiar o que ou quem quisermos, desde que tenhamos fundamentos para tanto, e que isso não é nenhuma falha de caráter. Creio, inclusive, que parar de fingir as coisas seja uma possível solução para a diminuição dos índices de câncer.

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7 comentários

  1. Elucidou bem. é difícil assumir certas características ( na falta de um expressão melhor ) e quando assumida, o trabalho autocrítico é mais eficaz. como eu sempre gosto de falar: burro é aquele que não muda de opinião, diante de algo totalmente viável e lúcido do que outrora foi dito!

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  2. eu não ia comentar… pq tu sabe como sou ne? mas não resisti..
    A reflexão/critica aí é precisa. No tom certo a ponto de incomodar e causar desconforto.
    As situações ali descritas condizem com a realidade de todos nós.
    Cometemos tais atos sem não ao menos percebermos. E atos q não possuem relação alguma com caráter ou índole.
    O que vivemos hj em dia(se é não sempre foi assim) é uma Era que busca a perfeição a todo o custo. Não é novidade a ngm que nossos Ego’s estão em alta de uma maneira alarmante. Todos se acham a perfeição em pessoa, deuses e deusas, a Era Das divas e divos, em que ser popular, famoso e se sentir molde é meta de vida. Pra isso nos privamos de quem somos para alcançar tais medidas, valores e reflexos.
    Fingimos burlar e evoluir acabando com o moralismo antiguado para na verdade nos prendermos ainda mais no passado ditatorial e nos prendermos no q o Outro acha q devemos ser. mesmo aqueles que dissem: sou quem eu sou, na realidade são apenas concorrentes a miss Era perfeita, pensa que é imperfeito para assim ser o perfeito de hj.. ta na moda ser vilão, roqueiro transgressor.
    E o que fazer para mudar isso? não sei, pq no final, tbm somos assim, e assim escrevemos, e assim debatemos.. a unica diferença é que sabemos disso.
    Eu diria que somos um dos poucos imperfeitos… mas sera que isso tbm não é qrer atingir a perfeição aos olhos de fora? como saber?
    Bateu e doeu.. e por isso amei o post!

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    1. Eu não sei se assumir que ser imperfeito é uma outra forma de buscar a perfeição, mas eu sei que isso nos poupa inevitavelmente de ficarmos estacionados em nossas verdades mancas sem evoluir!
      Conheço tanta gente que se acha dona da verdade, e essas mesmas pessoas continuam as mesmas enquanto o tempo passa, não sei como aguentam…
      Mas é bem o que você disse no comentário mesmo, vivemos na era da perfeição, de uma maneira ou de outra, todo mundo quer ser bonito, boa gente e estar na moda, sabe? Por isso estamos nos tornando intolerantes e entediantes! Viva os diferentes e os imperfeitos que assumem isso! Ser imperfeito, paradoxal, hipócrita às vezes, não é nenhuma falha de caráter… Todo mundo é hipócrita em alguma coisa, até quando odeia o outro por uma caractesrística que vê em si mesmo, e faz isso inconscientemente…

      Pano pra manga total! HAHAHAHAHAH

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      1. Olá! Você deixou um comentário no meu blog, e por isso vim aqui agradecer. Aproveitei para ler alguns posts, que são realmente incríveis. Gostei também da ideia do concurso cultural e estou sim bem interessada! Vou pesquisar o texto que foi mais bem aceito e envio o quanto antes. Parabéns pelos blogs!
        Só por curiosidade, como soube do meu blog?

        Um abraço

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