Lugar de mulher não é na cozinha… é onde ela quiser!

Ontem foi um daqueles dias complicados em que tive certeza que é obrigação de qualquer pessoa com o mínimo de esclarecimento e coragem, ser feminista e lutar por mudanças. Em um almoço de família recebi alguns conselhos de grego dizendo sobre o quanto a mulher precisa saber cozinhar (o que é melhor do que ter uma boa formação acadêmica ou uma bela carreira), arrumar a casa e não pode ser preguiçosa nem desrespeitar o marido para não lhe dar o direito de agressão, além do quanto é feio que saia sozinha, esteja acompanhada apenas de amigos do sexo masculino ou chegue tarde em casa  – o que além de condenável é perigoso. Nas entrelinhas do assunto, percebi que ainda existe o pensamento de que a mulher não gosta de sexo: para elas o sexo é um limitador de sua honra, motivo de vergonha enquanto, para eles, é uma vitória conquistada e motivo de muito orgulho. Ou seja, como mulher, eu teria a obrigação de me resguardar e me dar o respeito!

Não preciso dizer que fiquei – e ainda estou – horrorizada, já que eu acreditava que o machismo não me atingia de maneira tão contundente. Mas ouvir essas ideias de pessoas da minha própria família me fez imaginar que provavelmente me consideram marginal por eu ter 20 anos, não namorar ninguém e nem estar empolgada com a ideia de filhos e casamento pelos próximos cinco anos pelo menos, e me deu também mais vontade de falar sobre o assunto, pensar em soluções e trabalhar mais nessa coisa de “ativismo digital”. O machismo e o patriarcalismo não fazem mais nenhum sentido em tempos nos quais as mulheres não dependem mais dos homens, sendo padrões de comportamento prejudiciais para ambos os sexos.

De acordo com a psicanalista e escritora Regina Navarro, em entrevista ao Ig, o patriarcado “instaurou a propriedade privada e o homem tornou-se obcecado pela paternidade para não deixar herança para o filho de outro. Nisso, a mulher foi aprisionada de maneira terrível”. Entretanto, segundo a autora, esse sistema tem perdido sua força e razão de existência desde a invenção da pílula anti-concepcional: “Antigamente, a mulher tinha quantos filhos o homem quisesse, passava a vida toda amamentando. A pílula desassociou o sexo da criação e a mulher se livrou da gravidez indesejada. No patriarcado, os papéis sempre foram bem definidos. Aos homens: força, sucesso, poder e coragem. Às mulheres: ser meiga, gentil, suave, submissa e cordata. Com o desmoronamento do sistema patriarcal causado pela pílula, a fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo.”.

Com tantas mudanças, é preciso lutar por sociedade igualitária, que dê assistência a todos, visto que não faz nenhum sentido nos prendermos a tradições culturais que não abrangem a totalidade dos fatos e apenas nos levam a tapar o sol com a peneira ao invés de permitir que encontremos soluções para as questões que nos cercam, como diversidade e liberdade sexual, poli amor  relacionamentos abertos, famílias não convencionais, etc..

Antigamente as mulheres se casavam porque eram obrigadas, hoje, compreendemos que nem todas as pessoas veem no casamento um sonho de vida. Muitos casais optam por não ter filhos e alguns, ainda que tenham possibilidade de engravidar, recorrem à adoção, e não há nada de errado com isso. As famílias não são mais constituídas por uma mulher, um homem e seus filhos. Precisamos nos livrar da herança machista e ceifadora que nos foi deixada pelo pensamento judaico-cristão, que com a invenção do pecado e da castidade, sem dúvida alguma, criou o meio mais eficiente de controle social: a patrulha da sexualidade humana.

Não precisamos mais disso, podemos ser livres para escolher o que fazer com nossas vidas, assim permitindo que o outro possa ser feliz a seu modo também, não importa se solteiro, homossexual ou casado há 30 anos com uma pessoa sem nunca tê-la traído.

Tenho 20 anos e muito a viver até resolver me casar um dia, caso dê vontade. Enquanto isso, quero me dedicar a bons livros, boas festas e amigos nos quais confio. Quem sabe passar um tempo fora do Brasil, conhecendo e me enriquecendo pelo mundo… Quero escrever um livro (que está na fase do rascunho), plantar uma árvore, aprender falar uma terceira língua e depois disso, eu talvez pense nos filhos. Será que ainda vão me discriminar muito por eu achar uma baboseira essa ilusão de amor romântico?

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4 comentários

  1. Ola´, tudo bem?
    Gostei muito de seu blog, mas tenho varias discordancias sobre as coisas que vc escreve, especialmente sobre o tema “feminismo”. Vou me ater a este post, ok?
    Primeiro, vc disse logo no inicio que é “obrigação de todos” ser feminista. Discordo. O feminismo não é o unico ferramental teorico-metodológico pra se pensar gênero,pelo contrario, pode-se citar a Teoria Queer, o pós-feminismo, desconstrutivismo, etc… não é por que os outros discordam das falas das feministas que eles sejam “mascus” (ou seja, sejam favoráveis ao estupro, a violência, à homofobia, etc…) eu mesma acho que o discurso feminista emperrou nos anos 1970. As bandeiras são as mesmas desde lá- e note que não à toa vc usou uma imagem dessa época pra ilustrar a “opressão da mulher”. POr isso milito e me baseia num outro referencial. Vivemos numa mundo pós-moderno em plena era do pós-gênero, por isso devemos ser pós-feministas.

    Outra coisa: sou militante e defensora do “amor romantico” e acho interessante vc se dizer discriminada por ser contra. Numa época em que o chamado “romantismo” é tratado como doença mental e que se diz o tempo todo que ela acabou (procure “fim do amor romantico” no google) parece que o patriarcado já se apoderou da ideologia “libertária” do poliamor e “novidades” do tipo. Afinal, nada melhor pro machão, que como vc sabe em nossa sociedade é estimulado desde criança a ser “o pegador”, do que um modelo de familia e relações onde ele possa ser totalmente livre pra sair com quem quiser, sem responsabilidade nenhuma pela companhanheira e sem ser censurado por isso (antes a mulher que reclamava era só “corna” agora é “ciumenta e possessiva”- além de continuar sendo “corna”). Mas viva o feminismo! rs

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    1. Gostaria de esclarecer que a Teoria de Queer, o desconstrutivismo e o pós-feminismo fazem parte do discurso feminista que conheço e que me inspira, como pode ser visto no meu texto, no qual eu digo que é inconcebível a existência de ensinamentos tão machistas às mulheres nos tempos de hoje, além da permanência dos nossos padrões ainda rígidos de gênero.

      Quanto ao amor romântico, o considero machista e ilusório, de acordo com as definições do psicanalista Flávio Gikovate. Segundo suas teorias, o amor romântico baseado na ideia de que todos encontrarão uma alma gêmea e se sentirão completos a partir de então, é baseada na idealização de um par inexistente, levando á frustração. Concordo quando ele diz que a felicidade de uma pessoa jamais depende de um par perfeito, responsável por curar todos os vazios inerentes ao ser humano. Considero que o ideal é conseguir a felicidade por si só. As chances de ter um relacionamento mais bem sucedido e feliz aumentam conforme a pessoa é capaz de lidar com sua própria solidão e com seus medos. Não sou contra o amor e os relacionamentos (muito pelo contrário), apenas tento escapar das amarras do senso-comum em busca de modelos de relações saudáveis, duradouras e sinceras.

      Obrigada pelo comentário =D

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  2. Parabéns pelo artigo, achei muito esclarecedor. Eu também (ainda) me surpreendo com algumas posturas machistas, antiquadas e preconceituosas. Mas o fato é que essas posturas já vêm de milênios e continuam sendo a “verdade” para muita gente. Fazer o quê, né? Podemos até tentar esclarecer, mas tem gente que não entende de jeito nenhum. Mas é isso aí, as pessoas mais esclarecidas vão compreender, fique certa disso.

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