Lugares comuns

Às vezes me pergunto se é sinal de coragem ou muita burrice insistir em ser quem eu sou e pensar da forma que penso. Aliás, penso demais, sinto demais, quando poderia ser igual a qualquer outro cidadão. Seria muito mais cômodo me interessar por pessoas comuns, ouvir músicas e assistir a filmes comuns, estar em lugares comuns e não ter que me preocupar em convencer as pessoas do meu ponto de vista. É uma tarefa um tanto árdua ser de fato quem a gente é e aprender a lidar com a necessidade que os outros têm de que a gente se justifique o tempo inteiro.

Mas desde que me entendo por gente, não sei não questionar, não sei não pensar ou dar minha opinião. Meus ídolos são quase todos anti-heróis, meus livros favoritos são sarcásticos e críticos, meus amigos são os desalinhados, poetas de quartos escuros, sonhadores tanto quanto eu. E é esse o universo que me nutre. O espaço entre o sonho e a discórdia é onde eu vivo.

Quando tenho insônia ou estou presa nesse trânsito insuportável de São Paulo tento imaginar como seria minha vida se eu fosse uma pessoa comum, mas me dá desespero. Não consigo imaginar minha vida presa nas zonas cinzas do planeta, chegando aos trinta anos e trabalhando num emprego que eu odeio, que me paga pouco e quer controlar minha vida, meus planos, meus horários. Não consigo conceber a ideia de ter uma família nos padrões arcaicos e passar todos o resto dos dias pensando nas crianças, assistindo Jornal Nacional e nos domingos o Faustão. Parece arrogância, mas é auto-estima: mereço mais!

Quando estou no mercado, no shopping ou nas redes sociais ruminando vejo uma porção de pessoas fúteis com as quais não me identifico. Elas cuidam cuidam da minha vida mais do que das suas, estão preocupadas com a novela, com o que os gays e as lésbicas fazem na cama, mas não com seus próprios valores. Estão preocupadas em arrotar títulos e etiquetas de marca, mas não em arrotar valores de espécia alguma.

Se essas pessoas se indignam com meu cabelo, minhas preferências políticas e meus protestos, continuarei a me indignar com seu conformismo e com todos os cidadãos de bem que fecham os olhos diante do caos e sentem medo diante do diferente. Cidadãos de classe média que se julgam a nata da sociedade, que defendem o interesse dos ricos e se esquecem que é por eles que são oprimidos. Gente que anda feito cordeiro.

Prefiro seguir me ferrando e me cansando de separar sempre o joio do trigo a me adequar a todos os anseios. Prefiro seguir compactuando com o pensamento de Krishnamurti e acreditando que não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente. “Se é coragem eu não sei”.

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