Textos Pessoais

Crônicas de um amor clichê

Ainda me lembro daquela tarde de café no Starbucks e a nossa foto tirada no espelho. Não bastasse todo o clichê de filme americano, eu também achava que estava diante do único ser humano que poderia compreender meus clichês existencialistas. Mulher-independente-segura-cheia-de-si-e-de-aço-com-vontades-próprias-mas-que-também-quer-um-amor-porra. Tão simples, não? Não. Confirmado à contra-gosto o clichê de que homem teme sim mulher que sabe de si e impõe suas vontades e que mulher, claro, adora fazer cena pra ver se no desfecho se sente um pouco mais amada. Outro clichê que confirmo com vontade é que mulher sempre enfia o pé na jaca com menos cuidado. Se doa, imagina, faz planos enquanto arruma o formato da sobrancelha sozinha diante do espelho e, se não tomar cuidado, se frustra.

Nunca soube conduzir muito bem o raciocínio, mas o que me parece, é que os poetas e seus clichês estão todos certos. “Amor é um cão dos diabos”, ou seja lá o que você escolhe dizer se não for chegado a Bukowski. Prefiro vodka. Amor é uma merda. Amor enche o saco. Dá dor de estômago. Tira o sono. Xico Sá já disse: “A vida é breve, a D.R. é longa.”.

Se a gente ama demais, acaba não amando de um jeito que seja eficaz: esquece que amar também é dar espaço pro outro não sufocar, e esquece de se amar também. Se ama de menos… Calma, existe isso de amar de menos? Existe tanto pra se dosar. Aprender a fazer concessões. Dialogar. A cabeça de uma mulher sempre faz parte do quebra-cabeças masculino.

No final das contas, meus caros, mulher nenhuma é santa mesmo. Dentro da nossa cabeça sempre mora um diabinho que vos insiste em manipular com as mais descaradas chantagens emocionais e atuações teatrais. Na verdade, ela não te odeia. Ela te ama, mas o fez acreditar que está transando com o cara mais maravilhoso do planeta porque você não deu conta do recado. Mas deu sim. E ela não te tira mais da cabeça. Você só deu uma mancada, e ela quer que você reconheça sua parcela de culpa. E ela gosta de saber que ganha tão bem quanto você, ou que rala igual, agir como quem não precisa de ninguém, mas ela precisa. E aposte que justamente por isso, por ela ser dona de si, é que ela te deixa ser cúmplice nessa propriedade privada com tanta honestidade. Uma mulher sempre vai ser um pouco de ajuda ou bagunça no seu caos.

P.S.: Me desculpem por mais um texto hétero normativo demais.

 

 

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Uma crônica sobre amores imperfeitos e reais

Às vezes parece mais simples ficar sozinho. São tantas qualificações requisitadas, tantos empecilhos postos para evitar possíveis pretendentes, que temos a impressão de que fica cada dia mais difícil de encontrar quem nos agrade e iniciar um relacionamento. O moço, ou a moça, dos nossos sonhos precisa ter um tipo de beleza que nos agrade, ser inteligente, ter um gosto parecido com o nosso, ter bom humor, mas também não pode ter humor demais. Precisa gostar de viajar, de ler livros interessantes, não ser ciumento, mas precisa ter um pouco de romantismo. Diante de uma lista tão grande de pré-requisitos, acabamos por vezes fantasiando um príncipe encantado que jamais existirá. A metade da laranja, a tampa da panela, a alma gêmea, sao todas criações do imaginário coletivo.

Por mais idealizações que façamos, vamos ter que nos conformar: nossas relações são reflexos de nós mesmos e, sendo assim, nossos amores sempre serão imperfeitos e reais.

Inevitavelmente vamos nos apaixonar por alguém que tenha manias irritantes e defeitos que aprenderemos a aceitar. E provavelmente nos apaixonaremos muitas vezes por pessoas que nunca imaginaríamos que fosse possível. E, óbvio, quebraremos a cara por diversas vezes também. Mas por quê?

De Ocidente a Oriente, no Brasil ou na Islândia, não importa a cultura ou a religião, as pessoas vivem uma incessante busca pelo amor. Alguns psicanalistas afirmam que a procura por um parceiro se da por querermos sanar o vazio existencial que adquirimos diante da separação de nossas mães no nascimento, outros afirmam que buscamos relacionamentos porque é através da convivência com outrem que descobrimos facetas de nós mesmos, que temos a chance de nos encontrar e nos redescobrir.

Além de tudo isso, temos o fator influência cultural que nos faz querer casar, ter filhos, família, casa, e alguma sensação de segurança, ainda que falsa, afinal tudo pode mudar a qualquer momento.

Seja lá qual for a vertente de pensamento correta, e ainda que a nossa busca atordoada por um amor para chamar de nosso seja fruto da soma de todas essas hipóteses e mais algumas, fato é que todos nós estamos buscando o que fazer diante da vida. E se precisamos ir até o fim, sem nem saber que fim será esse, que ao menos tenhamos alguém para dividir os sonhos, os domingos chuvosos e aproveitar a sensação de aconchego que é poder ser aquilo que se é sem precisar provar nada a quem quer que seja.

“Medo que dá medo do medo que dá…”

Renato Russo colocou em palavras uma realidade do meu cotidiano: “Todos os dias antes de dormir, paro e penso como foi o dia.”. É nesse momento que penso nas minhas tantas incertezas, em minhas certezas tão mutáveis e pego no sono tentando responder as retóricas em minha cabeça. São tantas contradições e paradoxos, tantos medos e tantos atos de coragem, tantas cobranças e tanto descompromisso, que me faltam estruturas para organizar tudo em pensamentos coerentes. A coerência me foge o tempo inteiro.

Eu tentei ser coerente com as minhas escolhas, ser coerente nos meus amores, com a minha escrita, mas descobri que meu maior compromisso é com a vida. É ela que eu quero valorizar, é sobre ela que não quero ter a sensação de que deixei para trás. Eu posso carregar o peso de saber que fui incoerente e contraditória, mas não o peso de que fiz da vida algo que não gostaria. Eu aguentaria a culpa por magoar qualquer pessoa, menos o fracasso declarado por mim mesma me dominando a cabeça. Eu aguentaria me contradizer dia após dia em todas as crônicas e pensamentos que publiquei, mas não o peso de permanecer presa a uma ideia que não sou eu.

Vivo com essa necessidade constante de saber cada dia mais quem eu sou e o sentido de estar presa nesse universo, com a jocosidade de ser alguém entre outras bilhões de pessoas. Vivo achando que devo fazer algo de muito útil, de muito extraordinário, de muito inovador. Vivo pensando que talvez eu precise de respostas para as perguntas que ninguém faz, precise enxergar por ângulos que ninguém olha.

Afinal, “será que não temos tempo a perder” ou “temos todo o tempo do mundo”?, qual é o limite que separa a nossa coragem da covardia?.

E sei é que preciso aproveitar melhor o meu tempo, é que minha vida precisa parar de existir apenas depois que saio do trabalho e cumpro minhas obrigações. Minha vida deve começar no instante em que acordo e não ser vã no momento em que desligo. E sei que a coragem de viver minhas escolhas e colocar em prática as imagens que circulam em minha cabeça, não significam a ausência do medo. A ausência de medo é burrice. Negar o medo é negar a existência humana. Coragem talvez signifique que existem vontades, sentimentos, lugares a se conhecer, planos para concretizar, que são mais grandiosos que nossa gana por controle. Coragem é desapegar, ainda que doa. Coragem é se entregar, mesmo que sofra.  Coragem é saber que algo é maior que o nosso medo.

* Título faz parte de Medo, música de Lenine e Julieta Venegas.

Sobre adequar-se…

Ser mulher não é tarefa fácil. Ser mulher e não fazer parte do padrão branca, magra, alta, bonita e gostosa, é mais difícil ainda. Fica impossível não sentir inveja dos homens por seu universo de preocupações e variações hormonais ser muito menos complexo do que o feminino. Fica ainda mais difícil de não sentir inveja dos homens por vê-los crescendo livremente aprendendo a se impor como indivíduos enquanto nós, mulheres, crescemos aprendendo a nos castrar, nos adequar, nos comportar. Enquanto eles se sujam, aprendemos como devemos nos sentar para não mostrar a calcinha. Enquanto eles comentam sobre a bunda das garotas ou sobre seus recordes de pegação, estamos preocupadas em não termos fama de galinha ou determinadas a nos adequar ao gosto deles. “Não pode ser muito alta e nem muito baixa. Nem gorda e nem magra demais. Tem que ter peito e ter bunda. Cabelo com cachos, só se não for ruim. Se beijou vários meninos da escola ou não se encaixa nas alternativas anteriores, não serve pra namorar, só serve pra ficar.”. E nessa ânsia pueril de sermos aceitas é que entramos em dietas malucas, choramos na frente do espelho por termos celulite, estrias, peito de menos, gordura demais, a bunda que não está empinada, o rosto que está com espinhas, o cabelo que não fica no lugar. Nunca parecemos boas o suficiente, adequadas o suficiente, ideais o bastante para sermos desejadas, amadas e queridas quanto as garotas photoshopadas nas capas de revistas e nos papéis principais.

Faz muito tempo que tento escrever esse texto, mas nunca consigo por motivos de ~~ não quero soar como a feminista mal amada e cheia das neuras ~~. Mas a questão é que, mesmo com toda a consciência que adquiri com horas de leituras e discussões sobre as opressões que sofrem as mulheres perseguindo um padrão de beleza inalcançável, não consigo me livrar dessa pulga atrás da minha orelha querendo me fazer acreditar que devo me adequar, que não sou boa o suficiente, que nunca conseguirei ser feliz de verdade enquanto eu não for linda e incrível como uma ~~mulher ideal~~deve ser. Nunca consigo me privar de pensar que eu me sentiria muito mais feliz se tivesse o quadril um pouco mais largo e gastasse 15 mil pilas colocando um implante discreto de silicone nos peitos, mesmo que fosse obrigada que enfrentar meu medo absurdo de hospitais, agulhas, bisturis e o risco real que uma cirurgia desse nível possui. Ainda que eu odeie esses padrões absurdos, tente arrancar essas ideias fixas da minha cabeça e acredite veementemente que tudo isso não passa de um desperdício de tempo, dinheiro e sanidade, não consigo me livrar. É mais forte do que eu.

E é triste que a nossa felicidade seja rifada por essas preocupações. É triste a gente passar metade de uma vida desaprendendo tudo o que nos ensinaram desde as barrigas de nossas mães e soframos nos sentindo ridículas, ainda que sejamos incríveis de fato, por não fazermos o tipo desse ou daquele rapaz. Requer muito trabalho não sucumbir às pressões que nos cercam de todos os lados e aprendermos que, ao invés de nos adequar, devemos valorizar quem nos ama e admira por quem somos, independente de como somos. Me parece, no momento, a luta de uma vida inteira. E a gente passa uma vida inteira aprendendo a se gostar enquanto poderia estar aprendendo qualquer outra coisa, não fosse a necessidade capitalista de senhores que buscam lucrar abalando nossa auto estima.

 

A criança que você foi se orgulharia do adulto que você é hoje?

Eu nunca entendia quando me diziam para não ter a pressa de crescer pois um dia eu sentiria falta dos meus tempos de criança. E pois é, agora eu entendo. A vida perde totalmente a graça depois que a gente entende que o Papai Noel é aquele tio gordo e fanfarrão que coloca uma fantasia na noite de Natal para enganar você e seus primos. Quando a gente descobre isso e deixa de esperar o Papai Noel com os olhos semicerrados imaginando flagrar ele trocando a meia na janela por algum presente, a vida vai perdendo um pouco do sabor. E ano após anos nos tornamos diferentes, vamos trocando as ilusões infantis por aquilo que chamam de maturidade.

Acho que tenho um complexo de Peter Pan: morro de tédio com esse papo de ser adulto e ter que ser coerente o tempo inteiro, de obedecer as regras simplesmente por obedecer. E eu provavelmente me mataria se me visse condenada a uma vida de obrigações, abrindo mão dos meus pequenos prazeres diários, destinada a cumprir e só. Eu sou hedonista. E meu grande defeito é só fazer aquilo que eu gosto, ou, no máximo, me obrigar a fazer tarefas que não me agradam tanto, mas também não agridem muito o meu ego meio inflado. E eu que tenho esse problema de ser meio cética em Deus e nessa parafernália castradora de céu e inferno, acabo achando que o grande sentido dessa vida é aproveitarmos nosso tempo para evoluir e descobrir quem somos nós e o que estamos fazendo perdidos aqui nessa pantomima chamada humanidade.

Viver requer coragem. Requer acordar todos os dias tentando enxergar além dos nossos problemas e não nos deixarmos fechar no nosso mundinho limitado a possibilidades e soluções igualmente ruins. Às vezes imagino a vida como uma grande aventura em que a gente enfia umas roupas na mala e sai dando a cara a tapa pra ver se um dia consegue ser feliz de fato. E viver dói. Abrir mão dói. Mas a sabedoria de nos desapegarmos, de nos livrarmos daquilo que já não nos faz bem, é o que no fim das contas realmente importa.

E eu não quero ninguém me dizendo quem ou quais eu devo valorizar. A quem eu devo dirigir meu ‘bom dia’ ou meu ‘boa noite’. Nossa vida passa rápido demais pra gente ficar negando fogo, ficar negando afeto, ficar negando se doar por inteiro, endurecendo pra não ferir o orgulho. E é curta demais também pra ficar tentando ferir os outros, pra ficar desperdiçando com brigas e rancores. Tudo passa rápido demais e a gente fica se esquecendo o tempo inteiro de enxergar humanidade no outro!

– Eu não quero ser Gandhi, mas eu quero ser leve, por favor!

Também quero acreditar que o mundo é sim de boas intenções! Quero não endurecer com as pauladas. Quero ser PhD em desilusões amorosas, sem nunca desaprender a amar alguém. E se nada disso for possível, quero mais uma tarde com meus velhos amigos numa mesa de bar, um trago de um bom cigarro e cerveja bem quente para aquecer almas frias.

Lugares comuns

Às vezes me pergunto se é sinal de coragem ou muita burrice insistir em ser quem eu sou e pensar da forma que penso. Aliás, penso demais, sinto demais, quando poderia ser igual a qualquer outro cidadão. Seria muito mais cômodo me interessar por pessoas comuns, ouvir músicas e assistir a filmes comuns, estar em lugares comuns e não ter que me preocupar em convencer as pessoas do meu ponto de vista. É uma tarefa um tanto árdua ser de fato quem a gente é e aprender a lidar com a necessidade que os outros têm de que a gente se justifique o tempo inteiro.

Mas desde que me entendo por gente, não sei não questionar, não sei não pensar ou dar minha opinião. Meus ídolos são quase todos anti-heróis, meus livros favoritos são sarcásticos e críticos, meus amigos são os desalinhados, poetas de quartos escuros, sonhadores tanto quanto eu. E é esse o universo que me nutre. O espaço entre o sonho e a discórdia é onde eu vivo.

Quando tenho insônia ou estou presa nesse trânsito insuportável de São Paulo tento imaginar como seria minha vida se eu fosse uma pessoa comum, mas me dá desespero. Não consigo imaginar minha vida presa nas zonas cinzas do planeta, chegando aos trinta anos e trabalhando num emprego que eu odeio, que me paga pouco e quer controlar minha vida, meus planos, meus horários. Não consigo conceber a ideia de ter uma família nos padrões arcaicos e passar todos o resto dos dias pensando nas crianças, assistindo Jornal Nacional e nos domingos o Faustão. Parece arrogância, mas é auto-estima: mereço mais!

Quando estou no mercado, no shopping ou nas redes sociais ruminando vejo uma porção de pessoas fúteis com as quais não me identifico. Elas cuidam cuidam da minha vida mais do que das suas, estão preocupadas com a novela, com o que os gays e as lésbicas fazem na cama, mas não com seus próprios valores. Estão preocupadas em arrotar títulos e etiquetas de marca, mas não em arrotar valores de espécia alguma.

Se essas pessoas se indignam com meu cabelo, minhas preferências políticas e meus protestos, continuarei a me indignar com seu conformismo e com todos os cidadãos de bem que fecham os olhos diante do caos e sentem medo diante do diferente. Cidadãos de classe média que se julgam a nata da sociedade, que defendem o interesse dos ricos e se esquecem que é por eles que são oprimidos. Gente que anda feito cordeiro.

Prefiro seguir me ferrando e me cansando de separar sempre o joio do trigo a me adequar a todos os anseios. Prefiro seguir compactuando com o pensamento de Krishnamurti e acreditando que não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente. “Se é coragem eu não sei”.

VISCERAL E PONTO

Aos 16 eu acreditava que para ser boa, uma música precisava ser pesada. Hoje, aos 20, descobri que tudo o que é bom precisa, obrigatoriamente, ser sincero. Com o tempo, notei que os melhores momentos não são  necessariamente os que geram as melhores histórias, mas os que geram as lembranças mais simples, como aquelas que se transformam em pequenos retratos animados, com cheiros, sabores e sentimentos que, de tão profundos, acabam impossíveis de se descrever. Percebi que as pessoas mais incríveis não são as mais populares e badaladas, e que os melhores filmes às vezes passam na Sessão da Tarde.

A maioria das coisas é simples, somos nós quem complicamos. Queremos ser pop, mostrar que temos opinião, que possuímos cultura e somos modernos. Porém, nos deixamos levar pelas nossas manias horríveis como criar regras e ditar o que é aceitável ou não, enquanto deveríamos nos deixar guiar pelos nossos instintos mais genuínos: a busca pelo amor e pela felicidade. Mas o que são sentimentos em um mundo onde os cérebros são cada vez mais contemplados?

Hoje, vivo de acordo com as minhas regras. E quanto a música, eu quero que se foda o ritmo desde que no cantor eu encontre alma, visceralidade ou quem sabe dor. No amor, pouco me importa o tamanho do seu nariz, a cor dos seus olhos, o grau de seus óculos ou o que existe entre as suas pernas, desde que no seu coração exista coragem para se entregar e, na sua alma, exista liberdade para ser e aceitar que todos sejam exatamente como são. A respeito dos filmes, não faz a mínima diferença se são um Almodóvar, um Woody Allen ou um Blockbuster qualquer, desde que sejam capazes de me transportar para outros universos incríveis ou me emocionar. Já li muitos livros ruins que me pareceram bons e muitos livros bons que achei horríveis no final.

A vida é muito mais sobre se permitir e parar de criar regras para tudo…

Tradução grosseira: Viva por beijos profundos, aventuras estranhas, mergulhos noturnos e conversas desconexas….

Eu sou criança grande sabe, e eu quero sair e pular nas poças ♪

Viver é uma aventura muito mais profunda e desesperadora do que parece ser… É ter certezas e mesmo assim estar perdido na estranheza de viver não se sabe como e morrer sem saber onde, quando e nem porquê. E eu chego aos 20 sem conseguir traçar um balanço sobre a minha própria vida, sem saber se algumas escolhas que fiz foram atos de coragem ou a mais pura babaquice mas, acolhedoramente, com a sensação de que eu prefiro fazer o que julgo certo do que ser levada pela corrente e não decidir sobre meus próprios caminhos.

É irônico até perceber que algumas verdades de 5 anos atrás não servem mais e que outras se fortaleceram, lembrar de amigos, rever memórias e notar que apenas o que é verdadeiro ficou. Sem culpa, sem “e se eu tivesse”, apenas com o conhecimento de que tudo passa e essa é uma lei da vida… Finalmente me sentindo uma adulta, meio pós-adolescente claro, mais mulher, mais responsável, mais pé na porta e mais forte. Aliás, que maravilha é criar o desafio de cumprir seus planos! 2.0, here I go!

*Título: trecho de Sigo o Coração que diz que não sabe, mas é segredo, do Dance of Days.

 

 

Afinal, o que é o bom-senso?

Imaginem se o bom-senso fosse uma questão de idade. Ok, vocês podem pensar que as crianças e os adolescentes seriam muito pedantes, e isso é verdade, mas ao menos teríamos a certeza de que com a chegada da idade as pessoas usariam cada vez mais esse artifício que tem andado tão em falta ultimamente. Imaginem que alegria: quanto mais velha a pessoa, mais tolerante, cabeça aberta, mais leve e menos “cri-cri”. Porém, feliz ou infelizmente, não é o caso; o bom-senso não é uma questão de idade e têm feito falta. Além disso, convenhamos, para nós, têm bom-senso aqueles que concordam conosco e, para muitos de nós, todos os demais estão ocupando apenas mais espaço no mundo e dificultando nossas vidas. Afinal, o bom-senso é algo que só você tem, e não pertence a mais ninguém. É a lei daquele que está por cima, e quem está por baixo é que se dane!

Mas será que não dá pra decidir de uma vez o critério para o tal do bom-senso sem levar em conta somente a nossa opinião? Não dá! Estamos afogados numa maré de indecisão coletiva, e o maior reflexo disso é a necessidade quase patológica de cuidar e dar opinão sobre a vida do outro, de cobrar atitudes politicamente corretas do mundo inteiro quando nós mesmos fazemos cagadas o tempo todo, e mais uma porção de coisas que eu passaria a vida enumerando. E então, o resultado de tudo isso é que não encontramos um consenso e ficamos nessa espécie de “lei do mais forte” ou “o inferno são os outros”, etc…

E, perdidos no meio dessa confusão e de gente trocando cobras e lagartos, o que sobra aos que tentam resgatar o bom-senso das gavetas é ficar de saco cheio disso tudo e viver da sua prória maneira, que não é necessariamente politicamente correta, mas também não prejudica ninguém. Talvez o bom-senso de verdade, que coitado, tem sido confundido com tantos outros adjetivos, seja o velho bordão do “viva e deixe viver”.

Linda, a dor não é tão glamourosa assim, afinal…

No final das contas, você descobre que não é tão cool assim contar pro mundo o quanto você é um sofredor pobre coitado que escreve coisas patéticas para chamar a atenção e ter uns minutos de fama. Cutucar feridas, falar de culpas, de corações  magoados e sobre aquelas coisas que deixam a gente deprimido não são coisas que fazemos como um simples ato de trocar de roupas. Não mesmo. Quem gosta de escrever sobre suas dores sabe que leva-se tempo, distanciamento e algum amadurecimento para colocar tudo para fora e com alguma comprovação de qualidade. No mais, escrever é sempre garantia de um pouco mais de auto-conhecimento e desabafos, publicados ou não…

Eu sou assim, escrevo por vício, por gosto, por terapia, por vontade de gritar sentimentos ao mundo e expulsar minhas dores, calar meus demônios e mostrar a mim mesma que, embora não pareça, também sou “alguém”; mas não escrevo por obrigação. Apesar de todo esse discurso chato pra caralho, não me sinto superior nem inferior à ninguém…

Sou só alguém em busca de um pouco a mais de auto-conhecimento, tentando entender como se faz para organizar uma cabeça que tende ao caos e está envolta de sonhos, mágoas e pensamentos soltos. Alguém tentando achar forças para perdoar, tentando ser mais positiva e encontrar disposição para levantar da cama todos os dias sem achar que é tudo o mesmo tédio, a mesma merda. Alguém tentando encontrar algum novo sentido para a vida (se é que existe) e algumas novas inspirações que façam o mundo girar mais bonito.

Então, desculpem-me o ar patético desses dias…

*Título é o nome de uma música do Dance of Days

Rascunhos de uma rabugice imensa que você, leitor, não precisa ler…

O peso que sai de cima dos ombros na véspera de um feriado em que vamos dormir até as tantas da tarde ou acordar cedo para viver as nossas vidas como se as pretensões alheias não importassem. O aperto que sai do coração quando decidimos não mais nos importar com aquilo que nos arranca a energia. A vida que vivemos aos finais de semana e a vida que empurramos com a barriga 80% dos dias.

É viver como se não houvesse amanhã e viver sem esquecer do amanhã. É viver a morte diária de levar uma vida ingrata todos os dias para poder viver dias de gratidão. É estar preso no trânsito quase infernal das avenidas e ouvir esperanças tocando no rádio, fazendo florescer imagens que mais se parecem com saudades do que estamos buscando tempo para viver.

É aguentar um mundo de machismo, sexismo, falta de senso de humor, misoginia e hipocrisia. É perceber que mulheres que falam abertamente de sexo são chamadas de vulgares, enquanto os homens que falam as mesmas coisas estão apenas tendo uma “conversa de homens”. É ver homossexuais ganhando uma etiqueta social de doentes e pedófilos, enquanto os mesmos “homens de Deus” que fazem sermões nas igrejas, e defensores da moral e bons costumes, promovem a discriminação e inflamam ignorantes com suas verdades estúpidas. É viver em um mundo dominado pela hipocrisia e pelas aparências, e esperar a hora de cagar para exercer o livre direito de ser você mesmo. É como não fazer parte do mundo, discordar de padrões doentios e valores completamente invertidos. É sentir nojo de mães que colocam seus filhos no mundo, os jogam nas latas de lixo, e córregos de esgotos, e ser obrigado a ouvir quem critique a necessidade da descriminalização do aborto. É querer cuspir no senso-comum, e atirar pedras na sociedade.

É viver alguns dias no inferno e esperar mais alguns para tomar uns porres e ter uma pequena dimensão do paraíso.

Eu não sei amar ninguém

Eu não sei amar ninguém. Meu amor, ou o que eu deveria chamar de outra coisa, não passa de um misto de anseios e inseguranças, sonhos novos e velhas frustrações, adicionados à necessidade de sanar um vazio com cheiro de perfume adocicado, cores suaves e estórias para crianças. Eu não sei amar ninguém. Não sei, senão, amar a mim mesma e criar amores platônicos de propósito, na esperança desesperada de me livrar da solidão de ter vários ao meu redor e nenhum dividindo coisas da alma, como se o amor fosse uma luz a se perseguir, que sempre se apaga quando a alcanço. Eu não sei amar ninguém, mas vejo filmes românticos suficientemente para achar que é bom ter alguém para ir ao cinema, discutir e passar as tardes sonolentas de domingo… Amores que crescem como frutos de árvores e apodrecem.

Usando-me!

Eu desisti de começar a escrever cartas falando de amor falando de nós. Desisti de esperar telefonemas e mensagens de texto suas e, também, de criar planos ou tentar me adequar ao que você gostaria que eu fosse. Essa não seria eu… Chutei o balde! Me despi dos truques e armaduras, passei a enxergar as coisas como eu deveria enxergá-las e não como eu gostaria.  Às vezes desperdiçamos um tempo enorme presos à amarras criadas por nós mesmos, trancados numa bolha de problemas, inseguranças e falta de amor-próprio, quando a saída para tudo está um pouco mais adiante e nem é tão difícil assim de enxergar, basta um pouco de coragem.

E escrevo na tentativa de expurgar essa minha vontade de você, de dizer a mim que eu cansei de me sentir não mais do que um apoio para quando suas ilusões se dissolvem, e nada mais. Você não tem mais o aval de uso do meu tempo.

Modo de usar-se

por Martha Medeiros

“Coitada, foi usada por aquele cafajeste”. Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for.

Não costumo ir atrás desta história de “foi usada”. No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.

Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.

Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.

Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas.
Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto.

E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou “apenas” 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.

Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo. Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida.

Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.

“She’s always buzzing just like neon…” ♪

Nada melhor que o tempo para nos trazer clareza ao enxergar algumas situações. O tempo e suas incertezas, sua rapidez, seu alívio. O tempo para nos trazer respostas às questões que outrora eram dúvidas. Depois de passado um turbilhão de experiências as quais eu não sabia interpretar, de ter vivido momentos que eu nunca havia imaginado e de ter me decepcionado com as pessoas nas quais eu mais acreditava, cheguei a algumas conclusões e a principal delas é a seguinte: há uma espécie de mal inerente à raça humana, que tem o poder de destruir, corroer e é comandado pela vaidade do homem.

Estou me reerguendo depois de me livrar do egoísmo daqueles que, em nome de um cuidado patológico e obsessivo, nos condenam a uma espécie de não vida. Estou me livrando das garras daqueles que só se apoiam nos nossos ombros para lamentar e nos cospem quando não temos nenhuma outra utilidade. Eu sei, há algo de maligno em mim também e, para a frustração de alguns, tenho muito mais de Bukowski e maldita do que muitos, inclusive eu, gostariam!

E, para tanto, estou tentando viver… Viver como se não fosse haver outra aurora, como se novos momentos eternizados na memória tivessem o poder de me tornar mais forte e me fazer enxergar as coisas de outro modo, mais otimista e duro também. Mergulho em filmes, livros, conversas que duram madrugadas e que possam me dizer coisas que ainda não sei sobre mim mesma. Me perco em cinzas de fumaças e papéis, cartas, sonhos e lembranças queimadas. Me afogo em porres e mortes diárias, amnésias alcoólicas, na tentativa de deixar fluir meus lados de puta, de santa, de filosofa de botequim e dançarina de festas. É bom ser, sem máscaras.

E assim eu vou vivendo e matando todas as saudades das coisas que ainda não vivi. Vou morrendo e fazendo nascer novas faces minhas das minhas próprias cinzas. Vou me livrando de tudo que me sufoca, me entorpece e me suga, e me enchendo de tudo que me completa, me inspira e me dá gana de acordar para um novo dia e, quem sabe, novos planos, sonhos e conquistas. Eu não tenho medo do novo, mas tenho pavor de não sair do lugar. “Eu pescador de mim…”

*O título é um trecho da música Neon, de John Mayer.

Je dis tout ça en faisant la moue…

Eu tinha tantas coisas para falar que não sei nem bem por onde começar. Sabe, são essas cartas de Caio Fernando Abreu, essas músicas que ando ouvindo, e os trânsitos astrológicos, que têm me deixado assim. Não sei mais dos meus sentimentos, só sei que são tantas coisas para falar que seria até mais bonito se eu pudesse te explicar tudo em francês. Mas eu não falo francês.

Até pouco tempo, veja bem, eu tinha uma porção de coisas com quê me ocupar e olhe agora, eram todas passageiras… Até pouco, era mais fácil controlar o meu pulsar perto de você, o sorriso diante das tuas falas e a vontade de receber uma mensagem sua, assim, no meio do dia. Agora tem ficado mais difícil.

Ando mudada, sabe? Achei novas atividades que me alegram, e li um livro ótimo, que me fez repensar toda a vida. Ando querendo fazer alguma coisa de útil para o mundo, comprar um carro, sair de casa, ser alguém na vida. E nesse meio tempo, existe você. Que veio chegando aos poucos, ouvindo meus problemas, diminuindo os abismos que eu impunha sobre a nossa proximidade, e me arrebatou meio sem querer… E é aí que nasceram as minhas dúvidas, os meus problemas!

Tenho medo de chegar de repente e despejar meus anseios em cima de você, te tirar os espaços, te sufocar com a minha sede por entrega e intensidade. Fico também me perguntando por que só depois de tanto tempo me dei conta de que era você, e ninguém mais, que eu queria. Quando é que vamos parar com esse nosso vício de desperdiçar nosso amor com gente que não presta, até achar um amor pelo qual vale a pena lutar? Eu não sei. Como diria Caio Fernando, “sossega, sossega – o amor não é para o teu bico”, repito sempre.

*O título é parte da música Ne Parle Pas, do Agridoce, e significa “Digo tudo isso enquanto faço beicinho…”.

Cartas de Caio F., saudades e existencialismos rápidos.

Ler essas cartas de Caio Fernando e viver numa era de internet e interatividade digital (oi?) me deixam com vontade de viver numa época diferente, com outros valores e outros interesses. Numa outra esfera, onde os amigos fossem mantidos por perto e as conversas de longas distâncias tivessem cheiro de papel, envelope e correio, e não de computador. Onde músicas lembrassem encartes e não players de mp3.

Ao passo em que as novidades chegam para nos aproximar do mundo, parece que o mundo se distancia cada vez mais da gente. Ando querendo sentar, escrever algumas histórias minhas, colocar os pensamentos num papel, mas sinto como se as tecnologias que foram inventadas para facilitar e agilizar a vida, me obrigassem a fazer um monte de coisas em um pequeno espaço de tempo, então quando o dia termina, acabo dormindo pesado.

Se temos a internet, para quê tempo para desperdiçar a saliva com amigos e gente querida? A gente parece que pisca e o tempo passa! E parece que estamos sendo consumidos pelas nossas próprias invenções. Um papo meio “Eu, robô!” demais, mas é verdade! É impossível também evitar pensar naquele discurso de Chaplin no final de “O Grande Ditador”: “(…) Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.”

Pensar sobre essas coisas me faz sentir saudade de momentos que não vivi, só passei perto… É um tanto traumático pensar que assim como os celulares, os computadores e as TVs, tudo está ficando mais compacto, até as nossas relações. Falta amor, falta tempo, falta espaço, falta profundidade e, principalmente, tempo para existencialismos. Boa noite.

E Sócrates disse: “Só sei que nada sei”.

O tempo passa e muita coisa muda, principalmente dentro da gente. O que foi, de repente já não é mais. O que se sabia, de repente não se sabe mais. E tudo é assim: transitório. No mais, a gente acaba rindo de algumas atitudes, se arrependendo de outras, e ganhando bagagem para aprender com tudo. E entre algumas questões, acabo sempre me perguntando quando é que a gente sabe que está finalmente maduro. Filosofia demais pra pouca mesa de bar…

Mas, quando o assunto é maturidade, acabo sempre concluindo que maturidade demais às vezes se converte em maturidade de menos. Algumas pessoas têm a péssima mania de achar que sabem de todos os segredos da vida, e como agir em todas as situações e se esquecem que muitas vezes essa lógica não serve para os demais, tornando-se verdadeiras mestras na arte da chatice e da inconveniência. E o mundo está cheio desses chatos que acham que entendem muito da vida da gente mas não sabem de porra nenhuma, com o perdão da palavra!

Já dizia Sócrates que só começamos a entender de fato as coisas quando percebemos que não sabemos o que imaginávamos saber. E eu poderia parar por aqui, mas continuo e deixo meu protesto por relações mais humanas e menos exatas, afinal, um mesmo parâmetro nem sempre serve para duas regras.

 

 

From simple roots through high vision

Teve aquele dia no parque e antes dele, aquela peça de teatro linda. Músicas, estórias, conversas e encontros tão únicos de fim e começo de tarde com amigos, gente simples e feliz sentada na grama, em bancos, descansando da vida, falando de tudo o que não interessa. São essas coisas simples que me motivam, porque eu também sou simples… Mas primeiro, sou uma viciada em sinceridade. Eu gosto de gente que é livre e por isso não impede ninguém de ser do jeito que for, gente que gosta, e telefona para saber como estou, conta seus casos, me ajuda com meus problemas, e faz tudo sem aquele sentimento de obrigação.

Nosso ego insiste em nos fazer pensar que somos todos únicos, mas no final, somos todos iguais; seres humanos, alguns mais sensíveis e outros menos, em busca sempre das mesmas coisas: acolhimento, carinho, identificação, confiança, amizades e amores. Só muda a forma como cada um age frente a essas necessidades. Pelo menos é assim que me sinto: mais uma, das mais sensíveis e simples. Quero poder contemplar o sol durante as tardes, o verde da grama, me afastar de tudo que me atrasa e faz mal. Quero distancia de gente que só está ao meu lado quando eu faço a coisa certa, porque eu também erro e não gosto de me sentir sem chão, sem ajuda, sem uma mão.

Ando querendo me afastar da cidade grande e ir estudar fora, meditar pelas manhãs, me livrar dessa ansiedade. Ando querendo mudar meu estilo de vida, minhas baladas, me concentrar em tudo o que realmente importa e deixar as coisas pequenas de lado. Pessoas que não mais acrescentam, manias e vícios que só me consomem tempo e dinheiro, entender que tudo tem um tempo certo para durar, e depois precisa ser descartado, por mais dolorido que seja, para dar vazão a nossas experiências.

Descobri que essa sou eu: avessa a grandes sofisticações do mundo e adepta a sofisticação dos sentidos e dos corações…

#O título é um trecho de Citizen of the Planet, da Alanis Morissette e significa “De raizes bem singelas até a alta percepção”.

Sobre promessas e tubarões

O ingresso à uma boa universidade é uma tarefa complicada que requer muito esforço pessoal. A concorrência é larga, as vagas são poucas, o custo de um cursinho pré-vestibular nem sempre é acessível, além do desafio de manter o foco nos cadernos e livros durante um ano inteiro não ser um dos mais fáceis. A tentação e os amigos batem à porta, e a carne fraca quase sempre é vencida pelo caminho mais fácil.

A vida de um vestibulando nunca é fácil, há sempre muita coisa pra estudar em pouco tempo, cansaço mental e sono. O tédio se confunde à própria sombra e o tempo todo é uma luta contra o relaxo. Pensando friamente, é um ano gasto com pouca diversão e aprendendo coisas, decorando uma porção de outras que esqueceremos depois das provas muito provavelmente. Por outro lado, esse ano sofrível é que nos dará a base necessária para conseguir destaque na nossa futura carreira. É a maturidade pedindo prova!

Nessa noite, porém, em que a cafeína me atrapalhou muito o sono, comecei a pensar no quanto a responsabilidade, a dedicação e a persistência nos estudos para alcançar uma meta distante, que é o ingresso à um curso superior, está muito mais relacionada ao amadurecimento e à certeza das próprias escolhas e objetivos a serem concluídos, do que à cobrança externa. Ninguém aguenta por muito tempo persistir em algo, e obviamente abrir mão de experiências mais atrativas, quando desacredita sua importância. E junto a esse amadurecimento necessário, é preciso também ter confiança em si mesmo, como diria Caio Fernando: “Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”.

*Título de uma música da banda Dance of Days

 

“O nosso amor a gente inventa…”

Eu sempre começo com um pé meio atrás e como se já não bastassem as experiências ruins passadas, ao menor sinal de envolvimento, eu perco a medida e sigo com pressa demais. Me afogo em incertezas, me iludo numa tentativa desenfreada de encontrar quem tenha a mesma sede de intensidade que eu. Mas eu nunca encontro alguém que veja a mesma graça que eu em peças de teatro, shows que todos se esquecem de assistir, reflexões em mesas de bar e bancos de metrô, salas de cinema, livros de cabeceira.

Olho para dentro de mim e tento encontrar as explicações. Todas fogem de mim. Então me sinto culpada, crio teorias, me denuncio, concluo: “o nosso amor a gente inventa”, pra só depois descobrir que invenção não preenche, não satisfaz!

*Título de Cazuza.

Um Espelho de Reflexo Invertido (ou “No Surprises”)

De alguns anos para cá, tenho achado o mundo paradoxalmente morno e parado. Enquanto há guerras, revoltas populares na Europa e no Oriente Médio, a mídia nos bombardeia com informações que chegam por todos os cantos e as responsabilidades e exigências da vida contemporânea crescem a cada dia, eu pessoalmente tenho achado que nada sai do lugar, sentido que remamos e continuamos parados, sem inovar, vítimas de nossas próprias certezas e escravos das regras que criamos para nos auxiliar a viver com mais eficiência. E ao pensar no porquê, caio num saudosismo errôneo de achar que épocas anteriores à nossa eram mais saborosas. Posso imaginar o cheiro delas, o seu gosto, o visual das ruas, as discussões entre as pessoas, a arte fervilhando, personalidades que eram de fato subversivas, suas peças de teatro, os livros que eram lançados, as músicas que faziam sucesso nos bailes e tocavam nas rádios. Essa imagem que assombra minha cabeça talvez seja ilusória, mas me faz entender das coisas que sinto falta de viver.

No meu mundo ideal, nós lutaríamos contra esse marasmo, falaríamos o que realmente pensamos e teríamos embasamento, daríamos um basta nessa doença popular que é a sede de ser politicamente correto e moralista, e acima de qualquer hipocrisia, lutaríamos e faríamos protestos por problemas reais e não deixaríamos a vontade de tapar o sol com a peneira vencer. Não faria o menor sentido pessoas tentando barrar o direito de outras a serem livres, ou tentando impôr suas crenças religiosas, nos fazendo engolir o que é chamado de liberdade religiosa e, na realidade, só serve para mascar o desrespeito para com a diversidade sexual e de pensamento, ou com tudo que for diferente e alheio. Também não teria nenhum sentido cultuar ídolos teen de dezoito anos que lançam biografias de suas vidas para contar não sei o quê, ou ícones pop que não fazem absolutamente nada além de cantarem sobre os mesmos temas que são abordados há décadas e nem ao vivo conseguem cantar, recorrem ao playback, ou pior, celebridades instantâneas de quinze minutos que não possuem nada além de atrativos estéticos para mostrarem.

Entendo que através de arte ou de outros meios, todos precisam extravasar o stress diário, mas, no meu mundo ideal haveriam anti-heróis e heróis de verdade, que muito além de artistas, seriam também livres pensadores e criariam dentro de cada pessoa uma ânsia pelo questionamento e a reflexão, nos permitindo enxergar mais além, nos dando bons e maus exemplos, e não ídolos como os de hoje, que poderiam ser qualquer um de nós se tivéssemos um pouco mais de dinheiro, sorte e uma boa equipe.

O cotidiano atual tem funcionado como um espelho de reflexo  invertido onde mesmo com escândalos estampando capas de jornais e revistas, catástrofes, notícias de corrupção e mais um centenas de outros absurdos como abusos, violência, injustiças, fofocas e os pequenos “Big Brothers” que existem nas redes sociais, me sinto anestesiada de tédio e ceticismo. Por que tanta inércia, meu deus, por quê?

Foi assim, é assim, mas assim é demais também…

Tenho pensado em tantas coisas, que fica difícil não escrever… É  nas palavras que tenho encontrado conforto dentro de mim mesma, e me escondido para poder encontrar fragmentos perdidos dentro de mim e entender o que se passa. Sei de cada detalhe meu, tenho planos perfeitamente traçados, só esperando a hora de começarem a ser realizados, sei de cada falha e cada ponto positivo, sei de mim com tanta clareza que não preciso mais de espelhos, talvez só precise achar a cartilha que me ensine a lidar com isso.

E onde achar a cartilha, onde aprender a ser gentil comigo mesma, onde aprender a ter calma, a complacência, a deixar de impôr a mim mesma uma pressão muito maior do que a que vem de fora? Tenho um desespero muito grande, uma vontade incrível de ser alguém, porque no fundo eu sei que até liberdade é um bem adquirível e comprável nesse país onde a lei não existe, e em todos os lugares. Tenho minhas muitas idiossincrasias e desespero para sustentá-las até quando elas existirem, quero levar um estilo de vida tão meu, que o preço a pagar por isso não é só simbólico e emocional, mas financeiro também.

E com tudo isso, acho absurda a capacidade que algumas pessoas têm pra pregar aquele discurso do “pobre menina rica”, a que sempre teve tudo e não sabe a hora de parar de pedir por mais, a que tem tudo, mas não tem paz. A questão aqui é querer sempre ser mais, e pra minha satisfação apenas, de muitas vezes abrir mão de algumas coisas para poder construir outras, e ralar para conseguir todas elas. De conciliar meus hobbies e as muitas obrigações, de nunca achar nada bom o suficiente para me contentar e parar de ir em busca de coisas novas, de abrir mão de muitas coisas que nos meus 19 eu deveria estar ocupada pensando, mas estou na verdade ocupando esse tempo com assuntos mais pertinentes. A questão é encontrar um sentido para mim, e não para o mundo.

Eu tenho preguiça dos que não fazem nadas com suas vidas e acham que é pecado, que é triste e mais um monte de coisas eu fazer algo da minha.

* O título é um trecho da música “Odeio”, do Caetano Veloso.

Se a alma não é pequena

Eu tenho muitas manias adquiridas ao longo dessas minhas quase duas décadas de vida e muitas delas dariam boas sessões de terapia. Uma delas é meu costume de sempre achar que a culpa é minha por absolutamente tudo e outra, é me sentir a mais idiota das pessoas sempre que algo foge aos meus planos. É uma eterna briga entre o meu bom senso e a minha ousadia, o primeiro tentando me mostrar que banquei a idiota e devo me culpar por entrar em batalhas perdidas e a segunda, contando os pontos por eu ter me permitido fazer o que achava viável.

Tenho escolhido comprar brigas, dar opiniões, expressar sentimentos os quais eu nem sonhava com a existência, viver coisas impensadas, sair da rotina, imaginar quem eu seria se minha personalidade fosse diferente, se minhas decisões tivessem sido outras, e tentado viver de acordo comigo mesma, para no final ter certeza de que tudo vale a pena se for motivado por algo real, algo sincero. Sinceridade é a palavra, é a justificativa para todas as escolhas malucas que por vezes fazemos e pras besteiras também, é a certeza de que por mais absurdo que algo tenha sido, foi o melhor ou o mais propício ao momento.

A verdade sobre mim é que eu não me importo de viver desde que seja por algo de verdade. Um amor pelo qual valha a pena matar ou morrer, amigos pelos quais a conversa de bar compense a ressaca do dia seguinte, noites em claro que não me façam pensar que era melhor ter dormido, vida que não me faça pensar que era melhor não ter vivido…

Eu quero algumas certezas, mas não muitas e principalmente essas.

Morrer é fácil, amar é que é difícil…

Rainha do drama e a melhor em desperdiçar o tempo com preocupações inúteis. Acho que é mal de espécie o fato de todos nós humanos termos  a capacidade nata de não saber reconhecer o que realmente importa. É clichê, porém é também um fato que só reconhecemos o valor das coisas quando as perdemos, ou no caso de agora, quando chega uma reflexão em formato de luva de box e acerta num golpe a boca do estômago.

Assisti um filme lindo essa noite, Inquietos, e achei a mensagem excelente. Me fez pensar muito e principalmente no quanto nossa vida é curta, no quão parecidos a grãos de areia somos se comparados ao tempo geológico, e sendo assim, no quanto é curto o espaço de tempo que temos para fazer com que nossas vidas se justifiquem. E para isso não podemos pensar e agir como se fôssemos eternos, porém quem sabe pensar que morrer não é nada se antes disso soubermos dar importância ao que importa.

Mas nós enquanto humanos tão mais evoluídos, conseguimos nos equiparar a ouriços, afastando as oportunidades com nossos espinhos de orgulho e prepotência, enquanto deveríamos baixar nossa guarda, perdermos nosso medo de revelar quem somos no mais íntimo escondido. Mesmo amando, temos medo de amar e nos deixar ser amados. Mesmo sentindo, preferimos sufocar as palavras dentro do peito e arrumar outra coisa para distrair nossa atenção. Mesmo não sendo eternos, conseguimos agir como se tivéssemos todo o tempo do mundo e acabamos não fazendo nada, não deixando nada, sendo apenas agulhas no palheiro desses 4,5 bilhões de anos do planeta. Nós humanos e tão sábios, ainda achamos dificuldades para encontrar o que enfim justificará nossa existência.

“Não há diferença no que estamos fazendo aqui
Que não apareçam como sintomas maiores lá fora
Então por que gastar nosso tempo vestindo nossas bandagens
Quando temos a chave fundamental para a causa aqui mesmo, dentro de nós?

Olhe nós formando nossas facções em nossa caixa de areia
Olhe nós microcrianças com nossos corações bloqueados
Olhe nós dando as costas a todos os pontos ásperos
Olhe ditadura no meu próprio quarteirão”
Alanis Morissette – Underneath

* O título saiu de uma frase do filme “Inquietos”.

“Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.”

Eu sempre gostei de escrever e escrevo desde os meus 11 anos, quando comecei a inventar algumas estórias e passá-las para o papel para então poder vivê-las. A escrita tem essa graça de proporcionar a vivência das coisas que se imagina numa espécie de sonho acordado onde quem escreve tem o poder de criar um mundo com suas próprias fantasias, mudar o curso dos acontecimentos, expressar sentimentos, ideias, colocar para fora mágoas e rancores, criar possibilidades e ainda camuflar tudo isso nas entrelinhas.

As folhas em branco dos cadernos velhos sempre foram bons aliados, era ali que enquanto pré-adolescente cheia de descobertas e imaginação eu podia ser eu mesma ou ser quem eu quisesse sem que alguém que julgasse. Era naquelas folhas vazias que eu encontrava companhia enquanto estava sozinha, que criava minhas próprias novelas e filmes, que fazia bondades ou maldades a personagens que secretamente eram pessoas do meu cotidiano a quem eu obviamente não podia declarar minha raiva ou amor tão descaradamente.

Nunca gostei de escrever diários, acho que sempre fui exibida demais pra isso e escrevia coisas pra divertir quem eventualmente lesse meus contos e minhas bobagens adolescentes e posteriormente, inspirada em escritores os quais eu admirava, passei a escrever prosas que tivessem um quê de poesia, expressando algumas das minhas idiossincrasias, pra ficar contente vendo algumas pessoas se identificarem…

Fui feliz por fazer da caneta e papel os aliados das minhas tramas e dos meus dramas infantis e hoje, graças a eles e ao meu querido notebook, posso dizer que escrevo como uma forma de me libertar de pensamentos que nem sempre são bem vindos, o que eu nem precisava dizer, afinal, com o título desse post nem precisaria dizer mais nada. Uma vez Bukowski, sempre Bukowski!

Os caminhos e minhas próprias escolhas sempre me levaram a acreditar que o mais importante nessa vida é conhecer a si mesmo. E isso não é apenas sobre saber do que se gosta ou não, mas sobre conhecer seus limites, enfrentar seus demônios, ter amor e respeito por si, para então conseguir viver bem consigo. Acredito que as pessoas não precisam de dogmas ou deuses, regras ou pessoas dizendo como elas devem se comportar se elas têm ciência de onde estão seus limites, suas paixões.

Cada vez que uma pessoa deixa de viver conforme gostaria pra obedecer regras, viver uma vida que lhe foi imposta, deixa também de caminhar sobre suas próprias pernas e aprender com seus próprios erros, e assim fica pra sempre andando em círculos, sem usar seu senso-crítico, mas seguindo imposições vazias, vivendo e desperdiçando seu tempo com propósitos vazios.

Serei eternamente curiosa em relação ao sobrenatural, à existência de Deus, desconfiada das religiões, sem exceção, mas continuarei acreditando que com ou sem dogma a ser seguido, a missão individual de cada pessoa é tentar ser melhor para si mesma e para o mundo e não melhor do que o mundo…

“Não me importa onde estarão os monges e onde estarão as auto-estradas. Para mim, o importante é fazer o amor, e não a guerra, em todos os lugares do mundo.” John Lennon

“Todo dia alguém bate à nossa porta e nos convida a desistir.”

Sobre o título, não sei porque o escolhi, talvez seja porque tudo que o Caio Fernando Abreu escreve me agrada, mesmo não me trazendo nenhum sentido específico no momento.  E falando nele, tenho redescoberto o prazer em alguns gostos antigos, que eu acho até que já havia me esquecido, como o sabor incomparável de uma tarde de domingo ao som de um bom CD, deitada na minha cama com mil almofadas, um cobertor para esquentar os pés e um livro para invadir a mente de fantasias, reflexões, descobertas, humor, ou um pouco de tudo isso junto, sem pensar em mais nada.

Novos horizontes fazem bem, mesmo que estes estejam só nas linhas de um bom livro. Caio Fernando mesmo já dizia: “Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é.”

“(…) dê seu coração para ele, ele lhe dará o dele.”

Nenhum presente será tão eterno na memória e no coração quanto um que seja capaz de retribuir todo o amor que recebe… Eu não coloquei na minha lista dos melhores filmes que assisti nesse ano porque esqueci, mas hoje, bem, vocês sabem, passou Marley & Eu na televisão e parece que foi só pra me lembrar do quanto esse filme me diz tanto e me emociona. Só quem tem ou já teve um cachorro, sabe o apego que se cria, e a profundidade do amor que um bichinho é capaz de sentir mesmo que seja incapaz de expressar isso em palavras.

Eu tinha 4 ou 5 anos quando ganhei meu primeiro cachorro e me lembro como se fosse ontem do meu pai chegando do trabalho com ele, um filhote de poodle branco com 2 meses de idade. Foi amor a primeira vista e o chamei de Pluto, porque eu gostava muito de assistir Mickey Mouse. Ele comia meus brinquedos, meus pares de sapatos, roía os móveis, mas mesmo não sendo um bom exemplo, me ensinou valores que eu jamais vou me esquecer: o respeito à vida, o valor de uma amizade, o que é lealdade. Então aos 12 anos de idade ele se foi, e até hoje quando vejo fotos, lembro de coisas que passei ao lado dele, e choro muito de saudade. Ainda me dói o coração e me faz pensar que todos os cachorros deveriam ser eternos, e morrer só depois dos donos.

Assistindo Marley & Eu, chorei muito por sentir saudade, chorei por saber que inevitavelmente irei passar por essa dor de perda ainda algumas vezes e por sentir medo de que seja em breve… Chorei por sentir pena de todos os cachorros que como aquela Yorkshire e milhares de cachorros que vivem nas ruas ou são maltratados por suas próprias famílias, não tiveram a sorte de encontrar donos que reconhecessem a sinceridade do amor que são capazes de doar. É pra esses e pros melhores presentes que já ganhei nessa vida, que dedico esse post e se você não assistiu, não perca essa oportunidade!

“Para um cão,você não precisa de carrões,de grandes casas ou roupas de marca. Símbolos de status não significavam nada para ele. Um graveto já está ótimo. Um cachorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe, mas por quem são por dentro. Dê seu coração a ele, e ele lhe dara o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa ou não. De quantas pessoas você pode falar isso? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas fazem você se sentir extraordinário?”

Meus discos preferidos de 2011

Com a chegada do réveillon sempre começam as reflexões sobre as coisas que conhecemos, vivemos, ouvimos nos últimos 11 meses do ano, e junto com as tais reflexões, os blogueiros adoram começar a fazer as listas pra tentar resumir o que de mais importante aconteceu no ano. Aqui o Poética de Penseé não poderia ser diferente!

Os 5 melhores discos de 2011 na minha singela opinião e com um clipe de cada ficar com uma vontadezinha de ouvir!

5 – Tiê – A coruja e o Coração

4 – Foo Fighters – Wasting Light

3 –  China – Moto Contínuo

2 – Agridoce – Agridoce

1 – Adele – 21

Todos esses discos têm canções que me tocaram profundamente, viajaram comigo para todos os lugares por onde passei durante esse ano e fazem parte também do meu crescimento, da minha abertura para outros ritmos musicais e outros universos! Espero que tenham gostado e digam quais foram os discos que ganharam mais destaque na opinião de vocês!

Eu sempre peco pelo excesso…

… de confiança, de envolvimento, de me doar e, sem querer, achar que irão fazer o mesmo por mim. E por isso, muitas vezes me deixei enganar, ser passada para trás como um par de brincos que ficou velho e sem graça demais pra se usar, e pior, talvez acreditando que tudo era melhor ou tal como eu enxergava. O tempo adequou minhas lentes ao meu grau de miopia, me ensinou a ser mais gentil comigo e egoísta com as demais pessoas, me fez entender o que eu precisava entender das coisas que vivi, e sofri, ri e chorei.

Foi assim que eu me fiz, e desfiz, e fiz novamente, dando um jeito de expurgar os demônios e tudo o que não me servia para além de ocupar um espaço que poderia ser preenchido por uma infinidade de coisas novas. E me livrando de tudo o que só me impedia de seguir com a vida em frente, tenho pensado em tantas coisas, que fica difícil não escrever… É  nas palavras que tenho encontrado conforto dentro de mim mesma, e me escondido para poder encontrar fragmentos perdidos dentro de mim e quem sabe, encontrar a mim!… Não que eu esteja perdida! Sei de cada detalhe meu, tenho planos perfeitamente traçados, só esperando a hora de começarem a ser realizados, sei de cada falha e cada ponto positivo, sei de mim com tanta clareza que não preciso mais de espelhos, talvez só precise achar a cartilha que me ensine a lidar com isso. Sei de tudo que tenho, e tenho tentado dar tanto valor a isso tudo pra não pensar no que me faz falta…

“Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.” Caio F. Abreu

 

Wanderlust

Eu tenho gosto pelo desconhecido, por saber até onde ele pode me levar e quais sensações, boas ou más, ele pode me trazer. Me irritam fotografias que só mudam a paisagem, com as mesmas pessoas de sempre, a mesma linha de assuntos, todos sorrindo para a câmera por uma piada que já foi repetida diversas vezes. Depois de um tempo vivendo mais do mesmo, tudo perde o encanto. A alegria com a casa nova, a mudança de cidade, as manias fofas do namorado, quando tudo isso vira rotina, automaticamente perde a graça e não há nada de tão feliz, fofo ou romântico fora o fato de buscar renovar a paixão perdida todos os dias para que, no final, não sejamos engolidos pela melancolia do nosso tédio.

Tenho aos poucos me cansado de tudo, sentido que eu mudo a uma velocidade colossal enquanto tudo continua igual e eu não faço mais parte de nada, nem de mim mesma… Tudo o que é seguro, perfeito, constante demais, cansa. Há muito mais perspicácia em recolher cacos de vidro quebrados e tentar fixar todos eles, do que observar um objeto inteiro quando você sabe exatamente o que esperar dele. É por isso que eu quero certezas, mas não muitas. Eu quero tudo o que for inconstante, dúbio, incerto, por que me cercar dessas coisas faz com que na minha falta de verdades pra chamar de minhas, eu ainda possa ser eu mesma e muitas. Tudo ao mesmo tempo. Simplesmente não pode fazer sentido cercar-se de tantas convicções a ponto de se tornar as próprias convicções e então deixar de ser essência, pensamento e renovação.

Há beleza na desordem, há encontro no desencontro de ideias e enquanto houver vida, haverão também perguntas, e delas, as metamorfoses.

*Texto escrito com 130 ano, Agridoce, na cabeça.

Eu tenho lágrimas e sorrisos pra gastar, e só quero “um veneno anti-monotonia”!

Ontem eu ainda tinha medo de vivenciar as coisas, hoje não mais. Não quero viver presa à desconfiança e ao receio, agindo de forma correta e repetindo o comportamento cheio de culpa e julgamento que eu repugno nas pessoas. Não quero saber de religiões ou de qualquer outra coisa que me faça ficar presa a verdades universais…  Eu nunca encontrei as certezas dessa vida e quero continuar assim, mudando de opinião nem que seja pra ver que eu estava errada e mudar mais uma vez.

Inconstância define, porque eu tenho 19 anos, algumas convicções e não posso cair na monotonia de me conformar com a vida e achar que é assim que tem que ser. Eu quero mais do que isso, quero ser feliz e também quebrar a cara sem medo de sentar na sarjeta e chorar minhas mágoas, porque é assim que se cresce e se constrói o que no futuro pode ajudar a levantar. Quero me livrar de tudo que me impede de sentir, viver e conhecer universos diferentes, mesmo que o preço a pagar por isso seja me debruçar em melancolias e soluços por um tempo. A gente chora, e não é só porque vive na ditadura da felicidade que não pode ficar triste!

Também quero me sentir contente por estar vivendo coisas simples, uma tarde com amigos, rindo, falando besteiras, tendo ataques de risos e assuntos insanos. Então vou me livrar também de toda gente chata e que nunca relaxa, que sempre vê problemas, fica preso a convencionalismos baratos e hipócritas, o que eu chamo de gente limítrofe. Nunca conseguem ir adiante de seus preconceitos adquiridos de não sei de onde.

Só sei de onde parto, e estou curiosa pra saber em que parte estranha de mim é que vou chegar. Quem sabe um dia eu possa contar… “Perfeição não é só sobre controle. Significa também se soltar.” Cisne Negro

 

Eu precisava de um distanciamento pra conseguir falar de e pra você, que foi sem querer, alguém…

Naqueles dias onde mal conseguíamos suportar a pressão de sermos quem éramos, e colidir com as nossas sombras que ao mesmo tempo também eram as nossas paixões e descobertas, você se fez presente e essencial até hoje, me fazendo encarar desafios, faces de mim mesma que eu sempre tive medo e nunca soube como lidar. Você sempre foi mais forte, teve mais coragem, tinha uma leveza pra lidar com a realidade enquanto eu agia com melancolia frente a ela.

Mas hoje eu vi um filme, e entendi coisas sobre mim mesma, coisas que aliás eu sempre achei que soubesse, mas que me foram jogadas na minha cara de uma forma tão contundente sem que eu pudesse me defender. Sei que sempre fui fraca e mimada, e até derrotista, preguiçosa até na hora de lutar por coisas que eu queria, e você me dizia uma frase solta em meio a nossas conversas que se seguiam pelas madrugadas, e tudo mudava em mim… Acho que nunca havia te dito isso.

Tanto tempo passou e aquelas manhãs e tardes tão sagradas já não fazem parte de nossas vidas, apenas das lembranças. Dá saudade sempre, mas o tempo garantiu que nos afastássemos de tanta gente inútil e que nos fazia mal, que penso que foi inclusive uma troca justa! Qualquer dia quem sabe podemos sair, relembrar os bons tempos, tomar alguns drinks, lembrar das nossas obsessões por Evanescence, Pitty, Linkin Park, Simple Plan e outras coisas que não fazem mais parte da nossa rotina, mas do terror dos tempos de escola.

Lembranças acalentadoras…

Lembro-me de quando te conheci e visualizava imagem de uma pessoa doce e  ao mesmo tempo forte toda vez que me lembrava de você, nos momentos mais inesperados do dia. Fomos nos aproximando e cada vez mais eu sentia um carinho por você e sabia o quanto você sentia o mesmo, uma amizade tão forte e sincera, que em alguns momentos foi confundida, ou não…

Eu sempre senti a necessidade de te proteger como uma pessoa querida a qual se pudesse, eu livraria de passar por todas as decepções do mundo. Eu dormia quase todas as noites pensando em você e quando não, divagando sobre coisas que diziam respeito ao seu universo e sua forma genuína e verdadeira de falar sobre si mesma e de ver o mundo. Eu também costumava me pegar pensando em quais eram suas intenções, se eram conscientes ou não… Sempre quis te proteger, até da minha presença.

Muitas coisas aconteceram e até deixaram de acontecer, e eu não sei mesmo se tinha que ser dessa maneira. Na minha cabeça ilusória por natureza, poderíamos ter sido tantas e de tantas formas… Mas eu guardo boas recordações e se você lesse esse texto raro, eu gostaria que soubesse que na última vez que nos encontramos eu tive certeza de que você continua especial, e que eu admiro o seu jeito tão único de ser, e que o seu ângulo de visão do mundo me parece o mesmo, só que com uma lente melhorada… E se pudesse te dizer algo em que eu acredito, pediria para que não se desespere, pois as pessoas nunca gostam de nós pelas qualidades que julgamos que sejam as nossas melhores, e eu acho que você precisava saber que tem qualidades que talvez nem imagine.

De todo modo, eu não pretendo me prolongar, pois logo encheria minha cabeça de perguntas… Saiba que eu sinto saudades, que guardo ainda aquela música que você me deu, e sempre que ouço penso em escrever algo pra você, hoje a lembrança calhou e eu escrevi. E ah, seus livros ainda estão na minha estante, esperando!

Live and let live!

O questionamento, do verbo questionar: (ques.ti.o.nar (lat quaestionare) vtd, vti e vint 1 Fazer questão sobre; debater com ardor, discutir acaloradamente: Questionar alguma coisa com alguém. Questionar com alguém. Questionar acerca de (a respeito de, de, em, por, sobre)alguma coisa: Detesto questionar. vtd 2 Contestar em juízo: Questionar o direito de alguém.), tem me parecido um direito cada vez mais distante e também distorcido. Questionar se tornou equivalente a comprar brigas, usar de falácias, quando na verdade constitui uma atividade importante para a formação das nossas ideias e do nosso senso-crítico e significa simplesmente argumentar (com dados concretos e coerentes, claro) a fim de esclarecer determinadas questões.

A sociedade não está cercada de verdades absolutas, tampouco existem apenas opiniões unânimes, logo o conflito é necessário e é dele que nascem todas as modificações que ocorrem em todas as escalas, desde as sociais até as pessoais. Questionar é um direito tao calado que vem sendo esquecido, e é preciso ter cuidado, tanto que me dá preguiça, “melhor deixar pra lá!”…

Então vamos aprender: discordar não é desrespeitar ninguém, nem tampouco querer comprar uma briga, pelo simples direito que cada um tem de ter suas próprias convicções. Grata!

O Ciclo da Preguiça

Preguiça de falar, preguiça de ir tomar banho, preguiça de ler as anotações do caderno para a prova, preguiça de sair da cama, preguiça de comer quando bate a fome, preguiça de xixi quando a cama de noite está confortável, preguiça de discutir, preguiça de estressar, preguiça de ir dormir. Preguiça, substantivo abstrato que combina com quase todos os verbos, mas principalmente com o substantivo gente. Preguiça de gente!

Eu tenho preguiça de muita gente. De dar bom dia, puxar algum assunto, ouvir constatações. Preguiça de dizer que não concordo, que as coisas não são ou não foram bem assim, que o buraco é mais em cima, ou pra baixo, ou que nada na vida pode ser tão linear quanto o certo ou errado de uma conta matemática. Tenho preguiça da preguiça que se tem de pensar. Preguiça da preguiça de pensar que tudo pode ser tão fácil e simples, e catalogável como correto ou incorreto, bonito ou feio, e nada além disso. Preguiça de quem se limita em viver no espaço mínimo entre dois opostos que correm o risco de colidir.

É nessas horas de preguiça, tédio e insatisfação generalizada que tenho a vontade de me aprisionar no meu mundo particular e permanecer incomunicável por dias, até que sinta a necessidade de falar com alguém. E enquanto essa necessidade não se manifestar, me desfazer de tudo: das paranoias, das imposições externas, das palavras que eu repito e sei que não são minhas, olhar pra tudo o que faz parte de mim genuinamente ou foi adquirido, como num jogo de quebra cabeças, tentando descobrir quais peças fazem parte de um determinado local e quais não. E aí, quando todo o quebra cabeça estiver montado, tal como uma fênix, renascer em meio às cinzas, com as energias renovadas. É o Ciclo da Preguiça, comumente chamado de Ciclo de Shiva.

“Ah, será que o tempo tem tempo pra amar?”

Hoje pensei demais, foram 5 horas e alguns tantos minutos resolvendo questões, e essas podiam definir o que se seguirá da minha vida do gabarito para o sempre. Tentei não pensar muito nisso, detesto pressão, obrigação, ansiedade, dor de estômago, e por isso acabei pensando numa série de outras coisas… Gosto de olhar as pessoas subindo e descendo pelas escadas rolantes do metrô, paradas esperando, sentadas nos assentos dos vagões que entro e nos que passam por mim; em meio ao stress, me acalma imaginar como algumas delas se chamam e como são suas vidas, tentar entender o que suas roupas, seus cabelos, seus sorrisos, dizem sobre o que elas são na realidade. Se são felizes ou tristes. E por que não, pensar o que tudo isso – cabelos, sapatos, feições – revela às pessoas sobre mim.

Sempre acho que a primeira impressão das pessoas a meu respeito não é muito positiva; não tenho cara de pessoa sociável e acredito que as pessoas me acham muito mais explosiva e problemática do que eu realmente sou. É culpa das influências antigas, do tempo, que passou e esqueceu de levar consigo coisas que não fazem mais parte de quem eu sou agora… Incrível como a cada ano a gente muda. Há dois anos eu podia jurar que hoje seria a mesma, e agora, acredito que em dois anos não mais me reconhecerei. Algumas vezes imagino minhas certezas de desmanchando bem na minha frente e eu sendo apenas um vazio tentando se preencher de ideias, cores e sentimentos novos. Parece tudo muito real.

Acredito ou não acredito em Deus? O que é que faço pra ser coerente e justa comigo mesma? Como é que me defendo do mundo e dos meus próprios tormentos sendo tão aberta e tão sincera comigo e com o mundo? Apesar de culpado por alguns bocados, o tempo me fez perceber que se responde a algumas perguntas praticando o difícil exercício de gostar de si mesmo e buscar em si o próprio conforto… É assim que vou me encontrando, me descobrindo em novos tons, timbres, sintomas. E é nessa simplicidade de ser complexo, que muitas vezes eu tento ser simples de fato, andar sempre pressa, ouvir poesia cantada, escrever bem simples, sorrir quando eu poderia não alterar minha expressão, mas como diria Clarice, “que ninguém se engane, só se consegue ser simples através de muito trabalho.”.

*Título extraído da música “O Tempo” – Móveis Coloniais de Acajú.