As fotos têm mais sabor do que a comida

Já faz algum tempo que ando mais de saco cheio do que de costume e venho notando o quanto é cansativo estar rodeada de relacionamentos artificiais, que se criam por pura conveniência, cercada por comportamentos mesquinhos e comentários cheios de veneno. Esse tipo de convivência tóxica faz mais mal do que cigarro, e geralmente quando notamos que fazemos parte dessa redoma de maldade, é sinal de que já estamos afundados, viciados em fazer comentários medíocres sobre a vida de pessoas que nem sequer nos interessam, apenas porque elas cometeram o imperdoável erro de viver uma vida diferente das nossas. Sempre chego à conclusão de que essa mania de ficar criticando os erros ou acertos dos outros nos suga toda a liberdade de sermos aquilo que realmente somos.  Se eles não estão livres, então nós também não estamos.

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A questão é que ninguém mais parece capaz de agir gratuitamente por mero prazer ou por gentileza. A empatia anda em falta e tudo tem um preço, inclusive as pessoas – um preço bem baixo, eu diria: o status. Tem se tornado cada vez mais difícil encontrar boas companhias, aquelas com as quais passamos horas simplesmente falando e terminamos com a sensação de que fomos compreendidos. Têm se tornado raros  os encontros com alguéns que se identificam com nosso modo de pensar, agir e sentir as coisas e, finalmente, com as quais as pequenas convenções sociais acabam sendo deixadas de lado. Um cabelo bagunçado, uma barriga à mostra, estrias brancas na bunda. Pessoas que apreciam nossa companhia e não estão sempre à espreita aguardando nossa primeira falha para soltar comentários desnecessários e cheios de maldade. Pessoas que tiram fotos para guardar recordações, que cozinham e consomem até o que ainda não passou pelo raio gourmetizador, que sabem elogiar com sinceridade sem esperar outra gama de elogios em troca. Pessoas que nos sentem, que nos enxergam.

As pessoas hoje não têm qualidades, têm utilidades. As fotos têm mais sabor do que a comida, o casamento mais importância que o amor, o dogma mais significado que Deus. É assim que as coisas são. Todo dia milhares de pessoas, como diria Bukowski, carregam um monte de merda dentro da barriga, mas fazem questão de fingir que não as cagam. Tentam mostrar que possuem mais amigos, mais influência, mais poder de compra, que contam as melhores estórias e, no final, vivem as mesmas vidas amargas que vivemos, com as mesmas pressões e o mesmo fim.

Dica de Livro do Dia #13 – Notas de Um Velho Safado, de Charles Bukowski.

É o livro que estou lendo no momento e achando um tanto curioso e, como sempre, genial! Deixe-me explicar: após o final da Guerra Fria, os EUA ascenderam economicamente utilizando uma combinação entre poderio militar e domínio através de ideias. Entre elas, está o famoso sonho americano! O “American Way Of Life”, aliado à “Política da Boa Vizinhança” e “Doutrina Truman”, se mostrou eficiente na missão de fazer com que nações do mundo inteiro adotem os EUA como o objeto de desejo. Os filmes nos fazem invejar os americanos, suas casas, seus estilos de vida. As propagandas de televisão nos fazem querer consumir o que eles consomem, McDonald’s, Burguer King, Coca-cola, e abominar os elementos de nossa própria cultura, como a música, a literatura, etc.

Por isso, ler Bukowski é tão importante, ele nos proporciona um salto no universo, nos abre os olhos para as mentiras embaladas que consumimos! Tendo vivido num cenário após a recessão de 1929, num ambiente de pobreza e desespero, ele nos uma realidade que não aparece nos filmes e seriados que adoramos assistir! E, muito embora seus livros tenham sido publicados há bastante tempo, ainda se fazem válidos em sua atualidade e lucidez, revelando as mazelas de uma sociedade onde exitem os pobres, os bêbados, os que são infelizes e menosprezados pela sociedade e sua hipocrisia!

Sinopse: Em Notas de um velho safado, a América tem uma cara de 50 anos, corpo de 18 e desfila de calcinha rosa claro e salto alto na madrugada corrosiva de Los Angeles. A América é um sapatão furioso com uma garra metálica no lugar da mão esquerda e não quer saber de transar com o Velho Safado. A América é uma deusa milionária com a qual ele se casa e da qual amargamente se separa. A América é uma prostituta, 150 quilos, um metro e meio de altura, que peida, uiva e destroça a cama quando goza. A América é também estudantes e revolucionários proferindo discursos inflamados em parques ensolarados de São Francisco no final da década de 60. A América é Neal Cassady dirigindo alucinadamente pelas ruas de Los Angeles, pouco tempo antes de morrer de overdose sobre os trilhos de uma ferrovia mexicana. A América é Jack Kerouac e Bukowski poetando na Veneza californiana. 

Notas de um velho safado forma um conjunto de histórias excepcionais saídas de uma vida violenta e depravada, horrível e santa. Não podemos lê-lo e seguir sendo os mesmos.