Cultura do Estupro

Obrigada, patriarcado, por me fazer um pedaço de carne fritando a 37,8 graus!

São Paulo. Sexta-feira. 37,8 graus. Acordo cedo, brindando ao fim de mais uma semana e escolho um vestido laranja, com desenhos da Frida Kahlo de estampa. Visto, tomo café da manhã, escolho os sapatos correndo e enfrento mais um dia de suor no transporte público entulhado dessa cidade, rumo ao trabalho. No rosto, apenas um óculos de sol e uma maquiagem leve pra não derreter com o calor. Assim que entro no ônibus noto olhares que me desagradam. Desço do ônibus e preciso andar cerca de 300 m até o prédio onde trabalho, em plena Anhaia Mello. Na calçada, sou distração para os motoristas estacionados no congestionamento. Ando o mais rápido que posso. Na volta para casa, a mesma coisa. Entro no ônibus e tenho que ficar me esquivando dos olhares de um sujeito que dava um jeito de me incomodar mesmo eu estando de costas para ele e com fones de ouvido. A bolsa transversal cobrindo a bunda pra não ser tão encoxada.

Esse é um relato meu, falando sobre hoje, dia em que escolhi usar um vestido de tecido leve, depois de ter me arrependido de sair de calça e morrer de calor a semana inteira para não me estressar com esses olhares constrangedores, mas poderia ser uma história vivenciada por qualquer uma de nós. Como prova disso, bastou abrir o twitter para ler o seguinte relato:

Assedio 2 Assedio

Por diversas vezes me sinto repetitiva, chata, porém nem para todo mundo é óbvio que mulher também sente calor. E que se eu saio debaixo de um sol de 37,8 graus usando vestido é porque quero trabalhar mais confortável e não chegar ao trabalho com queda de pressão e transpirando as 8 da manhã. Pra muitos não é obvio que o fato de eu estar de vestido e levemente maquiada, usando um batom, não significa que quero chamar a atenção de algum homem.

E diante de situações como essas, tudo o que sinto é raiva, muita raiva mesmo e a sensação de impotência. O que fazer? Xingar o imbecil que te chama de gostosa na frente da portaria do seu trabalho e mostrar o dedo do meio, pra ouvir risadinhas dele em troca e ainda ficar parecendo uma maluca? Ou não fazer nada e ficar achando que dá brecha para o babaca acreditar que está te elogiando? E ainda se conformar com machista dizendo que se tomei cantada é culpa minha, que eu devia usar calça – ou quem sabe uma burca – para não sofrer esse tipo de violência? Passar calor e ainda me sentir feliz por culpabilizada ao sofrer assédio?

Assédio não é elogio, não é flerte. Assediar com olhares constrangedores, tirar foto por baixo da saia, chamar de gostosa na rua reduz a mulher a um mero ser sexual, com uma função apenas: servir de enfeite. Objeto que usa um vestido, que passa um batom para satisfazer o prazer masculino. Não devemos nos cobrir ou inventar ar condicionado acoplado à roupa, e aceitar ficar espremidas dentro de um vagão rosa para deixar de sofrer esse tipo de agressão. É preciso educar e repetir quantas vezes for necessário que a culpa por existir essa porção de abusadores nos transportes públicos, desde os que olham e dão risinhos, aos que violam de fato a nossa integridade, não é nossa culpa. É culpa do desrespeito e da cultura do estupro.

Minha sudorese não tem a ver com você, machistinha de merda! Meu calor não existe pra ser seu fetiche doente!

Estupro não é sexo, é violência!

Desde o início desse ano, o estupro é um dos assuntos mais falados na mídia devido aos fatos ocorridos na Índia. Acontece que no Brasil a situação de vulnerabilidade das mulheres também é preocupante. Em São Paulo, por exemplo, segundo dados, em 2011, o Estado registrou 10.399 casos de estupro, contra 12.886 em 2012 – um crescimento de 23,9% na incidência do crime. Isso significa que só no Estado de São Paulo, em média 35 mulheres sofrem violência sexual por dia!

O que mais me preocupa é que a mídia que divulga notícias de violência contra a mulher – não só sexual, mas também do que eles insistem em chamar de “crime passional” – trata esses casos como fatos isolados, quando, na realidade, eles estão ligados a uma cultura de estupro e desigualdade de gênero. A forma como os veículos de informação tratam dos crimes sexuais dão a falsa ideia de que os estupradores são maníacos, quando, na verdade, em sua grande maioria fazem parte do círculo social da vítima, sendo amigos, colegas, maridos ou parentes. Além disso, levam à convicção que o aumento desse tipo de violência é gerado pela falta de leis mais severas, quando, na verdade, se trata de uma deficiência cultural que precisa ser superada.

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A cultura de estupro quer que todos nós acreditemos que mulheres são seres naturalmente dados à pureza, que não gostam de sexo e que, por isso, precisam ser convencidas e forçadas a aceitar o ato sexual, enquanto homens, têm uma necessidade natural de fazer sexo e por isso, são seres irracionais incapazes de frear seus impulsos sexuais ao ver uma mulher com decote ou roupa curta. Essa cultura também decide quem é ou não digna de respeito: usava roupas curtas demais, tinha parceiros sexuais demais, estava andando sozinha à noite na rua, bebeu na balada?, então não presta, mereceu ser estuprada! Em ambos os casos, a culpa sempre é colocada na vítima.

O que a cultura do estupro não nos ensina é que estupro não se trata de sexo, mas de violência e demonstração de poder e que quando uma mulher diz “não”, ela realmente está querendo dizer “não”! Além disso, não nos deixa perceber que a roupa que uma mulher veste não pode definir seu caráter e muito menos dizer se ela é digna ou não de respeito. A cultura do estupro não nos ensina que mulheres são seres capazes, que possuem muitos atributos que não suas belezas, que não são feitas para enfeitar e nem para satisfazer desejos masculinos.

Quantos mil casos de estupros precisarão acontecer em 2013 para que a mídia e as pessoas comecem a entender que não se trata de mudar as leis e sim de parar de tapar o sol com a peneira e de lidar com os fatos como eles realmente são? Estupro é uma manifestação de violência e misoginia! Um estupro nunca é um caso isolado!