Facebook

O ônus e o bônus da popularização de certas coisas

Primeiro devo começar dizendo que sou totalmente avessa a essa modinha “hipster” de só gostar das coisas ditas cult e/ou impopulares. Realmente penso que as coisas realmente boas precisam ser difundidas e conhecidas por mais pessoas, mas antes que minha introdução deixe alguma ideia de contradição às pessoas que se interessaram pelo título desse texto, devo dizer que não gosto é da banalização das coisas. E me parece que em tempos de compartilhamentos no Facebook, popularidade e banalização caminham juntas.

Há uma onda de pessoas compartilhando frases de Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Martha Medeiros, Arnaldo Jabor, isso citando só os brasileiros; os mais ingênuos poderiam até achar que isso é sinônimo de que o brasileiro anda lendo mais e adquirindo mais cultura – ledo engano! Quantas dessas pessoas já leram um único livro desses autores? O que ocorre é que a popularização – ou eu deveria dizer ‘banalização’? – desses autores apenas leva a frases fora do contexto sendo propagadas como prova de uma suposta intelectualidade e isso chega a níveis alarmantes! E digo alarmantes porque temos odiadores e amantes de obras e personas que mal conhecem!

Antes fossem apenas o número crescente de apaixonados pela Clarice Lispector! O que mais me espanta, na realidade, é a quantidade de protestos infundados gerados por um simples botão chamado “compartilhar”. As pessoas compartilham, mas muitas vezes, não refletem sobre seus protestos. Chega a ser engraçado, por que às vezes as pessoas reclamam da alta criminalidade, do tráfico de drogas, mas se negam a refletir sobre as possibilidades da descriminalização da maconha e outras substâncias. Compartilham fotos de um bebê jogado no lixo e se encarregam de xingar a mãe, mas se negam a discutir a descriminalização do aborto, e questões tão profundas quando orientação sexual nas escolas. Criticam a marcha das vadias, dizendo que as moças ali presentem protestavam pelo direito à libertinagem, mas não param para refletir no quanto elas se envergonham do próprio corpo e temem um estupro quando precisam sair sozinhas à noite!

A popularização da cultura e de pensamentos interessantes é muito positiva, leva as pessoas a saírem do senso-comum e refletirem questões importantes para  seu desenvolvimento pessoal e social. Já a banalização apenas torna as pessoas mais suscetíveis à manipulação, as priva de pensarem por si mesmas. É o que acontece com o Facebook: o botão “compartilhar” já não obriga ninguém mais a pensar.

Em passos largos ao sul de lugar nenhum…

O tempo anda tão depressa que é comum olharmos para o calendário e já estarmos no meio do mês. É contando sempre a chegada do final da sexta-feira que levamos nossas vidas, com pressa o tempo inteiro. Pressa para chegar logo no trabalho, pressa para o expediente acabar e, por fim, a pressa para voltar para casa . Talvez nossa pressa seja apenas uma ideia ilusória de que chegaremos mais rápido ao sossego. Vamos seguindo, dia após dia, na esperança de um fim de tarde sem nada na cabeça, um tempo livre para podermos gastar com a família ou nossos amigos; quem sabe aquele passeio no parque, aquele barzinho para jogar conversa fora, ler um livro ou assistir aquela comédia bestinha, só para gastar o tempo. Mas, de todo modo, vivemos na era da urgência! Tudo é urgente! É urgente chegarmos ao trabalho, e termos mais dinheiro para as férias, e quando estamos de férias, sem nada para fazer, é urgente que encontremos uma ocupação abrupta para escaparmos do tédio que é conviver apenas com nossos pensamentos.

E como se não bastasse o caráter de urgência das grandes cidades, há ainda a poluição sonora e a tecnologia nos assombrando a cada passo que damos. Quando estamos em casa é o carro da pamonha passando na rua e nos impedindo de ouvir o telefone ou à televisão. Quando estamos no metrô são os celulares de sujeitos sem educação que, como se não bastasse tocarem música alta, tocam música ruim. No trânsito são as buzinas e os palavrões dos apressadinhos, e o pouco que sobra da fé na humanidade indo pelo ralo quando vemos um sujeito despejar pela janela um maço de cigarros já vazio. A tecnologia que nos prometeram que viria para ajudar, apenas está nos engolindo com sua velocidade.

Os celulares nasceram com a promessa de quem não dependeríamos mais dos telefones fixos para nos comunicar e, sem que notássemos, nos fizeram perder aquele momento em que sentávamos ao sofá e  atualizávamos os amigos sobre os acontecimentos da nossa vida. Aos poucos as vozes que ouvíamos do outro lado da linha passaram a ser substituídas por mensagens de texto e as coisas que passávamos minutos contando no telefone, podem ser lidas em instantes no mural de qualquer Facebook. Pensamentos cada vez mais fragmentos em 140 carácteres. E os carros que nos vendem com a promessa de status e conforto só nos garantem a comodidade de ficarmos presos no trânsito.

Perdemos alguns hábitos que davam um sabor mais gostoso para a vida. Não temos mais tempo para nos sentar e ler um livro. Lemos em pé nos ônibus e nos metrôs mesmo, para passar o tempo mais depressa. Já não reservamos um espaço durante o dia para ouvir os discos que gostamos; a comodidade de fazer o download de discos inteiros em menos tempo do que gastaríamos caso fôssemos a uma loja, nos fez deixar de apreciar as fotos dos encartes, o ritual de ligar o som e colocar um CD para tocar. A regra é que ocupemos o nosso tempo de alguma forma e a ociosidade tão necessária, nos vem carregada de culpa.

A Era da Urgência é também a Era da Ilusão, onde somos comprados por tudo e por nada. Somos comprados por promessas de um futuro e uma paz que nunca chegam. Somos comprados pela ideia de um presente que não mais vivemos já que estamos ávidos pelo futuro. E somos consumidos pela ideia de um passado que nos enche de nostalgias. E esse, é um texto sem conclusão, talvez porque a grande claustrofobia dessa nossa era, é não conseguirmos enxergar saídas e nem meios de nos livrarmos dos nossos hábitos que só consomem nossa juventude, nossa saúde e nos fazem viver e morrer por nada. Talvez para enchermos os cofres dos bancos, quem sabe, e usufruirmos muito pouco dos nossos esforços…