A Primavera Brasileira tem mais festa do que fúria

Empatia significa apropriar-se do sofrimento do alheio, mas pode ser definida também como um exercício diário que a gente pratica sempre que se dispõe a sair do nosso mundo e mergulhar no universo do outro. Mas o problema com a empatia é que ela anda em falta e não é fácil cria-la diante daquilo que não é tão óbvio. Empatia é tomar para si a revolta de uma mãe que perde seu filho em um assalto, mas também é mais do que isso.

Em uma palestra muito acertada, o escritor Mia Couto já afirmava que é preciso quebrar as barreiras do medo e passar a conhecer aqueles que por décadas nos acostumamos a chamar de eles, mas o problema com a empatia é que chegamos a um grau tão alto de violência em que não conseguimos mais enxergar humanidade no outro, naquele que vive uma realidade diferente da nossa.

Vivemos em uma sociedade que todos os dias exclui, segrega e mata, estratificada de tal forma a satisfazer apenas o interesse de uma dúzia de senhores que concentram quase a totalidade dos bens produzidos pelo país e define quais devem ser as aspirações da classe média que os sustenta. Sociedade essa que criou um monstro chamado Desigualdade Social e com o qual até hoje não sabe lidar e nem faz questão de saber.

E por que estou dizendo isso? Porque é da Desigualdade Social que nasce o menor abandonado, o morador de rua, o sem-teto, o analfabeto funcional, o colarinho branco, a fome, a chacina. O monstro chamado Desigualdade Social contribui para o aumento da criminalidade, para o tráfico de drogas, contra os quais o cidadão de bem quer lutar, mas sem saber, alimenta. Porque o monstro sucateia escolas, hospitais e bens públicos, mas a classe média que pode optar pelo privado não sofre nem se comove com isso. Porque o mostro Desigualdade Social está diretamente ligado ao desenvolvimento das cidades e esse trânsito caótico, essas favelas que não se incendeiam sozinhas e esse transporte público que não funciona.

A lógica sempre me disse que quando uma pessoa possui muito é porque falta algo a alguém, e que isso se aplica a tudo. Se um grupo ostenta mais privilégios, é porque a outro falta direitos e riquezas. Se há concentração de bens e serviços em determinada região, é porque em outra há carência de infraestrutura. Se há especulação imobiliária e as casas se tornam cada vez mais caras enquanto há quem more em condomínios luxuosos, cercados de câmeras, grades e proteção, é um tanto óbvio que isso criará moradias irregulares, ocupações, favelas e pessoas vivendo em situação de extrema pobreza.

E o que me choca mais é estarmos tão inertes a ponto de estarmos protestando por inúmeras causas, algumas válidas e outras não, mas sem entender a fundo a gravidade dos problemas do nosso país. Será que estamos mais uma vez tentando curar os sintomas sem nos preocuparmos com a doença? Até quando vamos fingir que não vemos a opressão que sempre esteve presente na periferia insone  e que, de diversas formas, nos atinge também? Se me preocupo com essas questões é porque não vejo sentido em uma sociedade que faça bem apenas para mim e uma pequena parcela de sua população. Não me interessa privilégios, me interessa igualdade, para que nem eu nem ninguém precise se preocupar mais em resolver o que fazer com os delinquentes, com a falta de bons hospitais públicos, o não cumprimento das leis. Me preocupo porque é o mínimo que eu poderia fazer, porque fazer protesto seguindo cartilha de bons modos e obediência civil só incentiva os donos do poder a tapar o sol com a peneira para acalmar os bobos.

E diante dessas minhas constatações só posso concluir que esse gigante sonolento, criado a leite com pera e revista Veja não pode ir muito longe a não ser que deixe de defender os interesses da minoria e passe a caminhar rumo à destruição de monstros que ele próprio criou. A grande maioria das pessoas não entendeu o que são esses protestos. A maioria não descobriu como ser empático o bastante para não defender apenas seus próprios privilégios. E não me chamem para essas micaretas conservadoras de ideais elitistas e direitistas. Me chamem para uma revolução de verdade, me chamem contra a opressão do pobre e do desfavorecido, mas não pra essa patifaria com teor de carnaval. Não é revolução de verdade se não houver luta de classe, se não for subversivo o bastante para entrar nos livros de história e nos sonhos da juventude. ““Se Não Posso Dançar Não é a Minha Revolução” Emma Goldman

“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força.” George Orwell, 1984.
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Liberdade é dizer que 2+2=4.

Quem leu 1984, do George Orwell,  já pode começar a ter uma noção do que vou falar aqui.

Todos as minhas postagens anteriores levaram ao conceito de liberdade, que como Cecília Meireles colocou muito bem, “(…) essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…”. Que liberdade é essa que temos? Se é que temos? Esse talvez seja o tema mais amplo já abordado aqui, e também o mais distorcido. É difícil falar de liberdade. Mas, vamos lá!

No livro de Orwell, para quem não conhece, as pessoas são totalmente controladas pelo Estado e o regime do Grande Irmão, que controla o passado, o presente e o futuro, manipulando o pensamento e as verdades, que pertencem todas ao governo. E talvez a máxima do livro seja a frase: “dois mais dois são cinco se o partido quiser”. O livro foi publicado em 1948 e ainda permanece recente em suas críticas à manipulação, às formas de opressão, que, embora sejam fictícias na obra, dizem muito sobre o controle velado que é feito através das formas de mídia, da religião, e difundidas através do senso-comum. Ou seja, mesmo enquanto suposta democracia (inexistência de censura e ditadura – em tese), há quem pense por nós.

É um jogo: se o senso-comum é, e difunde o pensamento de uma maioria que só tem a ele, é preciso que essa maioria rompa com o senso-comum para que aprenda a pensar com a razão e tomar para si sua liberdade. Porém só rompe com esse senso alguém dotado de insatisfações (onde entra a educação) o que significa sair da zona de conforto que ninguém quer. Além disso, o sistema impede que as massas cheguem a essa insatisfação, controlando a realidade para que se mantenha o que é favorável a uma minoria, e fazendo com que as pessoas tenham a falsa sensação de serem livres. Outro ponto é: liberdade e autonomia andam de mãos dadas e, ser livre inclui ser responsável pelas conseqüências das escolhas que fazemos para nós mesmos. A zona de conforto exime dessa responsabilidade.

Então, acho que seria razoável dizer que essa liberdade pela metade é uma conspiração. Há quem ganhe e há quem perca com isso. O governo que lucra pois faz o que quer sem que muita gente questione, e as pessoas que perdem pois não se desenvolvem plenamente e tem seus direitos suprimidos sem que perceba. É irônico, mas as pessoas sabotam a si mesmas, fazendo o seu próprio controle a partir do senso-comum. George Orwell foi muito feliz nessa crítica que fez a sociedade através de sua ficção, e 1984 é um dos meus livros favoritos.

Para concluir essa lógica de liberdade ilusória, gostaria de colocar uma relação elaborada pela Simone de Beauvoir no livro “O Segundo Sexo”, utilizada para retratar a condição de submissão da mulher ao homem:

"A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem
e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o
essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro."

É o mesmo tipo de relação existente em todas as relações que envolvem hierarquia: quem domina garante assim mais direito a ter direitos e toma para si a liberdade, subjugando o próximo, o colocando como inferior. Ele se torna o sujeito, o Um, logo cria a figura do Outro,  utilizando sua força, seus meios, sua persuasão, para reservar o direito de liberdade, única e exclusivamente, para si. Manipulação, a gente vê por aqui. (:

Insônia – Dance of Days

“Guerrilheiro na montanha à sombra de uma flor.

Dez minutos… dois minutos…”

Winston não vê mais seu sorriso
e Winston já não ama o Grande Irmão.
E a rádio livre derruba aviões pra informar
que Winston tem a voz:

“Acordem crianças do campo
que é hora de inverter o curso dos dias.
Vamos quebrar televisões
e inflamar bandeiras.
Acordem crianças que a aurora
aponta o pesadelo dos donos da moral.
Vamos queimar as roupas em missas e funerais.
Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem que a vida que nos roubam
jamais irá voltar
e este mundo que nos deram já não basta.

As canções proibidas serão cantadas por nós
e o todo libertino será a nova ordem.
Acordem crianças que a plenitude é veloz
e na dança dos dias quem manda somos nós.

Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem
que o mundo ainda não escuta nossa voz”

“Baudelaire, meia noite e as flores do mal.
Um bom vinho… um bom vinho…”

Winston não vê mais seu sorriso
e Winston já não ama o Grande Irmão.
E a rádio livre derruba aviões pra informar
que Winston tem a voz:

“Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem que o mundo
ainda não escuta nossa voz.
Acordem que o tempo é curto demais.

Recomendações: 1984 –  George Orwell, Dance of Days, Desconstruindo Amélia (Pitty), Meditações Metafísicas  de Descartes.