Manipulação

Os caminhos e minhas próprias escolhas sempre me levaram a acreditar que o mais importante nessa vida é conhecer a si mesmo. E isso não é apenas sobre saber do que se gosta ou não, mas sobre conhecer seus limites, enfrentar seus demônios, ter amor e respeito por si, para então conseguir viver bem consigo. Acredito que as pessoas não precisam de dogmas ou deuses, regras ou pessoas dizendo como elas devem se comportar se elas têm ciência de onde estão seus limites, suas paixões.

Cada vez que uma pessoa deixa de viver conforme gostaria pra obedecer regras, viver uma vida que lhe foi imposta, deixa também de caminhar sobre suas próprias pernas e aprender com seus próprios erros, e assim fica pra sempre andando em círculos, sem usar seu senso-crítico, mas seguindo imposições vazias, vivendo e desperdiçando seu tempo com propósitos vazios.

Serei eternamente curiosa em relação ao sobrenatural, à existência de Deus, desconfiada das religiões, sem exceção, mas continuarei acreditando que com ou sem dogma a ser seguido, a missão individual de cada pessoa é tentar ser melhor para si mesma e para o mundo e não melhor do que o mundo…

“Não me importa onde estarão os monges e onde estarão as auto-estradas. Para mim, o importante é fazer o amor, e não a guerra, em todos os lugares do mundo.” John Lennon

Liberdade é dizer que 2+2=4.

Quem leu 1984, do George Orwell,  já pode começar a ter uma noção do que vou falar aqui.

Todos as minhas postagens anteriores levaram ao conceito de liberdade, que como Cecília Meireles colocou muito bem, “(…) essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…”. Que liberdade é essa que temos? Se é que temos? Esse talvez seja o tema mais amplo já abordado aqui, e também o mais distorcido. É difícil falar de liberdade. Mas, vamos lá!

No livro de Orwell, para quem não conhece, as pessoas são totalmente controladas pelo Estado e o regime do Grande Irmão, que controla o passado, o presente e o futuro, manipulando o pensamento e as verdades, que pertencem todas ao governo. E talvez a máxima do livro seja a frase: “dois mais dois são cinco se o partido quiser”. O livro foi publicado em 1948 e ainda permanece recente em suas críticas à manipulação, às formas de opressão, que, embora sejam fictícias na obra, dizem muito sobre o controle velado que é feito através das formas de mídia, da religião, e difundidas através do senso-comum. Ou seja, mesmo enquanto suposta democracia (inexistência de censura e ditadura – em tese), há quem pense por nós.

É um jogo: se o senso-comum é, e difunde o pensamento de uma maioria que só tem a ele, é preciso que essa maioria rompa com o senso-comum para que aprenda a pensar com a razão e tomar para si sua liberdade. Porém só rompe com esse senso alguém dotado de insatisfações (onde entra a educação) o que significa sair da zona de conforto que ninguém quer. Além disso, o sistema impede que as massas cheguem a essa insatisfação, controlando a realidade para que se mantenha o que é favorável a uma minoria, e fazendo com que as pessoas tenham a falsa sensação de serem livres. Outro ponto é: liberdade e autonomia andam de mãos dadas e, ser livre inclui ser responsável pelas conseqüências das escolhas que fazemos para nós mesmos. A zona de conforto exime dessa responsabilidade.

Então, acho que seria razoável dizer que essa liberdade pela metade é uma conspiração. Há quem ganhe e há quem perca com isso. O governo que lucra pois faz o que quer sem que muita gente questione, e as pessoas que perdem pois não se desenvolvem plenamente e tem seus direitos suprimidos sem que perceba. É irônico, mas as pessoas sabotam a si mesmas, fazendo o seu próprio controle a partir do senso-comum. George Orwell foi muito feliz nessa crítica que fez a sociedade através de sua ficção, e 1984 é um dos meus livros favoritos.

Para concluir essa lógica de liberdade ilusória, gostaria de colocar uma relação elaborada pela Simone de Beauvoir no livro “O Segundo Sexo”, utilizada para retratar a condição de submissão da mulher ao homem:

"A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem
e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o
essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro."

É o mesmo tipo de relação existente em todas as relações que envolvem hierarquia: quem domina garante assim mais direito a ter direitos e toma para si a liberdade, subjugando o próximo, o colocando como inferior. Ele se torna o sujeito, o Um, logo cria a figura do Outro,  utilizando sua força, seus meios, sua persuasão, para reservar o direito de liberdade, única e exclusivamente, para si. Manipulação, a gente vê por aqui. (:

Insônia – Dance of Days

“Guerrilheiro na montanha à sombra de uma flor.

Dez minutos… dois minutos…”

Winston não vê mais seu sorriso
e Winston já não ama o Grande Irmão.
E a rádio livre derruba aviões pra informar
que Winston tem a voz:

“Acordem crianças do campo
que é hora de inverter o curso dos dias.
Vamos quebrar televisões
e inflamar bandeiras.
Acordem crianças que a aurora
aponta o pesadelo dos donos da moral.
Vamos queimar as roupas em missas e funerais.
Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem que a vida que nos roubam
jamais irá voltar
e este mundo que nos deram já não basta.

As canções proibidas serão cantadas por nós
e o todo libertino será a nova ordem.
Acordem crianças que a plenitude é veloz
e na dança dos dias quem manda somos nós.

Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem
que o mundo ainda não escuta nossa voz”

“Baudelaire, meia noite e as flores do mal.
Um bom vinho… um bom vinho…”

Winston não vê mais seu sorriso
e Winston já não ama o Grande Irmão.
E a rádio livre derruba aviões pra informar
que Winston tem a voz:

“Acordem que o tempo é curto demais.
Crianças, acordem que o mundo
ainda não escuta nossa voz.
Acordem que o tempo é curto demais.

Recomendações: 1984 –  George Orwell, Dance of Days, Desconstruindo Amélia (Pitty), Meditações Metafísicas  de Descartes.

Educação: um problema de todos.

Quando pensamos em educação, automaticamente imaginamos escolas, professores, alunos, porém a educação vai além disso, estando presente fora do ambiente escolar e de maneira informal, o que inclui difusão de cultura, de valores sociais como certo e errado, padrões de conduta, e acaba formando tipos de homens e mulheres que variam de acordo com sua época, região e características da sociedade em que estão inseridos. Isso significa dizer que a educação, em suas diversas formas, é que constitui cidadãos que irão perpetuar sua cultura, seus valores, e os preparar para exercer plenamente a função de cidadãos. Educação constitui a base de um ciclo que envolve cidadania, cultura, democracia e liberdade. Sem ela não é possível a construção de um Estado democrático onde os cidadãos tenham discernimento para julgar os governantes e suas propostas e assim, garantir que a sua vontade seja efetivada. E que esses cidadãos possam analisar fatos, propostas, polêmicas, sem interferência da mídia, de valores religiosos e, dessa forma, possam agir a favor do bem comum e não tão somente de interesses pessoais.

Entretanto sabemos que a educação no nosso país rasteja em estado de calamidade pública, deixando de formar pessoas com o mínimo de conhecimento e capacidade de julgamento necessários para que possam desempenhar seu papel social de forma coerente.Não vejo outro meio de narrar a educação das escolas públicas como conhecimento empilhado e que torna massante o aprendizado ao aluno. Isso faz com que não tenhamos uma cultura que fuja do padrão Globo de televisão, e as pessoas não questionem sua realidade. Pessoas céticas como eu, você e muitos que não acreditam que mudanças possam ser feitas. Sem educação nos falta também uma série de outros direitos como segurança, transporte, saúde, moradia de qualidade, e que, uma minoria se revolta e cobra posições do governo e dos órgãos competentes, enquanto a maioria permanece na inércia do ceticismo acreditando que mudanças serão impossíveis. Ter uma massa questionadora é o princípio básico para o início de qualquer sociedade democrática e livre, e nosso país está muito longe de alcançar isso.

Me vejo também muito cética em relação a mudanças sociais no Brasil, mas no fundo ainda acredito que através da educação e de fortes meios de conscientização mudanças possam começar. E percebo isso observando que pouca gente tem consciência de que um problema grave como na educação do nosso país afeta a todos, desde o cara que pertence a uma classe social mais elevada e tem medo de sair na rua e ser vítima de um assalto, ao que faz parte da classe média, sustenta os ricos e sofre com a falta de estrutura das cidades, e ao cara que é pobre e não tem meios de mudar sua condição social, dando uma demonstração o mais clichê possível. Pensar educação vai além se percebermos quem são os cidadão e tipos de pessoas que estamos formando, quem serão os profissionais que nos atenderão daqui a 10 anos, quem dará continuidade aos progressos que a humanidade conseguiu até então, irá propagar nossa cultura, se pecamos desde o mais básico. E, sinceramente, não vejo por onde começar as mudanças.

Penso que talvez parar de tratar das conseqüências sem dar prioridade a suas causas, leia-se: cortar o mal pela raíz, seja um bom começo, mas não depende só da minha pobre vontade solitária ([…] eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade. Paulo Freire). Sem a conscientização da sociedade para a importância da educação não é possível cobrar ações pública, e sem isso, nada se faz. Uma luta social deve partir da vontade da sociedade e não de fora dela para que seja real e séria. É um ciclo vicioso: sem educação não há conscientização, e sem conscientização não há educação, interpretando educação não só como o ensino formal, escolar.

Gosto de uma citação que o Nenê Altro fez em algum trecho do Manifesto Discórdia, onde diz que as pessoas lutam por seus próprios interesses e não pra que seja feita a caridade, um ponto que acho importantíssimo ressaltar. Precisamos pensar em educação e criar meios de reverter a vergonha que ela é em nosso país para o nosso bem, e é acreditando nisso que vou todos os dias para a faculdade buscando meios de mudar alguma coisa, talvez para mim mesma, dado que há muito percebi que viver para tentar agradar os outros não funciona… Vou encerrar com uma frase do Paulo Freire, mais uma vez, que é minha recomendação de leitura do post de hoje e que mesmo tendo sido escrita há algumas décadas, permanece atual: A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tam pouco a sociedade muda.