Marco Feliciano

Mas nós, que sonhamos com a liberdade, a justiça e o respeito, não somos cidadãos de bem…

No início desse ano (re)assisti a uma peça de teatro que me marcou muito: Luís Antônio – Gabriela. Um espetáculo sobre respeito, inclusão e, acima de tudo, humanidade, palavra essa muitas vezes esquecida quando simplesmente aceitamos colocar pessoas e outros seres em condição inferior à nossa. A peça fala sobre um rapaz transsexual obrigado a entrar no mundo da prostituição para sobreviver em plena ditadura militar, mostrando os abusos que sofreu, a discriminação, o rompimento com a família e a vida que levava à margem da sociedade. Luís Antônio, ou Gabriela, como era conhecida, morreu em 2006 já muito debilitada pela aids e pelas complicações de seu estilo de vida; era uma figura grotesca: um homem com seios e coágulos de silicone industrial acumulados por suas pernas, o que causava grande dor e desconforto. Sucesso de público e crítica, a peça termina com um grande momento de lucidez e reflexão, com os atores cantando Your Song, do Elton John, após uma fala emocionante de Luís Antônio: “a vida é tão curta e eu vou ficar me doando pela metade?”. Luís Antônio só sabia retribuir amor e compaixão, não fazia distinção entre seres humanos, para ele, totalmente dignos de respeito, carinho e compreensão. “Para quê eu vou dar uma mão, se posso me doar de corpo inteiro?”, ele se perguntava. Assisti a peça duas vezes, sempre enxugando as lágrimas no final, com esperança de mais igualdade, respeito, compaixão entre as pessoas, que fosse muito além de religiões e interesses políticos, gritando dentro do peito…

As indiferenças diárias, o descaso, a omissão, os preconceitos e violências sofridas pelas minorias desse país me doem. Sinto que sangro toda vez que presencio o ato de tapar o sol com a peneira, tão comum nesse nosso país. Sofro toda vez que me lembro que na nossa sociedade, escrever essas coisas como escrevo, é quase um ato de subversão: nós, que sonhamos com direitos humanos, com progressos reais e para todos, com respeito e dignidade, somos os vilões da história. Ser cidadão de bem no Brasil é lutar para manter os privilégios daqueles que não os merecem!

Parece que estamos cada vez mais distantes de conquistar um país verdadeiramente independente, laico e humanista. Perdemos a nossa humanidade, inevitavelmente, toda vez que naturalizamos formas de violência, que discriminamos, que negamos ao outro direitos e liberdade para ser e existir, que não conseguimos o enxergar com a alma que enxergamos em nós mesmos. Perdemos nossa humanidade, nosso espírito democrático e nossa dignidade ao aceitarmos Marco Feliciano e Bolsonaro na Comissão de Direitos Humanos.

 

 

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