Marilena Chauí e a burrice da Classe Média

Faz já algum tempo que quero escrever a respeito de uma palestra da professora Marilena Chauí na qual ela fala sobre a ascensão do conservadorismo na classe média paulistana – e brasileira de modo geral. Nessa mesa redonda, Marilena Chauí exemplifica o quanto o encurtamento dos espaços públicos e o crescimento dos privados faz com que a classe média se torne cada vez mais reacionária, conservadora e truculenta.

Com o alargamento dos espaços privados em detrimento dos públicos, geramos cada vez mais desigualdade. Como diz Marilena Chauí em sua palestra, todos nós sabemos o quanto as escola públicas não prestam, e os colégios privados são muito melhores, e ainda o quanto o transporte público é precário e, tão logo, devemos todos sonhar em ter um bom carro. Desde crianças aprendemos o quanto os hospitais públicos são uma porcaria e o quanto é vergonhoso ter que ser internado em algum, e que, sendo assim, devemos pagar nossos planos de saúde e ter um atendimento muito mais rápido e eficaz para dos diferenciarmos dos pobres que morrem nas filas de espera e nos corredores de hospital. Sem falar na questão da segurança pública que faz com que os condomínios com muros imensos, aparatos de segurança de última geração e câmeras por todos os lados sejam considerados a oitava maravilha do mundo para a classe média.

O problema é que grande parte da classe média é incapaz de perceber que seu estilo de vida é um dos sustentáculos da criminalidade, que sem repensar a estrutura das cidades, a exclusão social, a periferia, a melhoria na distribuição de renda e, principalmente, a luta fracassada contra o tráfico de drogas, fica impossível criar um debate justo e coerente sobre os todos esses temas.

Marilena Chauí

Por falar que a classe média é burra, Marilena Chauí foi MUITO criticada pelos conservadores da direita. O que eles não entenderam – é claro, editaram a fala e colocaram em seus vídeos cheios de discurso de ódio só a parte em que ela grita a burrice da classe média – é que os espaços públicos são de todo mundo e que, em vez de criticarmos esses espaços e nos tornarmos reclusos de espaços particulares e exclusivos, devemos valorizar esses espaços, afinal, dizer que algo é público, não é dizer que é de ninguém. Reclamamos que não há boas escolas, mas não brigamos para que se tornem melhores: matriculamos nossas crias em colégios particulares e disputamos com os colegas do trabalho quem matriculou os filhos na melhor escola. Reclamamos que não temos bons hospitais, mas nos esquecemos de que o tratamento de HIV é todo feito pelo SUS, que temos hospitais públicos de referência para tratamento de câncer, doenças cardíacas, e que é graças a esse sistema público de saúde que vacinamos nossas crianças e erradicamos doenças que dizimaram populações no passado. Porque não miramos nos exemplos que deram certo e brigamos para que se tornem espelhos para os hospitais que precisam de melhorias? Apenas pagamos fortunas por nossos planos de saúde, contentes por podermos nos sobressair e sem perceber que nosso comodismo – ou o que mais você queira inserir aqui – nos faz pagar tudo duas vezes.

O que a Marilena Chauí quis dizer com aquele discurso é que a classe média não se identifica com os pobres, mesmo que tenha em comum com eles o fato de não ser burguesia. E que, com isso, deixa de lutar por melhorias nos espaços e serviços públicos, o que traria benefícios a ela. Lutar por melhores escolas é garantir que o pobre da periferia tenha outras opções de sucesso na vida além da criminalidade. Lutar por um transporte público de qualidade e ciclovias melhores é lutar por cidades com menos trânsito, menos estresse e mais qualidade de vida. Defender uma outra abordagem que não a guerra ao tráfico, é defender menos violência e com isso, mais liberdade, menos preocupações, menos gastos com aparatos de segurança.

Quem me dera se a classe média que a Marilena Chauí tanto critica conseguisse vislumbrar como a economia dos milhares gastos em serviços particulares, seria uma forma de juntar uns dólares a mais em sua próxima viagem a Miami.

 

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A Primavera Brasileira tem mais festa do que fúria

Empatia significa apropriar-se do sofrimento do alheio, mas pode ser definida também como um exercício diário que a gente pratica sempre que se dispõe a sair do nosso mundo e mergulhar no universo do outro. Mas o problema com a empatia é que ela anda em falta e não é fácil cria-la diante daquilo que não é tão óbvio. Empatia é tomar para si a revolta de uma mãe que perde seu filho em um assalto, mas também é mais do que isso.

Em uma palestra muito acertada, o escritor Mia Couto já afirmava que é preciso quebrar as barreiras do medo e passar a conhecer aqueles que por décadas nos acostumamos a chamar de eles, mas o problema com a empatia é que chegamos a um grau tão alto de violência em que não conseguimos mais enxergar humanidade no outro, naquele que vive uma realidade diferente da nossa.

Vivemos em uma sociedade que todos os dias exclui, segrega e mata, estratificada de tal forma a satisfazer apenas o interesse de uma dúzia de senhores que concentram quase a totalidade dos bens produzidos pelo país e define quais devem ser as aspirações da classe média que os sustenta. Sociedade essa que criou um monstro chamado Desigualdade Social e com o qual até hoje não sabe lidar e nem faz questão de saber.

E por que estou dizendo isso? Porque é da Desigualdade Social que nasce o menor abandonado, o morador de rua, o sem-teto, o analfabeto funcional, o colarinho branco, a fome, a chacina. O monstro chamado Desigualdade Social contribui para o aumento da criminalidade, para o tráfico de drogas, contra os quais o cidadão de bem quer lutar, mas sem saber, alimenta. Porque o monstro sucateia escolas, hospitais e bens públicos, mas a classe média que pode optar pelo privado não sofre nem se comove com isso. Porque o mostro Desigualdade Social está diretamente ligado ao desenvolvimento das cidades e esse trânsito caótico, essas favelas que não se incendeiam sozinhas e esse transporte público que não funciona.

A lógica sempre me disse que quando uma pessoa possui muito é porque falta algo a alguém, e que isso se aplica a tudo. Se um grupo ostenta mais privilégios, é porque a outro falta direitos e riquezas. Se há concentração de bens e serviços em determinada região, é porque em outra há carência de infraestrutura. Se há especulação imobiliária e as casas se tornam cada vez mais caras enquanto há quem more em condomínios luxuosos, cercados de câmeras, grades e proteção, é um tanto óbvio que isso criará moradias irregulares, ocupações, favelas e pessoas vivendo em situação de extrema pobreza.

E o que me choca mais é estarmos tão inertes a ponto de estarmos protestando por inúmeras causas, algumas válidas e outras não, mas sem entender a fundo a gravidade dos problemas do nosso país. Será que estamos mais uma vez tentando curar os sintomas sem nos preocuparmos com a doença? Até quando vamos fingir que não vemos a opressão que sempre esteve presente na periferia insone  e que, de diversas formas, nos atinge também? Se me preocupo com essas questões é porque não vejo sentido em uma sociedade que faça bem apenas para mim e uma pequena parcela de sua população. Não me interessa privilégios, me interessa igualdade, para que nem eu nem ninguém precise se preocupar mais em resolver o que fazer com os delinquentes, com a falta de bons hospitais públicos, o não cumprimento das leis. Me preocupo porque é o mínimo que eu poderia fazer, porque fazer protesto seguindo cartilha de bons modos e obediência civil só incentiva os donos do poder a tapar o sol com a peneira para acalmar os bobos.

E diante dessas minhas constatações só posso concluir que esse gigante sonolento, criado a leite com pera e revista Veja não pode ir muito longe a não ser que deixe de defender os interesses da minoria e passe a caminhar rumo à destruição de monstros que ele próprio criou. A grande maioria das pessoas não entendeu o que são esses protestos. A maioria não descobriu como ser empático o bastante para não defender apenas seus próprios privilégios. E não me chamem para essas micaretas conservadoras de ideais elitistas e direitistas. Me chamem para uma revolução de verdade, me chamem contra a opressão do pobre e do desfavorecido, mas não pra essa patifaria com teor de carnaval. Não é revolução de verdade se não houver luta de classe, se não for subversivo o bastante para entrar nos livros de história e nos sonhos da juventude. ““Se Não Posso Dançar Não é a Minha Revolução” Emma Goldman

“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força.” George Orwell, 1984.

Dica de Livro do Dia #10 – Convite à Filosofia, de Marilena Chauí

A dica de hoje é um livro de uma das grandes filosofas e historiadoras do Brasil, Marilena Chauí. Durante todo o meu Ens. Médio senti que os professores de Filosofia pecavam em muitos aspectos, levando a maioria dos alunos ao desinteresse pela matéria. Apesar de fazer parte daquilo que as pessoas consideram pouco importante, acredito que a Filosofia tem um papel muito importante na formação das pessoas e é por isso que recomendo muito esse livro. Estou na metade e não consigo parar de grifar frases e anotar algumas definições.

Marilena Chauí, além de escritora, é professora da FFLCH – USP, escreveu diversos outros títulos e recebeu, em 1994, o Prêmio Jabuti por ‘Convite à Filosofia’. É apenas mais um prêmio dentre tantos.

Sinopse: Um exercício do pensamento, que fomenta a reflexão crítica e lança um facho de luz sobre questões do dia-a-dia, realçando seu caráter histórico e ampliando os horizontes do leitor – eis o alcance deste livro. Convite à Filosofia é uma obra que utiliza o próprio instrumental filosófico para atualizar conceitos e fazer uma releitura dialética do mundo por uma das mais consistentes intelectuais do país. De suas páginas emergem os grandes temas da discussão filosófica, como Razão, Verdade, Conhecimento, Ciência, Ética, Política, Arte, Técnica, Religião, Metafísica, História, Lógica.