Psicologia Social

“‘Tudo o que é sólido desmancha no ar!”

Tenho notado que penso sobre coisas aparentemente simples, e aí, quando resolvo falar sobre elas aqui no Poética de Penseé, e tenho que pesquisar um pouco mais a respeito delas, percebo que, ao contrário das minhas impressões anteriores, os temas são muito mais complexos do que eu havia suposto. Hoje esse tema é o self.

O self, é o “eu” pós-moderno, que consiste numa ideia de “indivíduo” multifacetado, que é um e ao mesmo tempo vários, onde a multiplicidade e a unidade individual não se excluem, mas se complementam. Essa ideia se contrapõe ao “eu” moderno ao qual estamos habituados: um indivíduo com características próprias e constantes, imóveis. O fato de estarmos intimamente ligados a esse modelo se deve ao fato de nossas relações se basearem  na dualidade e na negativização, com simples conceitos de correto/incorreto, feio/bonito, bom/mau, sendo que um sempre é a negativa do outro.

Na verdade, cansei de me limitar a ser uma coisa só! Por que não ser várias, ser uma e todas ao mesmo tempo? Parece complexo, mas é mais simples e me soa mais verdadeiro do que ter que restringir minha conduta, meus gostos, me decidindo por uma única realidade. Geralmente fazemos muito isso na adolescência, quando sentimos a necessidade de buscar ideais, pessoas, estilos musicais, tribos, com as quais nos identificamos e que eventualmente também nos representam. Escolhemos um único partido e excluímos da nossa agenda todos os demais programas que se diferenciam do mesmo. É assim que aprendemos sobre quem somos, aquilo que achamos bom ou ruim, nos agrada ou não; e passando dessa fase, nada mais justo do que abandonarmos essas limitações e experimentarmos aquilo que nos faça felizes, mesmo que teoricamente nos agrade duas coisas que se contradizem e se opõem totalmente. Mais contraditório do que gostar de dois extremos opostos, é viver numa sociedade que obriga as pessoas a serem versáteis e ter que basear suas escolhas na dualidade do sim ou não, a menos que se deseje ser chamado de hipócrita.

É um direito de todos mudar de opinião, ou de repente compreender e aceitar que não existe uma só verdade a ser ouvida  e respeitada. Me sinto absolutamente a vontade para ouvir rock e jazz numa mesma tarde, ter amigos com características opostas, namorar e mesmo assim ser livre, e não é por isso que deixo de ter a minha personalidade, mas somente acrescento todas essas contradições ao meu ser… Aliás, acredito que essa compreensão do self, e o aceitamento da multiplicidade presente na sociedade em que vivemos, pode contribuir para a maior valorização do respeito pela diversidade, seja ela de que âmbito for e para o crescimento intelectual das pessoas. Somente quando o homem entender que não existe o certo e o errado, nem verdades absolutas e imutáveis, é que vamos poder falar de nossa racionalidade tão bem quanto falamos de nossa suposta inteligência humana.

Caçador de mim – Milton Nascimento

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

 

 

Do Estereótipo ao Preconceito

Vivemos em uma sociedade habituada a criar rótulos e estereótipos para enquadrar as pessoas em determinados âmbitos, sejam culturais, sociais, econômicos, emocionais, sexuais, e que constrói esses modelos através de julgamentos excludentes e baseados na negativização. Sendo assim, é necessário que para a existência de pessoas boas, corretas, corajosas ou bonitas, existam antes as pessoas ruins, que agem de forma incorreta, são covardes ou são feias. É um exemplo simples, mas que serve para entendermos quais são as implicações desse tipo de  construção.

O termo “estereótipo” era usado desde 1798 para se referir a uma chapa de metal utilizada para produzir cópias repetidas do mesmo texto na tipografia, significando algo rígido e fixo. Posteriormente, Walter Lippman lançou mão do termo para designar imagens mentais que eram criadas a partir de determinados grupos sociais, com os quais temos pouco ou nenhum contato. Lippman descreveu a criação de  estereótipos como um processo ‘normal’ e ‘inevitável’, inerente à forma como processamos a informação, fazendo assim, uma interposição entre o objeto estereotipado e a realidade.

Apesar dos estereótipos serem ‘normais’ e ‘inevitáveis’, como defende Lippman, a rotulação de indivíduos possui muitos aspectos negativos, dentre eles a viabilização de preconceitos e a limitação de indivíduos. Ao criarmos um rótulo negativo para determinado indivíduo, deixamos de conhecê-lo profundamente, para então formularmos uma representação visual coerente e verdadeira. Desse modo, é importante e necessário observar que todo indivíduo é constituído de diversas ‘faces e, à partir dessa observação, concluir que toda forma de rotulação é falha pois não considera todas as suas peculiaridades; com isso, acabamos utilizando os estereótipos para justificar atitudes de intolerância e exclusão, e nos deixamos levar por determinadas imagens mentais e modelos que se propõem a explicar a realidade, mas diferem da realidade em si. Erramos em tentar reduzir a complexidade humana a imagens simples. Como citou David Hume, em “Investigação Acerca do Entendimento Humano”:

"(...)Todas as cores da poesia, apesar de
esplêndidas, nunca podem pintar os objetos naturais de tal modo que se tome a 
descrição pela paisagem real. O pensamento mais vivo é sempre inferior à
sensação mais embaçada."