Tempo

A Moça Do Tempo

Acho que todo mundo tem o costume de prestar atenção na previsão do tempo. A moça da TV acaba sendo responsável por sairmos de casa carregando casacos ou usando roupas de calor, e no caso dos paulistas, responsável por sairmos de casa preparados para enfrentar as quatro estações do ano em um só dia. Porém, a moça do tempo não nos fala sobre todos os aspectos do tempo, principalmente daqueles que só aprendemos com a chegada de uma certa dose de amadurecimento.

O tempo, além daquele que falamos quando não temos algum assunto mais interessante para puxar conversa, também é o fator representado pelos relógios, capaz de nos situar na dimensão em que vivemos, de apaziguar algumas de nossas dores e, ainda, de nos levar a compreender algumas situações mais complexas. Talvez, a maior de todas as dores – e a melhor também – seja compreender que o tempo passa e que nós passamos junto com ele. Nós e as oportunidades, os amores, as dores e as pessoas que nós deixamos que se vão ou que inevitavelmente acabam indo. Impossível não pensar na magia que o tempo carrega consigo.

Porém, perde-se muito tempo, sobretudo com coisas desnecessárias. Perdemos tempo estando de mau-humor e reclamando da vida que poderíamos mudar se agíssemos. Perdemos tempo formando opiniões calcadas sobre preconceitos e pré-julgamentos e assim, deixamos de formar novas e melhores ideias e conhecer pessoas diferentes que possam agregar de alguma maneira. E eu perco tempo, especialmente, pensando no tempo que estou perdendo, pensando em todas as coisas que fazem com que eu sempre fique com a sensação de nunca viver a vida ao máximo.

Agora estou otimizando o meu tempo. Estou eliminando da minha vida tudo o que me suga e me entristece, estou querendo bem às pessoas, mormente àquelas que me querem bem e me fazem bem. Estou me afastando dos que perdem tempo criticando os demais e se esquecem de si, me afastando do veneno e da fúria sem causa. Estou contemplando o tempo tentando ver algo de bom até onde não tem. Tenho tentado achar respostas e ver graça nas coisas simples. Assim como a moça do tempo nos ajuda a escolher que casaco levar na bolsa, o tempo do relógio nos ajuda a separar o joio do trigo. “Tempo, tempo, tempo, tempo… Compositor de destinos…”.

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Em passos largos ao sul de lugar nenhum…

O tempo anda tão depressa que é comum olharmos para o calendário e já estarmos no meio do mês. É contando sempre a chegada do final da sexta-feira que levamos nossas vidas, com pressa o tempo inteiro. Pressa para chegar logo no trabalho, pressa para o expediente acabar e, por fim, a pressa para voltar para casa . Talvez nossa pressa seja apenas uma ideia ilusória de que chegaremos mais rápido ao sossego. Vamos seguindo, dia após dia, na esperança de um fim de tarde sem nada na cabeça, um tempo livre para podermos gastar com a família ou nossos amigos; quem sabe aquele passeio no parque, aquele barzinho para jogar conversa fora, ler um livro ou assistir aquela comédia bestinha, só para gastar o tempo. Mas, de todo modo, vivemos na era da urgência! Tudo é urgente! É urgente chegarmos ao trabalho, e termos mais dinheiro para as férias, e quando estamos de férias, sem nada para fazer, é urgente que encontremos uma ocupação abrupta para escaparmos do tédio que é conviver apenas com nossos pensamentos.

E como se não bastasse o caráter de urgência das grandes cidades, há ainda a poluição sonora e a tecnologia nos assombrando a cada passo que damos. Quando estamos em casa é o carro da pamonha passando na rua e nos impedindo de ouvir o telefone ou à televisão. Quando estamos no metrô são os celulares de sujeitos sem educação que, como se não bastasse tocarem música alta, tocam música ruim. No trânsito são as buzinas e os palavrões dos apressadinhos, e o pouco que sobra da fé na humanidade indo pelo ralo quando vemos um sujeito despejar pela janela um maço de cigarros já vazio. A tecnologia que nos prometeram que viria para ajudar, apenas está nos engolindo com sua velocidade.

Os celulares nasceram com a promessa de quem não dependeríamos mais dos telefones fixos para nos comunicar e, sem que notássemos, nos fizeram perder aquele momento em que sentávamos ao sofá e  atualizávamos os amigos sobre os acontecimentos da nossa vida. Aos poucos as vozes que ouvíamos do outro lado da linha passaram a ser substituídas por mensagens de texto e as coisas que passávamos minutos contando no telefone, podem ser lidas em instantes no mural de qualquer Facebook. Pensamentos cada vez mais fragmentos em 140 carácteres. E os carros que nos vendem com a promessa de status e conforto só nos garantem a comodidade de ficarmos presos no trânsito.

Perdemos alguns hábitos que davam um sabor mais gostoso para a vida. Não temos mais tempo para nos sentar e ler um livro. Lemos em pé nos ônibus e nos metrôs mesmo, para passar o tempo mais depressa. Já não reservamos um espaço durante o dia para ouvir os discos que gostamos; a comodidade de fazer o download de discos inteiros em menos tempo do que gastaríamos caso fôssemos a uma loja, nos fez deixar de apreciar as fotos dos encartes, o ritual de ligar o som e colocar um CD para tocar. A regra é que ocupemos o nosso tempo de alguma forma e a ociosidade tão necessária, nos vem carregada de culpa.

A Era da Urgência é também a Era da Ilusão, onde somos comprados por tudo e por nada. Somos comprados por promessas de um futuro e uma paz que nunca chegam. Somos comprados pela ideia de um presente que não mais vivemos já que estamos ávidos pelo futuro. E somos consumidos pela ideia de um passado que nos enche de nostalgias. E esse, é um texto sem conclusão, talvez porque a grande claustrofobia dessa nossa era, é não conseguirmos enxergar saídas e nem meios de nos livrarmos dos nossos hábitos que só consomem nossa juventude, nossa saúde e nos fazem viver e morrer por nada. Talvez para enchermos os cofres dos bancos, quem sabe, e usufruirmos muito pouco dos nossos esforços…

Morrer é fácil, amar é que é difícil…

Rainha do drama e a melhor em desperdiçar o tempo com preocupações inúteis. Acho que é mal de espécie o fato de todos nós humanos termos  a capacidade nata de não saber reconhecer o que realmente importa. É clichê, porém é também um fato que só reconhecemos o valor das coisas quando as perdemos, ou no caso de agora, quando chega uma reflexão em formato de luva de box e acerta num golpe a boca do estômago.

Assisti um filme lindo essa noite, Inquietos, e achei a mensagem excelente. Me fez pensar muito e principalmente no quanto nossa vida é curta, no quão parecidos a grãos de areia somos se comparados ao tempo geológico, e sendo assim, no quanto é curto o espaço de tempo que temos para fazer com que nossas vidas se justifiquem. E para isso não podemos pensar e agir como se fôssemos eternos, porém quem sabe pensar que morrer não é nada se antes disso soubermos dar importância ao que importa.

Mas nós enquanto humanos tão mais evoluídos, conseguimos nos equiparar a ouriços, afastando as oportunidades com nossos espinhos de orgulho e prepotência, enquanto deveríamos baixar nossa guarda, perdermos nosso medo de revelar quem somos no mais íntimo escondido. Mesmo amando, temos medo de amar e nos deixar ser amados. Mesmo sentindo, preferimos sufocar as palavras dentro do peito e arrumar outra coisa para distrair nossa atenção. Mesmo não sendo eternos, conseguimos agir como se tivéssemos todo o tempo do mundo e acabamos não fazendo nada, não deixando nada, sendo apenas agulhas no palheiro desses 4,5 bilhões de anos do planeta. Nós humanos e tão sábios, ainda achamos dificuldades para encontrar o que enfim justificará nossa existência.

“Não há diferença no que estamos fazendo aqui
Que não apareçam como sintomas maiores lá fora
Então por que gastar nosso tempo vestindo nossas bandagens
Quando temos a chave fundamental para a causa aqui mesmo, dentro de nós?

Olhe nós formando nossas facções em nossa caixa de areia
Olhe nós microcrianças com nossos corações bloqueados
Olhe nós dando as costas a todos os pontos ásperos
Olhe ditadura no meu próprio quarteirão”
Alanis Morissette – Underneath

* O título saiu de uma frase do filme “Inquietos”.