Quando sair da teoria funciona

Vivemos na era da informação, e esta chega por todos os cantos: está nas esquinas, nos outdoors, entupindo nossos boeiros, os sites de notícias, livros e revistas, e enfim, tumultuando nossos pensamentos e confundindo nossas cabeças. Vamos acumulando dados e mais teorias, que vão ocupando espaço no nosso hd interno e parecem só servir para nos fazer perder o melhor da vida. Enquanto estamos atordoados estudando, defendendo nossas teorias e teses de mestrado, monografias, fazendo nosso trabalho, temos a sensação de estarmos distantes de tudo o que nos proporciona prazer, apenas cumprindo com nossas obrigações com a busca pela ascensão social ou status.

Nos obrigamos a manter essa relação massante com as informações e o conhecimento, descartando-os depois que efetivaram suas funções, nos levando aos lugares aonde pretendíamos chegar. Pior do que isso, porém, é que sem sequer nos darmos conta, infligimos esse mesmo modelo às crianças e aos adolescentes, que assim como muitos de nós, passam anos de sua vida decorando informações – as quais apenas algumas frações se converterão verdadeiramente em conhecimento – que jamais saberão qual a função na vida real. É claro que toda generalização é um erro, e nem todas as pessoas acham massante aprender; nesse caso o aprendizado não é um meio de alcançar um objetivo, mas é o próprio objetivo.

Esse seria um problema apenas pessoal, já que em tese cada um escolhe com o que gasta seu tempo, porém acaba afetando o todo. Apesar de pertencermos a uma era informacional, as pessoas pensam cada vez menos e compram suas ideias assim como chicletes em mercearias, provocando mal-entendidos, debates infundados e uma grave falha de comunicação. Ficou muito mais fácil manipular e o senso-crítico tem estado em falta.
Para quê então tantas notícias, tanta valorização dos diplomas e tempo gasto com uma educação que desmotiva e reprova o pensamento próprio, a reflexão e a busca pelo entendimento do universo através do conhecimento científico?

Informação nenhuma têm sentido se não levar a um pensamento superior, além da decoreba de fórmulas e classificações taxonômicas que não têm função alguma na vida prática, e deveríamos fazer diferente. De nada adianta ensinar a um aluno sobre a Guerra Fria se ele não entender as consequências que a mesma trouxe para o mundo contemporâneo, assim como não há porquê insistir em fazer alguém decorar nomes de vermes se não for para entender as doenças que estes podem causar e aprender a prevenir os tais males.

Enquanto continuarmos nivelando por baixo, apresentando aos nossos estudantes conteúdos vazios e imensos, iremos manter a desigualdade social e a “bundamolice” que assola esse país, com o perdão do termo.

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Sobre promessas e tubarões

O ingresso à uma boa universidade é uma tarefa complicada que requer muito esforço pessoal. A concorrência é larga, as vagas são poucas, o custo de um cursinho pré-vestibular nem sempre é acessível, além do desafio de manter o foco nos cadernos e livros durante um ano inteiro não ser um dos mais fáceis. A tentação e os amigos batem à porta, e a carne fraca quase sempre é vencida pelo caminho mais fácil.

A vida de um vestibulando nunca é fácil, há sempre muita coisa pra estudar em pouco tempo, cansaço mental e sono. O tédio se confunde à própria sombra e o tempo todo é uma luta contra o relaxo. Pensando friamente, é um ano gasto com pouca diversão e aprendendo coisas, decorando uma porção de outras que esqueceremos depois das provas muito provavelmente. Por outro lado, esse ano sofrível é que nos dará a base necessária para conseguir destaque na nossa futura carreira. É a maturidade pedindo prova!

Nessa noite, porém, em que a cafeína me atrapalhou muito o sono, comecei a pensar no quanto a responsabilidade, a dedicação e a persistência nos estudos para alcançar uma meta distante, que é o ingresso à um curso superior, está muito mais relacionada ao amadurecimento e à certeza das próprias escolhas e objetivos a serem concluídos, do que à cobrança externa. Ninguém aguenta por muito tempo persistir em algo, e obviamente abrir mão de experiências mais atrativas, quando desacredita sua importância. E junto a esse amadurecimento necessário, é preciso também ter confiança em si mesmo, como diria Caio Fernando: “Tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”.

*Título de uma música da banda Dance of Days

 

Qual o preço da cultura?

Ontem eu decidi participar do Cursinho Popular da Unifesp ministrando algumas aulas de História e Geografia e tudo isso me fez refletir muito sobre o preço que pagamos pela cultura e educação, que em tese, deveriam ser direito de todos, mas não são. Paga-se muito caro para ter acesso a esses bens, que acabam ficando concentrados nas mãos daqueles que tem maior poder aquisitivo. Por exemplo, quantas vezes você consegue ir ao teatro ou cinema em um mês? Qual a variedade de livros que você pode encontrar na biblioteca do seu bairro? Aliás, seu bairro tem uma biblioteca pública? E se tem, há livros novos e bem conservados, ou você só consegue ler um best-seller depois de semanas ou meses na lista de espera para reservar o livro? Se você quer prestar vestibular, qual a preparação que sua escola te dá ou deu? Será que é suficiente ou mesmo após tantos anos se dedicando à escola, você ainda terá que reservar mais alguns no cursinho pré-vestibular? Você tem condições de arcar com as despesas de um cursinho pago? O quanto tudo isso te desmotiva a conseguir realizar seus sonhos?

Então pensando nisso tudo, decidi participar dessa iniciativa brilhante, tomada por alunos e professores da Unifesp, e estou aceitando essa oportunidade como um grande desafio, e uma forma de retribuir a sociedade a possibilidade de estudar numa Universidade Federal. Como cidadãos, devemos ser e fazer as mudanças que queremos ver em nossa sociedade e estou fazendo isso por realmente acreditar na importância que têm a cultura e a educação para a vida das pessoas, sem receber nada por isso além de gratificação pessoal. Finalmente saindo do discurso e indo para a prática. E vou dedicar meu blog também um pouco a isso, reservando esse espaço para falar de cultura e abranger o máximo de conteúdo de apoio para as minhas tão esperadas aulas.

No mais, digo ainda que ter cultura e educação, nunca são indispensáveis. Não só para conhecer pessoas e lugares interessantes, estudar e ganhar mais dinheiro. Não acredito que esse seja o foco, e se assim é que tudo isso tem sido encarado, é por estarmos banalizando e reduzindo esses ‘bens’ à mercadorias e a sinônimos de ascensão pessoal apenas. Imagino que cultura e conhecimento sejam espécies de amuletos, que carregamos sempre conosco para nos ajudarem a enfrentar o que vem pela frente, para nos dar base para pensar, solucionar os problemas e secundariamente, nos dar o retorno financeiro por nosso investimento.

Espero conseguir passar um pouco dessa minha ideia da necessidade de se valorizar o conhecimento e os professores, e contribuir para que a profissão seja mais atrativa e menos desmotivadora para quem pensa em ganhar a vida nas salas de aula. Fácil não é! Estou empolgada, as turmas começam na segunda-feira, e temos mais de 600 alunos matriculados, por isso estou correndo para preparar o máximo de aulas que eu puder. E que ansiedade!

 

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” Cora Coralina

O Perigo da História Única

Essa semana, numa aula da faculdade, fomos apresentados a esse vídeo de uma palestra incrível da escritora africana Chimamanda Adichie, que trata sobre o que ela gosta de chamar de história única. Concordo com uma afirmação feita logo no início do vídeo em que a history teller diz o quanto somos vulneráveis frente ao que ouvimos, e não questionamos que possam existir diferentes  histórias para um mesmo assunto, basta mudar a forma como contamos e por onde escolhemos começar.

Quantas histórias únicas nós temos? E se contássemos a história do nosso país pelos olhos dos índios e não dos portugueses que nos colonizaram? “O problema dos estereótipos não é que eles são errados, mas são incompletos.” diz Chimamanda em sua palestra. A história final acaba sempre contada por aqueles que têm mais poder e acabam assim se tornando a identidade definitiva de um povo, o limitando, restringindo-o, fazendo com que este perca sua dignidade e se despersonifique. É o que acontece por exemplo com o Brasil: somos o país das mulheres bonitas, do Carnaval, do samba, da violência e do futebol. Até parece que não somos nada além disso. Ainda temos (ou tivemos) bons escritores, músicos incríveis que tocam MPB, rock, pop, jazz, música experimental, temos boas peças de teatro, boas universidades, gente rica, pobre, boa e má, honestidade e corrupção. Somos tantas coisas e lá fora somos barrados nos aeroportos por carregarmos esse estigma gerado por todas essas diferentes versões de uma mesma história única que há muito é contada sobre nós. O estigma de existirem aqueles que são mais e melhores, e os que são menos e inferiores, é o mesmo adotado por Hitler para justificar seu ódio para com os judeus, por exemplo, e diariamente por todos aqueles que se sentem do direito de oprimir e subjulgar pessoas, povos e culturas, simplesmente por elas terem crenças e culturas diferentes.

Depois de tudo isso ser dito, penso que precisamos renovar o senso-crítico que possuímos enquanto povo brasileiro, e resgatar a educação e alguns valores para essa geração que fazemos parte e as posteriores. Esse é um momento muito particular do nosso país, em que crescemos financeiramente como nunca antes, mas culturalmente falando, permanecemos estagnados no tempo, com uma educação que deixa muito a desejar e nos impede de prosseguir e moldar uma nova identidade. É preciso educar para formar os tipos de homens e mulheres que queremos. Além disso, perceber o quanto é necessária essa mudança, também faz com que nós tentemos olhar o mundo não mais sobre a perspectiva da diferença, mas sim da semelhança. E se contássemos outras histórias que não as que estamos acostumados a ouvir sobre os pobres, os ricos, a escola, os nordestinos, os homossexuais, os árabes, muçulmanos? O que eles tem em comum conosco, o que a mídia e a sociedade escondem sobre esses grupos? O que está por trás do que assistimos na televisão e lemos nos jornais? É importante resgatar esse tipo de senso-crítico, para que possamos andar para frente, ver que existem outras culturas além das muitas existentes no nosso “mundinho” ocidental. Qual é a sua história única?  Conte para nós nos comentários!

Deixo vocês agora com as duas partes do vídeo da palestra de Chimamanda Adichie:

Recomendo: A Invasão Cultural Norte-Americana – Júlia Falivene Alves

Ler para Ser: Desligue a televisão, saia da internet e vá ler um livro!

Eles começaram como tabuletas de argila ou pedra, posteriormente substituídas por cilindros de papiro e, depois, por pergaminhos. Meio de codificar leis, registrar dogmas e crenças religiosas, difundir costumes e informações, além servirem como documentos históricos, os livros são a maior invenção da humanidade. Imaginem o que seriamos sem os livros? Certamente nossa sociedade seria organizada de uma maneira totalmente  diferente, e provavelmente muito mais desorganizada também. Se antes os livros eram acessíveis apenas àqueles que constituíam a nobreza e as classes mais favorecidas, e logo, alfabetizadas, hoje, graças ao surgimento da imprensa e da tipografia na Idade Moderna, os livros deixaram de se restringir às minorias e garantiram sua importância. O desenvolvimento de todas essas tecnologias, mais do que documentar ou organizar a sociedade, possibilitou às pessoas o acesso ao aprendizado e à cultura, sem os quais estaríamos estagnados.

Gosto de uma citação de Monteiro Lobato que diz: “Um país se faz com homens e livros.”, e ainda acrescentaria dizendo que um país se faz com crianças e seus livros.Não é preciso muito raciocínio para notar que a leitura constitui um hábito que nós brasileiros não temos e não passamos para nossas crianças. A média de livros lidos pelos brasileiros por ano é de 4,7, segundo o Ibope, enquanto o europeu lê em média 8 livros por ano per capita. É mais fácil assistir à novela e ao analisar os problemas que nosso país enfrenta, percebemos o quanto esse desapego para com a educação e a formação intelectual dos nossos cidadãos é prejudicial.

Desde sempre os livros estiveram presentes no meu cotidiano, fosse em casa ou na escola. Sempre fui daquelas crianças que faziam birra no shopping pra “arrancar” livros dos pais ao invés de bonecas e percebo o quão bom isso foi para minha formação. Todo ano compro dezenas de livros que vou acumulando, lendo, emprestando, esquecendo, doando, perdendo as contas… Ler para aprender, ler para pensar, imaginar, rir, chorar, indignar-se, descobrir, mudar, trocar ou reforçar opiniões. Ler no ônibus, na fila do banco, no trânsito, antes de dormir, carregar um livro na bolsa e ler por pura distração esperando um amigo atrasado chegar ao local marcado, na sala de espera do dentista. Ler para ser cidadão! Quem não lê dificilmente consegue desenvolver um bom papo, ter opiniões embasadas, se colocar numa discussão, fazer uma boa crítica e ora, essas são ações muito básicas no cenário em que estamos inseridos. E fico indagando se ter um país com mais leitores, com pessoas mais conscientes e críticas não passa de uma grande utopia; questiono se algum dia a educação vai finalmente abandonar o patamar de “escada para o sucesso” e o status social e aí sim as pessoas irão estudar, ler livros, nem que sejam best-sellers que facilmente virariam uma novela global, não mais por obrigação.

Vou finalizar com um conto a carater, da Clarice Lispector:

 

FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio
arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos
achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do
busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias
gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de
pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal
da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde
morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra
bordadíssima palavras como "data natalícia” e “saudade” .
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança,
chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que
éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler,
eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorarlhe
emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma
tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de
Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com
ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses.
Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o
emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu
não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me
traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava
num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando
bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina,
e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas
em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a
andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife.
Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias
seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me
esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de
livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua
casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro
ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu
como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se
repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo
indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já
começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.
Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer
esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às
vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio
de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e
silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a
aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a
nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco
elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar
entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com
enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você
nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia
ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a
potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à
porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se
refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora
mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é
tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro
na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando
como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com
as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar
em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração
pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para
depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas
maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo
comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,
abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela
coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina
para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia
orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo,
sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu
amante.

Assunto de Meninas: O Tabu do Sexo.

Essa madrugada uma amiga, ainda dos tempos de escola, veio dormir em casa e ficamos lembrando de professores e colegas antigos, de como nós tivemos uma fase de odiar o colégio e muitas pessoas com as quais tínhamos uma convivência forçada. A escola tem um papel fundamental na formação de indivíduos, e não falo só da educação que está nos livros, mas de um processo muito mais profundo e humano que educar consiste. É engraçado olhar pra trás e ver como era nossa vida há 4 anos, e como fomos educadas para sermos meninas recatadas que abaixam a cabeça para tudo e não tem direito a questionar qualquer tipo de regra.

Me veio à memória um episódio em que eu quase tomei uma advertência porque eu estava desesperada para ir ao banheiro e, mesmo depois de terminar a lição, a professora simplesmente decidiu que eu, com uns 14 anos então, não poderia de forma nenhuma sair da sala e deveria esperar 40 minutos até a aula acabar. Coca-cola é diurética e, pra que nenhum acidente acontecesse, saí da sala sem permissão e fui ao banheiro.Voltei pra sala de aula e encontrei a professora  possessa porque, segundo ela,  minha atitude era muito subversiva! Foi uma confusão imensa e fui levada à direção para assinar uma advertência (?)!  Oi? Posso ter necessidades íntimas? Sem ter que me constranger perante a minha turma inteira e virar lenda na escola de preferência? Não. Fui obrigada a discutir com a professora na frente da classe inteira e soltar: e seu eu estivesse menstruada, a senhora ia me emprestar suas calças pra assistir o restante das aulas e voltar para casa?

Até hoje me lembrar desse momento me trás um pouco de constrangimento e principalmente indignação. Só mostra como alguns professores colocam sua ordem à frente do real motivo de estarem numa sala de aula e como muitos colégios não têm o mínimo preparo para lidar com qualquer tabu, ou situação limite e, por isso, acabam distanciando os alunos da realidade e os dando o sentimento de culpa, ao invés de segurança e sabedoria para lidar com alguns conflitos que surgem naturalmente na adolescência. Me lembro de ter uma momento nas aulas de biologia onde falávamos de sexo e escrevíamos perguntas anônimas que a professora respondia. Todas as dúvidas que fugiam da “normalidade” eram descartadas pela professora. Nada era abordado no sentido de sexo para além da reprodução e a imagem que tínhamos era que qualquer forma de desejo sexual era errado, sujo. Não se podia sentir vontade. Os meninos que perguntavam sobre masturbação eram respondidos, e olha, que glória era ser homem e ter o direito a ter orgasmos. Lembro que para as meninas masturbação era um assunto quase proibido e, se chegava a alguma discussão, era tratado como algo nojento, errado, sujo, mesmo que muitas ali tivessem sim suas experiências com o próprio corpo. A diferença era que para os meninos era legal, para as meninas era errado e ponto final.

Também não se falava de homossexualidade ou outras formas de família que fugissem do padrão pai, mãe e irmãos. Tudo o que fugisse ao padrão era proibido e logo não era abordado. Sorte minha e de algumas meninas que sempre tivemos nossas más influências que nos livravam desse conceito cristão arcaico que só faz reprimir a sexualidade da mulher. Simone de Beauvoir não poderia ser mais clara em sua afirmação: “Não se nasce mulher: torna-se!”. Talvez a escola não tenha mesmo o papel de tratar sobre sexo, pois é de fato um dever dos pais. Mas fujamos à hipocrisia desse tipo de afirmação que desconsidera que é muito raro que pais e filhos se sintam a vontade para tratar do assunto e acabam o ignorando. O ambiente escolar seria então o lugar secundário para tratar da sexualidade e o tema deveria ser abordado por profissionais capacitados e bem preparados para lidar com jovens e não com professores de Biologia, já que esse é o ambiente onde os indivíduos crescem, estão tentando buscar sua auto-afirmação, auto-conhecimento, e é precário  haver ainda esse tipo de repressão que acaba impedindo o desenvolvimento total dos alunos e principalmente das meninas, que são induzidas a ver o próprio corpo com medo.

Desde os anos 60, com a Revolução Sexual que foi iniciada com o uso do anti concepcional, muitas coisas mudaram, mas o machismo permanece arraigado na sociedade e pior, nas próprias mulheres. Elas não tem liberdade com o próprio corpo e sua sexualidade e, algumas, tampouco com suas escolhas. Embora as mulheres tenham conquistado um espaço de maior visibilidade, vejo que muitos pensamentos ainda são os mesmos de 40 anos atrás. Sim, as mulheres hoje trabalham, estudam, mas suas obrigações com casa, marido e filhos, continuam intocadas, há somente um acúmulo de tarefas. Com a suposta liberdade que foi conquistada, ainda hoje atribuímos funções domésticas ao sexo feminino.

Defendo que as mulheres tenham liberdade para observar o próprio corpo e que se quebre com essa cultura machista de que somente o homem irá desvendar a sexualidade feminina. As mulheres precisam conhecer a si mesmas, eliminar o sentimento de culpa que está relacionado a isso, afinal, desejos sexuais são comuns à todos, é uma condição, e negar isso é sucumbir aos preceitos de uma sociedade arcaica que reserva toda a soberania aos homens. E também é necessário que os homens não vejam o feminismo como algo ruim para eles, pelo contrário: com essa libertação das mulheres eles também serão beneficiados. O comportamento das escolas só reflete então, a cultura da sociedade, e esse é o motivo da necessidade da educação sexual como matéria e que esta seja lecionada por profissionais que compreendam que a sexualidade está presente, independente de teorias e tabus que tentem esconder a realidade.

E, por coincidência hoje é Dia das Mães. Parabéns para a minha mãe e todas as mulheres que cumprem jornada tripla de trabalho e mesmo assim não têm reconhecimento da sociedade que  de fato merecem. O mundo deveria ser de vocês.

Pitty – Desconstruindo Amélia

Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar
O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair…

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende porque
Tem talento de equilibrista
Ela é muita se você quer saber
Hoje aos 30 é melhor que aos 18
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra nigth ferver

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro

Recomendo: O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir;

Educação: um problema de todos.

Quando pensamos em educação, automaticamente imaginamos escolas, professores, alunos, porém a educação vai além disso, estando presente fora do ambiente escolar e de maneira informal, o que inclui difusão de cultura, de valores sociais como certo e errado, padrões de conduta, e acaba formando tipos de homens e mulheres que variam de acordo com sua época, região e características da sociedade em que estão inseridos. Isso significa dizer que a educação, em suas diversas formas, é que constitui cidadãos que irão perpetuar sua cultura, seus valores, e os preparar para exercer plenamente a função de cidadãos. Educação constitui a base de um ciclo que envolve cidadania, cultura, democracia e liberdade. Sem ela não é possível a construção de um Estado democrático onde os cidadãos tenham discernimento para julgar os governantes e suas propostas e assim, garantir que a sua vontade seja efetivada. E que esses cidadãos possam analisar fatos, propostas, polêmicas, sem interferência da mídia, de valores religiosos e, dessa forma, possam agir a favor do bem comum e não tão somente de interesses pessoais.

Entretanto sabemos que a educação no nosso país rasteja em estado de calamidade pública, deixando de formar pessoas com o mínimo de conhecimento e capacidade de julgamento necessários para que possam desempenhar seu papel social de forma coerente.Não vejo outro meio de narrar a educação das escolas públicas como conhecimento empilhado e que torna massante o aprendizado ao aluno. Isso faz com que não tenhamos uma cultura que fuja do padrão Globo de televisão, e as pessoas não questionem sua realidade. Pessoas céticas como eu, você e muitos que não acreditam que mudanças possam ser feitas. Sem educação nos falta também uma série de outros direitos como segurança, transporte, saúde, moradia de qualidade, e que, uma minoria se revolta e cobra posições do governo e dos órgãos competentes, enquanto a maioria permanece na inércia do ceticismo acreditando que mudanças serão impossíveis. Ter uma massa questionadora é o princípio básico para o início de qualquer sociedade democrática e livre, e nosso país está muito longe de alcançar isso.

Me vejo também muito cética em relação a mudanças sociais no Brasil, mas no fundo ainda acredito que através da educação e de fortes meios de conscientização mudanças possam começar. E percebo isso observando que pouca gente tem consciência de que um problema grave como na educação do nosso país afeta a todos, desde o cara que pertence a uma classe social mais elevada e tem medo de sair na rua e ser vítima de um assalto, ao que faz parte da classe média, sustenta os ricos e sofre com a falta de estrutura das cidades, e ao cara que é pobre e não tem meios de mudar sua condição social, dando uma demonstração o mais clichê possível. Pensar educação vai além se percebermos quem são os cidadão e tipos de pessoas que estamos formando, quem serão os profissionais que nos atenderão daqui a 10 anos, quem dará continuidade aos progressos que a humanidade conseguiu até então, irá propagar nossa cultura, se pecamos desde o mais básico. E, sinceramente, não vejo por onde começar as mudanças.

Penso que talvez parar de tratar das conseqüências sem dar prioridade a suas causas, leia-se: cortar o mal pela raíz, seja um bom começo, mas não depende só da minha pobre vontade solitária ([…] eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade. Paulo Freire). Sem a conscientização da sociedade para a importância da educação não é possível cobrar ações pública, e sem isso, nada se faz. Uma luta social deve partir da vontade da sociedade e não de fora dela para que seja real e séria. É um ciclo vicioso: sem educação não há conscientização, e sem conscientização não há educação, interpretando educação não só como o ensino formal, escolar.

Gosto de uma citação que o Nenê Altro fez em algum trecho do Manifesto Discórdia, onde diz que as pessoas lutam por seus próprios interesses e não pra que seja feita a caridade, um ponto que acho importantíssimo ressaltar. Precisamos pensar em educação e criar meios de reverter a vergonha que ela é em nosso país para o nosso bem, e é acreditando nisso que vou todos os dias para a faculdade buscando meios de mudar alguma coisa, talvez para mim mesma, dado que há muito percebi que viver para tentar agradar os outros não funciona… Vou encerrar com uma frase do Paulo Freire, mais uma vez, que é minha recomendação de leitura do post de hoje e que mesmo tendo sido escrita há algumas décadas, permanece atual: A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tam pouco a sociedade muda.