Algumas reflexões feministas

Antes de sequer pensar na palavra “feminista” como definição, eu já era bem feminista. Imaginava que, se aos 16 anos eu era madura o bastante para ter responsabilidades e rotinas de um adulto, como sair cedo, cumprir obrigações e voltar pra casa no horário de pico, poderia ser considerada madura o bastante também para ser dona de mim mesma, decidir sobre o meu corpo, sobre minhas escolhas afetivas e para ter o controle sobre minha sexualidade. E foi então que decidi encontrar um ginecologista que pudesse me deixar mais segura em relação a essas questões e descobri que muitas adolescentes não têm esse direito: ao invés de médicos, muitas vezes encontram fiscais de seus corpos. Foi o que aconteceu comigo.

Eu estava cansada de sofrer com cólicas infernais, com as alterações de humor que eu já não suportava, queria saber que tipo de distúrbio me afetava, se eu tinha algum problema, aprender a lidar com meu corpo em mudanças e, quem sabe, resolver as inseguranças que eu tinha por não saber como lidar com meu próprio corpo. Queria começar a tomar pílula anticoncepcional, já havia lido na internet sobre interromper o ciclo menstrual, mas todas as minhas expectativas foram frustradas quando entrei no consultório de uma médica de postura absolutamente machista e tradicionalista. Era a ginecologista que minha mãe frequentava há anos.

No consultório minha mãe teve que me autorizar a entrar sozinha na sala da médica. Eu tinha passado a noite anterior sem dormir, inclusive, listando tudo o que eu queria saber. E lá fui eu, confiante, apesar de bastante envergonhada, pensando que resolveria uma parte da minha vida naquele dia. Contei para a médica sobre as cólicas,o ciclo irregular, perguntei sobre a possibilidade de pílula anticoncepcional, porém tudo para a ~doutora~ não passava de frescura. Como eu, adolescente, poderia perder o tempo dela com minhas dúvidas idiotas? Eu nem dona do meu próprio corpo era. Tudo era normal: as cólicas e o ciclo irregular eram parte do fardo que eu deveria enfrentar até a menopausa porque Eva mordeu uma merda de uma maça. Eu deveria me conformar. Sexo na minha idade, então? Nem pensar. Minha sexualidade foi absolutamente tratada como tabu, como se sequer existisse.

Sozinha numa sala impessoal, com uma estranha tomando propriedade do meu corpo e me julgando, me senti coagida a mentir sobre diversos pontos e fui embora frustrada, me achando uma hipocondríaca e nunca mais voltei a médico nenhum até bastante tempo depois. Quando voltei, foi para descobrir que aquela médica me deu diagnósticos completamente equivocados.

O corpo feminino é extremamente complexo, todas as semanas passa por mudanças e isso acaba refletindo diretamente em nossa auto-estima e na maneira como lidamos com a nossa sexualidade. Naquela ocasião, fui embora me sentindo extremamente culpada e amedrontada. É assustador não saber o que se passa consigo e achar que você pode ser punida por exercer sua sexualidade. E pior não poder falar sobre virgindade, sobre sexo, com o profissional que deveria nos proporcionar segurança e informação a respeito desses tópicos, afinal, eles fazem parte do leque de assuntos mais relevantes durante a adolescência.

Por isso, hoje eu busco ao máximo lidar com profissionais que não me vejam como uma incubadora e não objetifiquem meu corpo e minha sexualidade. Infelizmente, a maioria dos profissionais da ginecologia não se diferenciam dessa doutora e de tantos médicos que frequentei e acabei sentindo que perdi meu tempo. E sei que, embora preservativos sejam distribuídos em qualquer UBS, a amplitude dos métodos contraceptivos é negada a muitas adolescentes simplesmente porque há péssimos profissionais responsáveis por lidar com a saúde íntima feminina. Há despreparo da família, dos médicos, das escolas e tudo contribui para que sejamos reféns de uma estrutura machista e arcaica. 

Se esses médicos tratam adolescentes como se elas não tivessem direito à sexualidade ou como se sua sexualidade fosse um erro porque precisam ir em busca de métodos contraceptivos ainda muito jovens ou porque engravidam, obviamente não serão bons profissionais para lidar com a saúde das mulheres adultas. Nas salas de parto ainda insistem em fazer episiotomia sem que a mulher ao menos possa consentir ou ser avisada e nos consultórios médicos acabamos entupidas de remédios sem saber as causas das mazelas que afligem nosso corpo. 

Somos conduzidas a procedimentos traumáticos, a cesarianas desnecessárias, a remédios que vão tratar sintomas e não causas, sem que nos seja oferecida qualquer alternativa. E, o mais preocupante, é que para que tenhamos acesso a profissionais qualificados prontamente, temos que desembolsar. E nunca sai barato o que deveria ser gratuito e de acesso a todas nós.

Filme da semana: E se eu ficar (2014)

Estou me desafiando a assistir um filme por dia até o final do próximo ano. Será que consigo? Se serão 365 filmes assistidos, não garanto, mas, como acredito que conhecimento não compartilhado não serve para coisa alguma, toda semana irei dividir com vocês aqueles de que mais gostei. Há tempos não escrevo sobre filmes e livros favoritos. Isso deve mudar.

Por recomendação de um amigo assisti a um filme que você não deve assistir sem uma caixa de lenços ao lado. Você vai chorar! Chama-se Se eu ficar. Lançado em 2014, o filme foi baseado no livro de mesmo nome, escrito pelo autor Gayle Forman e terá uma continuação, pois o segundo livro da série, Para onde ela foi, já foi lançado.

Fazem parte da trama a atriz Chloë Grace Moretz como Mia Hall e Jamie Blackley como Adam Wilde. Na história, Mia é uma jovem de 17 anos que toca violoncelo, enquanto Adam é o vocalista de uma banda que está se destacando e começando a fazer sucesso em Portland. Os dois se apaixonam, mas tudo muda quando Mia sofre um acidente trágico que mata toda sua família. Então, em coma, ela busca reviver os momentos de sua vida enquanto decide se irá acordar ou não.

Comecei a ver o filme pensando que seria mais um blá blá blá de adolescente, mas acabou me surpreendendo. Primeiro porque os atores são mais profundos do que parecem, depois porque o filme não segue uma linha cronológica firme, o que causa muita tensão e expectativas: ficamos ansiosos para saber o que acontece com Mia após o acidente e somos impedidos pelos flashbacks. A trilha sonora também é sensacional e um dos momentos mais incríveis é a cena em que os personagens fazem uma versão de Today, do Smashing Pumpkins.

Fiquei inclusive com vontade de ler os livros, apesar de ter lido críticas dizendo que o filme acaba sendo melhor por causa da trilha sonora. Mas quero saber o que irá suceder na segunda parte da história. O final me deixou muito ansiosa. Nesse fim de semana também revi “Amizade Colorida” e “Borat”, dei muitas risadas e o filme faz uma crítica espetacular!

Suicídio assistido

Durante essa semana muita polêmica foi levantada com a notícia de uma norte-americana de 29 anos que cometeu um suicídio assistido após descobrir um câncer no cérebro que a tornou uma doente terminal. O procedimento é liberado em alguns poucos estados americanos e foi a escolha da moça. Após colocar em prática sua lista de “Coisas para fazer antes de morrer”, ela morreu confortavelmente em sua cama, ouvindo suas músicas prediletas e ao lado das pessoas que mais estimava.

Por outro lado, há pessoas que não estão doentes, mas morrem lentamente em vida. Não arriscam, não quebram regras, não contradizem a si mesmos sem sofrer por dias com a culpa. Não viajam sem planejar por meses, não reciclam as ideias, se acuam diante do novo. Outras passam por cima da ética, da justiça e de si mesmas para não bater de frente, para manter a ordem e a conveniência. Gente que teme suas próprias emoções e é escrava de convicções baseadas em uma porção de regras inventadas. Gente que não subverte, não petisca, não muda nunca. Gente que se enfadonha de si mesma.

                          As melhores lembranças surgem das piores ideias.

Se regras e o controle são necessários, a loucura também o é e já sabiam disso os religiosos cristãos na Idade Média. A Festa dos Loucos, evento que fazia parte do calendário cristão, reunia três dias de loucura, vinho, e tudo mais “para que a insensatez, que é nossa segunda natureza, e inerente ao homem, pudesse se dissipar livremente pelo menos uma vez ao ano. Barris de vinho de tempos em tempos estouram se não os abrimos para entrar um pouco de ar.”. Sabia-se que a loucura era necessária para manter a ordem quando a ordem fosse essencial.

E voltando ao tópico do post, me soa paradoxal esses tantos julgamentos feitos a respeito da decisão tomada pela norte-americana de encerrar sua própria história, de ser condutora de sua própria jornada em rumo ao seu próprio destino ao invés de aguardar sua hora escrita nas estrelas. O suicídio em doses homeopáticas de apatia e conformismo diante da vida e de nós mesmos me soa ainda mais grave. Não estamos doentes, afinal.

Obrigada, patriarcado, por me fazer um pedaço de carne fritando a 37,8 graus!

São Paulo. Sexta-feira. 37,8 graus. Acordo cedo, brindando ao fim de mais uma semana e escolho um vestido laranja, com desenhos da Frida Kahlo de estampa. Visto, tomo café da manhã, escolho os sapatos correndo e enfrento mais um dia de suor no transporte público entulhado dessa cidade, rumo ao trabalho. No rosto, apenas um óculos de sol e uma maquiagem leve pra não derreter com o calor. Assim que entro no ônibus noto olhares que me desagradam. Desço do ônibus e preciso andar cerca de 300 m até o prédio onde trabalho, em plena Anhaia Mello. Na calçada, sou distração para os motoristas estacionados no congestionamento. Ando o mais rápido que posso. Na volta para casa, a mesma coisa. Entro no ônibus e tenho que ficar me esquivando dos olhares de um sujeito que dava um jeito de me incomodar mesmo eu estando de costas para ele e com fones de ouvido. A bolsa transversal cobrindo a bunda pra não ser tão encoxada.

Esse é um relato meu, falando sobre hoje, dia em que escolhi usar um vestido de tecido leve, depois de ter me arrependido de sair de calça e morrer de calor a semana inteira para não me estressar com esses olhares constrangedores, mas poderia ser uma história vivenciada por qualquer uma de nós. Como prova disso, bastou abrir o twitter para ler o seguinte relato:

Assedio 2 Assedio

Por diversas vezes me sinto repetitiva, chata, porém nem para todo mundo é óbvio que mulher também sente calor. E que se eu saio debaixo de um sol de 37,8 graus usando vestido é porque quero trabalhar mais confortável e não chegar ao trabalho com queda de pressão e transpirando as 8 da manhã. Pra muitos não é obvio que o fato de eu estar de vestido e levemente maquiada, usando um batom, não significa que quero chamar a atenção de algum homem.

E diante de situações como essas, tudo o que sinto é raiva, muita raiva mesmo e a sensação de impotência. O que fazer? Xingar o imbecil que te chama de gostosa na frente da portaria do seu trabalho e mostrar o dedo do meio, pra ouvir risadinhas dele em troca e ainda ficar parecendo uma maluca? Ou não fazer nada e ficar achando que dá brecha para o babaca acreditar que está te elogiando? E ainda se conformar com machista dizendo que se tomei cantada é culpa minha, que eu devia usar calça – ou quem sabe uma burca – para não sofrer esse tipo de violência? Passar calor e ainda me sentir feliz por culpabilizada ao sofrer assédio?

Assédio não é elogio, não é flerte. Assediar com olhares constrangedores, tirar foto por baixo da saia, chamar de gostosa na rua reduz a mulher a um mero ser sexual, com uma função apenas: servir de enfeite. Objeto que usa um vestido, que passa um batom para satisfazer o prazer masculino. Não devemos nos cobrir ou inventar ar condicionado acoplado à roupa, e aceitar ficar espremidas dentro de um vagão rosa para deixar de sofrer esse tipo de agressão. É preciso educar e repetir quantas vezes for necessário que a culpa por existir essa porção de abusadores nos transportes públicos, desde os que olham e dão risinhos, aos que violam de fato a nossa integridade, não é nossa culpa. É culpa do desrespeito e da cultura do estupro.

Minha sudorese não tem a ver com você, machistinha de merda! Meu calor não existe pra ser seu fetiche doente!

A (não) sexualidade da mulher

Sou feminista porque, dentre outros motivos, a vida inteira fui e vi mulheres sendo tratadas como seres sem sexualidade. Parece que foi ontem que eu, em meus quatorze ou quinze anos, frequentava a escola e me sentia excluída das aulas de biologia destinadas à uma ~tentativa~ de orientação sexual. Nessas aulas nunca  ouvi temas relacionados ao orgasmo feminino, à masturbação feminina ou nada que tivesse relação com a libido que as garotas presenciam na adolescência tanto quanto os garotos. O clima era tenso e a sensação era de que aprendíamos minimamente sobre sexo para temer sexo. Os garotos não. Eles podiam falar de bronha, era feita vista grossa quando eles tomavam viagra e ficavam exibindo seus membros sob a calça de tactel do uniforme escolar e levavam escondidas suas revistinhas pornográficas. Nunca ouvimos palestras sobre consentimento, mas nós, meninas, sempre ouvíamos instruções sobre o quão perigoso era andar desacompanhada, sobre o quão preocupante era nossa relação com álcool e todo aquele blá blá blá sobre culpabilização da vítima mulher que todo ser do sexo feminino conhece. Entre minhas amigas, a maioria de criação machista, um mero absorvente interno era tabu. Temia-se que um O.B. fizesse o hímen se romper, como se este, oras, fosse patrimônio do homem que “tiraria nossas virgindades”, afinal, a sexualidade feminina para poder se afirmar, precisa ser descoberta através de um homem. Ser lésbica, jamais. Siririca, nem pensar.

Ontem, durante meu momento de procrastinação, resolvi dar uma pesquisada nos temas que circulam sobre “Saúde Feminina” no Yahoo Respostas e acabei horrorizada com a quantidade de meninas sem qualquer orientação sobre temas que deveriam ser banais. Garotas de 13, 14, 18 anos assustadas com probleminhas femininos que facilmente seriam solucionados por uma visita de 15 minutos a um ginecologista e uma receita de pomada inofensiva e indolor. Ou que, às vezes, nem são problemas, são apenas nosso corpo. Deixam de ir ao médico por medo, vergonha, culpa, por temer represálias da mãe, por falta de autonomia sobre seus próprios corpos. São essas meninas que engravidam cedo por falta de orientação e prevenção adequada, ainda que tenham acesso à internet. Garotas que, como eu e muitas amigas, saíram horrorizadas da primeira visita ao ginecologista por termos nos sentido absolutamente constrangidas a responder perguntas quase inquisitórias como: você já fez sexo? usou preservativo?, nos fazendo sentir que transar fosse algo muito errado, como se valesse mais a nossa idade do que nossa maturidade para iniciar a vida sexual. Ignora-se a sexualidade feminina para evitar ter que lidar com ela. Se os médicos, que deveriam estar preparados para lidar com o quesito educação não estão, quem então estará?

Esses são apenas alguns exemplos do quanto à mulher é negado o direito de acesso ao próprio corpo, à sua autonomia e sexualidade. Acontece a negação desses direitos a cada vez que vamos ao médico por uma simples dor de garganta, pegamos a receita de um antibiótico, e o médico nem sequer nos informa que pode haver interação com a pílula anti-concepcional, porque nossa sexualidade é invisível e problema nosso se ocorrer uma gravidez indesejada: “na hora de dar foi bom, não? Se tivesse fechado as pernas!”. Acontece toda vez que abrimos uma revista destinada ao público feminino e fala-se tudo sobre sexo menos o primordial: que é impossível aproveitar o sexo sem antes aproveitar a si mesma e sempre que vemos um pornô e foi desenvolvido para o público masculino. Brochamos. Ocorre sempre que mulheres que não se adaptam à anti-concepcionais hormonais procuram ajuda médica para encontrar um outro método eficaz e não o conseguem porque os valores são inacessíveis e o Estado não os provê. A mulher não tem sexualidade para a indústria pornográfica e nem para o Estado.

Precisamos romper essa redoma de silêncio. Dialogar com as amigas, fazer verdadeiras excursões às Sex Shop espalhadas por aí sem medo de sermos felizes, descobrir a literatura erótica esquecida nas estantes das livrarias É necessário cessar a invisibilidade que se inicia no momento que temos o nosso lado mais genuíno apagado por uma cultura machista. Se, por um lado, somos vítimas desse tipo de construção, por outro, podemos e devemos utilizá-la a nosso favor como um meio de empoderamento da mulher e do ~universo feminino~. Escrevi esse texto por mais Oficinas de Siririca acontecendo por aí e pra que, em um futuro não tão distante, nenhuma mulher sofra slut-shaming por usar um O.B. ou tenha que se ocupar com os fiscais de sua (não) sexualidade.

 

 

 

Assisto e recomendo: O Negócio – Série Nacional no HBO

Aproveitando a noite de sábado, passei aqui para fazer algo que há séculos não fazia: recomendar uma série nacional incrível chamada O Negócio. Criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, a série estreou em agosto de 2013 e agora está em sua 2ª temporada, causando muita polêmica e recheada de cenas quentes.

A história conta sobre três mulheres, Karin, Luna e Magali (Rafaela Mandelli, Juliana Schalch, Michelle Batista), que buscam dar uma guinada em sua profissão. Acontece que as três são garotas de programa e, em meio ao caos aéreo de São Paulo, dão início a uma carreira de muito sucesso.

O que me chama a atenção na série é ver a prostituição sendo tratada por um ponto de vista ao qual não estamos acostumados: as profissionais são mulheres seguras, donas de si mesmas, que não adentraram o mundo da prostituição devido a qualquer tipo de opressão. Elas querem dinheiro, querem independência, e a prostituição nada mais é do que sua forma de empoderamento.

No mais, a produção é muito bem feita, provando que o Brasil é capaz de criar entretenimento genuíno, de qualidade e encontrar um público assíduo e fiel.

Metáforas…

Esquecer um amor que te machuca, se livrar de um sentimento que te corrói é como uma cirurgia. No início a ideia assusta e, depois, a cicatriz pode doer por um tempo. Mas, provavelmente, abrir uma ferida e arrancar de dentro o que há de errado é o que irá te salvar e garantir que os próximos anos possam ser vividos.

Crônicas de um amor clichê

Ainda me lembro daquela tarde de café no Starbucks e a nossa foto tirada no espelho. Não bastasse todo o clichê de filme americano, eu também achava que estava diante do único ser humano que poderia compreender meus clichês existencialistas. Mulher-independente-segura-cheia-de-si-e-de-aço-com-vontades-próprias-mas-que-também-quer-um-amor-porra. Tão simples, não? Não. Confirmado à contra-gosto o clichê de que homem teme sim mulher que sabe de si e impõe suas vontades e que mulher, claro, adora fazer cena pra ver se no desfecho se sente um pouco mais amada. Outro clichê que confirmo com vontade é que mulher sempre enfia o pé na jaca com menos cuidado. Se doa, imagina, faz planos enquanto arruma o formato da sobrancelha sozinha diante do espelho e, se não tomar cuidado, se frustra.

Nunca soube conduzir muito bem o raciocínio, mas o que me parece, é que os poetas e seus clichês estão todos certos. “Amor é um cão dos diabos”, ou seja lá o que você escolhe dizer se não for chegado a Bukowski. Prefiro vodka. Amor é uma merda. Amor enche o saco. Dá dor de estômago. Tira o sono. Xico Sá já disse: “A vida é breve, a D.R. é longa.”.

Se a gente ama demais, acaba não amando de um jeito que seja eficaz: esquece que amar também é dar espaço pro outro não sufocar, e esquece de se amar também. Se ama de menos… Calma, existe isso de amar de menos? Existe tanto pra se dosar. Aprender a fazer concessões. Dialogar. A cabeça de uma mulher sempre faz parte do quebra-cabeças masculino.

No final das contas, meus caros, mulher nenhuma é santa mesmo. Dentro da nossa cabeça sempre mora um diabinho que vos insiste em manipular com as mais descaradas chantagens emocionais e atuações teatrais. Na verdade, ela não te odeia. Ela te ama, mas o fez acreditar que está transando com o cara mais maravilhoso do planeta porque você não deu conta do recado. Mas deu sim. E ela não te tira mais da cabeça. Você só deu uma mancada, e ela quer que você reconheça sua parcela de culpa. E ela gosta de saber que ganha tão bem quanto você, ou que rala igual, agir como quem não precisa de ninguém, mas ela precisa. E aposte que justamente por isso, por ela ser dona de si, é que ela te deixa ser cúmplice nessa propriedade privada com tanta honestidade. Uma mulher sempre vai ser um pouco de ajuda ou bagunça no seu caos.

P.S.: Me desculpem por mais um texto hétero normativo demais.

 

 

Namorado de Aluguel

Recentemente me chamou a atenção nas atualizações de uma colega em uma rede social um compartilhamento de um tal de “namorado de aluguel”. Um pouco desacreditada, sem saber muito o que esperar do assunto, abri o link para ver do que se tratava e lá estava: era um rapaz que vendia seu tempo livre por R$100,00/hora e se propunha a sair com mulheres para “emprestar” sua companhia. Dizia no anúncio de seu site que aceitava convites para jantares – desde que a anfitriã pagasse -, tardes assistindo comédias românticas de pijama na sala, que seria capaz de conversar sobre todo e qualquer assunto, de colocar a moça para dormir, e, cereja do bolo, topava inclusive sair nas fotos do álbum de casamento daquela amiga que convida a mulher constrangedoramente para seu casamento.

Fiquei desorientada. Primeiro porque não tratava-se da venda de sexo, prazer, algo a que já nos habituamos, e sim de um “namorado de aluguel” vendendo seu  tempo e sua atenção. Depois porque parece que finalmente estamos nos tornando vítimas das nossas próprias criações, conectados até enquanto dormimos mas criando relações humanas cada vez menos íntimas e sólidas, tanto que estamos começando a ser seduzidos pela ideia da compra e venda de carinho e atenção, algo que sempre tivemos gratuitamente e de bom grado. Após uma breve pesquisa, descobri ainda que hoje pode-se contratar namorados de mentira via Mercado Livre e especializados em causar ciúmes e despertar a inveja nas redes sociais através de sites que fazem pacotes de acordo com o número de comentários amorosos que se deseja nas redes e que vêm fazendo o maior sucesso.

Se por um lado pagar por uma boa companhia garante uma troca de experiências honesta difícil de se encontrar por aí, por outro  parece triste depois do combinado simplesmente assinar um cheque e voltar para casa com a solidão de companhia. E eu diria ainda que a solidão não é um problema, que ela é necessária e importante, que todo mundo deve aprender com ela doses de amor próprio e pilulas de auto-conhecimento e que invejável mesmo é ser bem resolvido. Dane-se se todas as amigas estão pensando em se casar no próximo ano, se todo aquele pessoal do colégio hoje está começando a ter filhos. Enquanto se fica para titia a gente planeja uma viagem, improvisa.

No mais, toda mulher com R$100,00 por hora disponíveis para gastar provavelmente prefere investir em roupas, pares de sapatos, perfumes e bolsas. Estes ainda duram mais do que uma boa companhia – paga.

Bates Motel

Acordou naquela manhã com o céu ainda nublado invadindo o quarto. Tudo era impessoal, mas, ao mesmo tempo, parecia tão familiar que ela sentia que era parte de tudo aquilo.

Quando abriu os olhos o viu ainda dormindo e reparou que as mãos dele a prendiam, de forma que se mexendo o acordaria também. Ficou o observando. Aquele homem estranho e sua barba, e seus traços que faziam uma bela combinação entre si, mas que ela não sabia se eram bonitos em si. Ela acariciou aquele rosto, passou a mão naqueles lábios, ajeitou aquele cabelo.

“Se existem duas coisas que eu não gosto posso apostar que são galãs e gente dentro da caixinha!”, pensou.

Ele não era galã e muito menos dentro da caixinha. Era humano e imperfeito, não aquele estereótipo de gente feliz e descomplicada. Era cheio das idiossincrasias que ela gostava de achar graça observando a si mesma. Ela também gostava de observar suas roupas e a forma como mesmo engomadinho ele se destacava da multidão de engomadinhos. E exercia uma espécie de fascínio sobre aquele cara estranho, de feição séria, que convencia a todos menos a ela. Adorava ele almofadinha e ele perdendo a cabeça e abrindo o coração.

Se aninhou com ele na cama e mesmo seus movimentos mais singelos o acordaram. Se abraçaram e ela gostava daquele abraço como gostava de nenhum outro lugar no mundo. Cada toque dele tocava também a alma. Não era sexo, era ópio. Lícito, mas ainda assim, ópio.

Voltaram a dormir os dois. Ela mais sã e certa do que nunca e ele… Bom, ele era ele.

 

Uma crônica sobre amores imperfeitos e reais

Às vezes parece mais simples ficar sozinho. São tantas qualificações requisitadas, tantos empecilhos postos para evitar possíveis pretendentes, que temos a impressão de que fica cada dia mais difícil de encontrar quem nos agrade e iniciar um relacionamento. O moço, ou a moça, dos nossos sonhos precisa ter um tipo de beleza que nos agrade, ser inteligente, ter um gosto parecido com o nosso, ter bom humor, mas também não pode ter humor demais. Precisa gostar de viajar, de ler livros interessantes, não ser ciumento, mas precisa ter um pouco de romantismo. Diante de uma lista tão grande de pré-requisitos, acabamos por vezes fantasiando um príncipe encantado que jamais existirá. A metade da laranja, a tampa da panela, a alma gêmea, sao todas criações do imaginário coletivo.

Por mais idealizações que façamos, vamos ter que nos conformar: nossas relações são reflexos de nós mesmos e, sendo assim, nossos amores sempre serão imperfeitos e reais.

Inevitavelmente vamos nos apaixonar por alguém que tenha manias irritantes e defeitos que aprenderemos a aceitar. E provavelmente nos apaixonaremos muitas vezes por pessoas que nunca imaginaríamos que fosse possível. E, óbvio, quebraremos a cara por diversas vezes também. Mas por quê?

De Ocidente a Oriente, no Brasil ou na Islândia, não importa a cultura ou a religião, as pessoas vivem uma incessante busca pelo amor. Alguns psicanalistas afirmam que a procura por um parceiro se da por querermos sanar o vazio existencial que adquirimos diante da separação de nossas mães no nascimento, outros afirmam que buscamos relacionamentos porque é através da convivência com outrem que descobrimos facetas de nós mesmos, que temos a chance de nos encontrar e nos redescobrir.

Além de tudo isso, temos o fator influência cultural que nos faz querer casar, ter filhos, família, casa, e alguma sensação de segurança, ainda que falsa, afinal tudo pode mudar a qualquer momento.

Seja lá qual for a vertente de pensamento correta, e ainda que a nossa busca atordoada por um amor para chamar de nosso seja fruto da soma de todas essas hipóteses e mais algumas, fato é que todos nós estamos buscando o que fazer diante da vida. E se precisamos ir até o fim, sem nem saber que fim será esse, que ao menos tenhamos alguém para dividir os sonhos, os domingos chuvosos e aproveitar a sensação de aconchego que é poder ser aquilo que se é sem precisar provar nada a quem quer que seja.

Sobre desconstruir e se lembrar direito

Defini que esse seria o Novembro do desapego. Mês de Finados, por que não também o mês de enterrar tudo aquilo que não mais acrescenta? Finalmente arrumei os armários, me desfiz de uma porção de roupas que apenas ocupavam espaço, reorganizei prateleiras, excluí pastas e arquivos do computador, joguei fora diários com confissões antigas, cartas de ex-namorados, minha coleção de esmaltes vencidos e na hora de me livrar de você, percebi que ainda te queria.

Queria com todas suas incongruências, com seus defeitos, com suas manias, seu olhar, sua risada estranha, seu cheiro, seu toque, sua pele. E me arrependi absurdamente quando limpei a lixeira do meu notebook com as nossas fotos. Passei horas me perguntando se você ainda as mantém guardadas em algum lugar e se olha para elas sorrindo. Ouvi todas as músicas animadas que aguentei, mas repousei nas tristes. Cantei declarações de amor que nunca fiz, pensando que eu podia dar um jeito de aparecer na sua porta enrolada numa toalha e te amarrar na cama, de um jeito selvagem porém ainda com algum humor, pra nos transformar em paixão, em loucura, suor e suspiros.

E nós fomos isso, não fomos? Ainda que tenhamos sido apenas uma pequena epifania ou uma grande inconsequência? Porque você não me olha nos olhos e diz que signifiquei pra você? Ou me olha nos olhos pra simplesmente dizer que eu sou uma maluca, que idealizo demais, que levo tudo muito a sério, que você não suporta minhas esquisitices, que odeia uma porção de coisas em mim e que te fiz mais mal do que qualquer bem?

Fiquei pensando no seu silêncio incômodo, na chance que você me deu de criar mil hipóteses a ponto de eu nem saber mais o que é mentira ou verdade entre nós. Repeti os conselhos clichês que sempre ouvi dos amigos pra colocar de uma vez por todas na cabeça que você nunca se importou de fato. Que me faltava reviver nossos momentos com outros olhos, enxergar os fatos como foram e não como eu gostaria que tivessem sido. Que tudo nunca passou de um teatro ensaiado, de uma diversão sádica pra satisfazer a sua síndrome de Napoleão, sua necessidade por massagem no ego.

E esse texto é sobre não gostar de quem se gosta. É sobre achar que nunca vou me acostumar a nunca poder confiar. É sobre traições que vão além da carne. É sobre sentir-me tola por ainda acreditar no poder da sinceridade, das coisas que fazemos por paixão e verdade, por ainda falar em honra e caráter. É sobre finais e recomeços, sobre nunca aceitar menos do que se merece. “Abrir os olhos era o que bastava. O coração mente e a cabeça usa truques conosco, mas os olhos veem a verdade.”.

Um brinde aos sincericídas

Luiz Fernando Guimarães interpretou para a televisão o “Super Sincero”.  Na série, o personagem faz rir dizendo o que todos nós pensamos, porém não temos coragem de dizer, sendo, assim, taxado de grosso. “Se você mente, então é chamado de mentiroso. Agora se você é sincero e fala a verdade, dizem que você é grosso”, afirma. O personagem é aquilo que eu costumo chamar de “sincericída”.

Há tempos penso no limite para a sinceridade, sempre fico com o meio termo. Obviamente existem as mentirinhas do bem, aquelas que usamos para não causar climas inconvenientes, e que não fazem nenhum grande mal a ninguém. Mentir que está tudo bem, quando você não quer falar por que motivo tudo anda mal. Dar um sorriso ao chefe para não atirá-lo escadaria abaixo, e manter o emprego do qual você necessita. Se calar no calor de uma briga e não falar tudo o que vem à cabeça para evitar o arrependimento depois. Viver sem essas pequenas fugas é inevitável, mas o tema de hoje nesse blog é o papo furado.

Imaginem o mundo se as pessoas dessem menos voltas para chegarem aonde querem. Talvez você tomasse um susto, claro, com alguém te dando uma má notícia sem se cercar de alguns eufemismos, mas talvez você agradecesse por aquele aprendiz de cafajeste não te iludir pra te levar para a cama. Talvez o tal do cara também fosse chamado de pervertido por algumas, mas aposto que economizando o tempo de ludibriar moças para conseguir algo mais, o resultado seria mais sexo em menos tempo. E a melhor parte? Você ter a chance de evitar se apaixonar pela ideia de um sujeito maravilhoso que vai deixar de existir após a segunda manhã de sexo, e ele ainda reduz as chances de ser chamado de canalha por alguma desavisada.

Um pouco mais de sinceridade talvez te trouxesse menos amigos, mas com toda certeza te livraria daquele colega chato que adora desperdiçar seu tempo contando vantagens e falando de assuntos que pouco te interessam. O fato é que ninguém merece papo furado. Papo furado do namorado, do amante, do ficante, do amigo, do político, do chefe, do advogado, do réu, da consciência.

A sinceridade não é apenas uma relação entre nós e os outros. É, primordialmente, uma relação entre nós e nós mesmos. Sinceridade é agirmos com a nossa alma, ainda que isso nos leve a agir de outro modo que não aquele que esperam de nós. Ser sincero consigo é eliminar pesos, é se afastar de pessoas e atitudes que não nos levam além, é deixar de acreditar nas mentiras que contamos a nós mesmos.

Um brinde aos sincericídas! A praticidade de um sincero pode te assustar, mas pelo menos te livra do blá blá blá.

Sobre acreditar em Deus e acordar sem olheiras

Se eu acreditasse em Deus, todas as noites antes de dormir eu pediria: “Senhor, me livre de toda cagação de regra! Amém!” e então adormeceria o sono dos justos. Mas, como eu não acredito, antes de dormir tento pensar em pelo menos meia dúzia de coisas impossíveis se tornando realidade.

Imaginem, senhores, que agradável seria o mundo se as pessoas utilizassem o bom senso. Que incrível seria se desejassem “bom dia”, “boa noite”, “obrigado”, se dissessem “por gentileza”, “com licença” e pedissem desculpas. Imaginem que paz teriam nossos narizes se tomassem banho antes de dividir os espaços públicos, não exagerassem nos perfumes, se cada um cuidasse do seu próprio hálito. Imaginem como viveríamos menos estressados se todos tratassem bem o telemarketing, se o carro da frente desse seta, se os fones de ouvido fossem regra e não exceção nos ônibus, se não invadissem o espaço e a privacidade alheios, se não necessitássemos de tanta urgência.

Imaginem quantas conversas agradáveis e edificantes teríamos se todos assistem menos televisão, lessem menos Veja e comprassem mais livros. Imaginem todos preocupados com suas vidas e, por isso, julgando menos, se respeitando mais, não se matando por tudo ou nada.

Imaginem que bacana poder sair na rua à qualquer hora do dia ou da noite sem temer um assalto. Imaginem mulheres podendo usar roupas curtas no verão sem receber cantadas baixas, buzinadas de carros, andando sozinhas à noite sem temer que qualquer olhar de um estranho acabe em um estupro.

Imaginem podermos fazer nossas escolhas sem ter que ouvir a opinião do Papa ou do Silas Malafaia. Imaginem a comida gostosa na festa de casamento daquele casal gay que há anos planeja juntar as escovas de dentes e assinar os papeis. Os transexuais sendo tratados como gente, sendo chamados por seu nome social. Imaginem gordos e magros, altos e baixos, bonitos e feios sendo tratados com o mesmo valor, dignidade e respeito. Imaginem os negros e os pobres não sendo criminalizados e mortos por suas origens. A periferia descansando ao menos uma noite em paz.

Imaginem os sistemas operacionais funcionando. As filas andando. O trânsito fluindo. A nossa paciência sendo economizada.

Pois é, senhores. Eu dormiria mais rápido se acreditasse em Deus.

Destinatário e remetente

Um dos meus maiores desejos sempre foi ter o poder de transformar em sentimentos bons todas as mágoas e dores dentro de mim. Eu sempre quis desenvol ver meu desapego, não desperdiçar minhas energias cultivando raiva e desamores. Eu sempre quis confiar no destino, confiar no tempo, nas linhas tortas por onde caminho. Secretamente sempre acreditei que pessoas entram e saem de nossas vidas por algum motivo. Mística.

Eu sempre quis acreditar que o que tiver que ser, será. Que talvez não seja agora e nem nunca mais. Mas que talvez seja amanhã ou depois, numa esquina, num esbarrão, seus papéis caindo, eu me desculpando, nossos olhares se cruzando, a conversa surgindo e o tempo se arrastando até que um de nós tenha que partir e a gente tenha vontade de reviver o que deixamos para trás. Utópica. Romântica. Sonhadora.

Pessoas passam por nós e nos deixam marcas, fazem trocas, deixam manias, lições, reflexões, saudades, cheiros, memórias. Depois se vão, mudam a escala de importância que ocupam em nossos dias, saem do foco de nossas prioridades e nos deixam alguma sensação de perda. O tempo encarrega-se de gerar o balanço do que foi bom ou ruim, de reorganizar os espaços, de preencher os silêncios, de resgatar os sentidos.

É o amor buscando se livrar do ódio para virar amizade ou transformar-se em indiferença.  É a amizade tentando se livrar do amor pra voltar a ser somente amizade. É o rancor sendo obrigado pelo tempo a se dissolver nas alegrias. É a amizade tirando o espaço da mágoa para crescer mais forte. É o tempo separando o joio do trigo, nos mostrando os reais anseios, subtraindo as expectativas e colocando no lugar as verdades sentidas. O vento apagando e reacendo o que for para ficar.

“Medo que dá medo do medo que dá…”

Renato Russo colocou em palavras uma realidade do meu cotidiano: “Todos os dias antes de dormir, paro e penso como foi o dia.”. É nesse momento que penso nas minhas tantas incertezas, em minhas certezas tão mutáveis e pego no sono tentando responder as retóricas em minha cabeça. São tantas contradições e paradoxos, tantos medos e tantos atos de coragem, tantas cobranças e tanto descompromisso, que me faltam estruturas para organizar tudo em pensamentos coerentes. A coerência me foge o tempo inteiro.

Eu tentei ser coerente com as minhas escolhas, ser coerente nos meus amores, com a minha escrita, mas descobri que meu maior compromisso é com a vida. É ela que eu quero valorizar, é sobre ela que não quero ter a sensação de que deixei para trás. Eu posso carregar o peso de saber que fui incoerente e contraditória, mas não o peso de que fiz da vida algo que não gostaria. Eu aguentaria a culpa por magoar qualquer pessoa, menos o fracasso declarado por mim mesma me dominando a cabeça. Eu aguentaria me contradizer dia após dia em todas as crônicas e pensamentos que publiquei, mas não o peso de permanecer presa a uma ideia que não sou eu.

Vivo com essa necessidade constante de saber cada dia mais quem eu sou e o sentido de estar presa nesse universo, com a jocosidade de ser alguém entre outras bilhões de pessoas. Vivo achando que devo fazer algo de muito útil, de muito extraordinário, de muito inovador. Vivo pensando que talvez eu precise de respostas para as perguntas que ninguém faz, precise enxergar por ângulos que ninguém olha.

Afinal, “será que não temos tempo a perder” ou “temos todo o tempo do mundo”?, qual é o limite que separa a nossa coragem da covardia?.

E sei é que preciso aproveitar melhor o meu tempo, é que minha vida precisa parar de existir apenas depois que saio do trabalho e cumpro minhas obrigações. Minha vida deve começar no instante em que acordo e não ser vã no momento em que desligo. E sei que a coragem de viver minhas escolhas e colocar em prática as imagens que circulam em minha cabeça, não significam a ausência do medo. A ausência de medo é burrice. Negar o medo é negar a existência humana. Coragem talvez signifique que existem vontades, sentimentos, lugares a se conhecer, planos para concretizar, que são mais grandiosos que nossa gana por controle. Coragem é desapegar, ainda que doa. Coragem é se entregar, mesmo que sofra.  Coragem é saber que algo é maior que o nosso medo.

* Título faz parte de Medo, música de Lenine e Julieta Venegas.

Sobre adequar-se…

Ser mulher não é tarefa fácil. Ser mulher e não fazer parte do padrão branca, magra, alta, bonita e gostosa, é mais difícil ainda. Fica impossível não sentir inveja dos homens por seu universo de preocupações e variações hormonais ser muito menos complexo do que o feminino. Fica ainda mais difícil de não sentir inveja dos homens por vê-los crescendo livremente aprendendo a se impor como indivíduos enquanto nós, mulheres, crescemos aprendendo a nos castrar, nos adequar, nos comportar. Enquanto eles se sujam, aprendemos como devemos nos sentar para não mostrar a calcinha. Enquanto eles comentam sobre a bunda das garotas ou sobre seus recordes de pegação, estamos preocupadas em não termos fama de galinha ou determinadas a nos adequar ao gosto deles. “Não pode ser muito alta e nem muito baixa. Nem gorda e nem magra demais. Tem que ter peito e ter bunda. Cabelo com cachos, só se não for ruim. Se beijou vários meninos da escola ou não se encaixa nas alternativas anteriores, não serve pra namorar, só serve pra ficar.”. E nessa ânsia pueril de sermos aceitas é que entramos em dietas malucas, choramos na frente do espelho por termos celulite, estrias, peito de menos, gordura demais, a bunda que não está empinada, o rosto que está com espinhas, o cabelo que não fica no lugar. Nunca parecemos boas o suficiente, adequadas o suficiente, ideais o bastante para sermos desejadas, amadas e queridas quanto as garotas photoshopadas nas capas de revistas e nos papéis principais.

Faz muito tempo que tento escrever esse texto, mas nunca consigo por motivos de ~~ não quero soar como a feminista mal amada e cheia das neuras ~~. Mas a questão é que, mesmo com toda a consciência que adquiri com horas de leituras e discussões sobre as opressões que sofrem as mulheres perseguindo um padrão de beleza inalcançável, não consigo me livrar dessa pulga atrás da minha orelha querendo me fazer acreditar que devo me adequar, que não sou boa o suficiente, que nunca conseguirei ser feliz de verdade enquanto eu não for linda e incrível como uma ~~mulher ideal~~deve ser. Nunca consigo me privar de pensar que eu me sentiria muito mais feliz se tivesse o quadril um pouco mais largo e gastasse 15 mil pilas colocando um implante discreto de silicone nos peitos, mesmo que fosse obrigada que enfrentar meu medo absurdo de hospitais, agulhas, bisturis e o risco real que uma cirurgia desse nível possui. Ainda que eu odeie esses padrões absurdos, tente arrancar essas ideias fixas da minha cabeça e acredite veementemente que tudo isso não passa de um desperdício de tempo, dinheiro e sanidade, não consigo me livrar. É mais forte do que eu.

E é triste que a nossa felicidade seja rifada por essas preocupações. É triste a gente passar metade de uma vida desaprendendo tudo o que nos ensinaram desde as barrigas de nossas mães e soframos nos sentindo ridículas, ainda que sejamos incríveis de fato, por não fazermos o tipo desse ou daquele rapaz. Requer muito trabalho não sucumbir às pressões que nos cercam de todos os lados e aprendermos que, ao invés de nos adequar, devemos valorizar quem nos ama e admira por quem somos, independente de como somos. Me parece, no momento, a luta de uma vida inteira. E a gente passa uma vida inteira aprendendo a se gostar enquanto poderia estar aprendendo qualquer outra coisa, não fosse a necessidade capitalista de senhores que buscam lucrar abalando nossa auto estima.

 

A criança que você foi se orgulharia do adulto que você é hoje?

Eu nunca entendia quando me diziam para não ter a pressa de crescer pois um dia eu sentiria falta dos meus tempos de criança. E pois é, agora eu entendo. A vida perde totalmente a graça depois que a gente entende que o Papai Noel é aquele tio gordo e fanfarrão que coloca uma fantasia na noite de Natal para enganar você e seus primos. Quando a gente descobre isso e deixa de esperar o Papai Noel com os olhos semicerrados imaginando flagrar ele trocando a meia na janela por algum presente, a vida vai perdendo um pouco do sabor. E ano após anos nos tornamos diferentes, vamos trocando as ilusões infantis por aquilo que chamam de maturidade.

Acho que tenho um complexo de Peter Pan: morro de tédio com esse papo de ser adulto e ter que ser coerente o tempo inteiro, de obedecer as regras simplesmente por obedecer. E eu provavelmente me mataria se me visse condenada a uma vida de obrigações, abrindo mão dos meus pequenos prazeres diários, destinada a cumprir e só. Eu sou hedonista. E meu grande defeito é só fazer aquilo que eu gosto, ou, no máximo, me obrigar a fazer tarefas que não me agradam tanto, mas também não agridem muito o meu ego meio inflado. E eu que tenho esse problema de ser meio cética em Deus e nessa parafernália castradora de céu e inferno, acabo achando que o grande sentido dessa vida é aproveitarmos nosso tempo para evoluir e descobrir quem somos nós e o que estamos fazendo perdidos aqui nessa pantomima chamada humanidade.

Viver requer coragem. Requer acordar todos os dias tentando enxergar além dos nossos problemas e não nos deixarmos fechar no nosso mundinho limitado a possibilidades e soluções igualmente ruins. Às vezes imagino a vida como uma grande aventura em que a gente enfia umas roupas na mala e sai dando a cara a tapa pra ver se um dia consegue ser feliz de fato. E viver dói. Abrir mão dói. Mas a sabedoria de nos desapegarmos, de nos livrarmos daquilo que já não nos faz bem, é o que no fim das contas realmente importa.

E eu não quero ninguém me dizendo quem ou quais eu devo valorizar. A quem eu devo dirigir meu ‘bom dia’ ou meu ‘boa noite’. Nossa vida passa rápido demais pra gente ficar negando fogo, ficar negando afeto, ficar negando se doar por inteiro, endurecendo pra não ferir o orgulho. E é curta demais também pra ficar tentando ferir os outros, pra ficar desperdiçando com brigas e rancores. Tudo passa rápido demais e a gente fica se esquecendo o tempo inteiro de enxergar humanidade no outro!

– Eu não quero ser Gandhi, mas eu quero ser leve, por favor!

Também quero acreditar que o mundo é sim de boas intenções! Quero não endurecer com as pauladas. Quero ser PhD em desilusões amorosas, sem nunca desaprender a amar alguém. E se nada disso for possível, quero mais uma tarde com meus velhos amigos numa mesa de bar, um trago de um bom cigarro e cerveja bem quente para aquecer almas frias.

Afim de te acompanhar…

Uma sensação de Dejá vù a acordava. A mesma história começando a se repetir e ela tendo a consciência disso. Podia manipular os fatos, as pessoas, reverter o jogo para tornar a disputa favorável a si mesma, como não o fez à princípio? O que era real e o que não passava de imaginação? Ela estava confusa. O que era um presente vindo de lugar algum podia também ser uma arma de destruição em massa. Ela optara uma vez por ser altruísta, mesmo não sabendo a total dimensão dessa palavra, e em troca percebeu que as pessoas não se importavam com ela da mesma maneira a qual ela fazia questão de se importar. Era sempre verdadeira, mas agora podia escolher usar de sua influência e pensar apenas em si mesma.

Como maneira de supor o que poderia acontecer num futuro nem distante e nem próximo também, ela imaginava e criava hipóteses pra imaginar o que poderia ter acontecido se na primeira vez ela tivesse dado vida à víbora que residia em si, amordaçada por seus medos, inseguranças e vontade de agir de boa fé. Ela sabia que se quisesse podia ter o que sonhava. Sabia o que queria, enquanto a outra, não! Mas também tinha medo de entrar num jogo por pura gana de vencer e não por ter sentimentos de verdade, e aí jamais se perdoaria por ter agido por puro egoísmo, e não movida à paixão. Por muitas vezes ela fingia que não enxergava, mas longe de sua consciência ela admitia que eles tinham coisas em comum, e sonhos que casariam muito bem. Eles poderiam crescer juntos, viver não apenas de atração física, mas de horas infindáveis de assuntos, discussões edificantes e opiniões conjuntas. Ela questionava se ele já havia pensado essas coisas em segredo também e o motivo deles nunca terem usado o rótulo de melhores amigos, embora soubessem que compartilhavam intimidades demais.

O que separava sonhos da realidade? Por que ela tinha a impressão de que era inconsequente, enquanto ele era certinho demais? Por que vivia chegando à conclusão de que apesar de todas as diferenças, eles tinham objetivos muito comuns? Eles viviam, de formas diferentes, buscando as mesmas coisas em pessoas distintas, mas por que não um no outro?

Essas divagações porém, não cabiam. As questões que a motivavam a horas de reflexões eram existencialistas: ela sabia que qualquer decisão que tomasse, tendo consequências positivas ou negativas, seriam de sua responsabilidade. E tinha ciência também que não poderia sonhar eternamente, ou decidia-se a lutar por ele ou não. Ou dava a cara a tapa ou não. Ou vencia seus temores e descobria se ele se sentia da mesma forma, ou teria sempre um “não”! Seria um Dejá vù com gosto de volta por cima, ou amargurado com o sabor do altruísmo?

22.2.2012

*O título é um trecho de ‘Último Romance’, do Los Hermanos.

Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão…

Detesto falar de amor, ou melhor: detesto falar de amor usando clichês para resumir tudo aquilo que já se pensa sobre o assunto.

Os filmes românticos acabam sempre com os mesmos finais e, na vida real, se você não tomar cuidado, inevitavelmente vai começar a dizer pelos quatro cantos que o amor é uma merda! No final das contas, amar pode até ser uma porcaria, mas a grande merda mesmo é o amor romântico!

O amor romântico é fadado à frustração, é uma causa falida! Vivemos no século da individualidade, da solidão, mas continuamos a acreditar que somos incompletos e que precisamos encontrar nossa outra fração. Idolatramos o amor romântico e todo o resto se torna banal. Creditamos ao outro nosso tesão, nosso orgasmo, nossa insônia e até nossa alegria. Mas está tudo na nossa cabeça. Quem adivinharia? Não seria muito mais proveitoso se, ao invés de depositar nossos anseios no outro e darmos a ele o peso da nossa felicidade e bem estar, nos responsabilizássemos por nós mesmos? Porque perdemos tanto tempo com a insegurança, com o ciúme, limitando o outro a viver só para nós, como um pássaro preso na gaiola?

O amor moderno precisa se adaptar à individualidade e se voltar para o crescimento pessoal dos indivíduos que formam um casal. Precisa abandonar a ideia de posse e apostar no companheirismo, na cumplicidade e no respeito verdadeiro pelo outro se quiser fluir. Precisa abandonar a ideia de que o amor é uma espécie de mágica que automaticamente acaba com os problemas, os vazios, as melancolias. O amor romântico é uma frustração porque inexiste sem a insatisfação, o desrespeito e porque fecha as portas às novidades, à vida, tornando-se fadado ao tédio e ao comodismo.

Amores modernos e, principalmente, sadios não combinam com dependência emocional. Amores são sobre diferenciar  precisar e querer. Quero estar com alguém por vontade, não por necessidade e me sinto no direito de exigir essa reciprocidade de sentimentos. Amar é também sobre deixar o outro sentir sua falta, é sobre deixar o outro ser. A maior prova de amor é duas pessoas que poderiam estar fazendo qualquer outra coisa de suas vidas, que conseguem viver plenamente bem sozinhas, estarem juntas por vontade… Todo o resto é uma desonestidade!

Mas dói, né? Seu ego ao perceber que você não tem tanto controle assim sobre a vida de alguém?

Outro dia mesmo falei sobre me livrar dos pesos e eu não quero ser a responsável pelas frustrações de ninguém. Talvez seja por isso que tenho aprendido com a solidão a gostar mais de mim, buscado ser mais feliz sozinha e tenho conseguido me sentir inteira, completa. E eu vou te amar porque eu quero, porque eu não preciso!…

Sobre encontros…

Que sentido faz a vida? Essa jornada confusa e tão paradoxal? Nós nascemos sozinhos e morremos sós, sonhando a vida inteira em preencher os espaços com alguma dose de amor, aconchego e da vida que as horas, por vezes, nos arrancam. Vida essa que me cobra cautela e calma, quando o que eu mais quero é o imediatismo. Vida essa que se faz em dias ensolarados, em mesas de bar cheias de amigos e conversas de horas que terminam com a sensação de que deveriam durar toda uma eternidade… Banhos de chuva, amores, dores, alguns pileques pra depois rir à toa.

Vida essa cheia de pessoas com um único desejo comum: o de preencher os vazios da existência.

A vida é um parto. Parto-me.

Vida essa que me desespera, que me torna cada dia um pouco mais ou menos otimista…

Tenho tentado me livrar dos pesos, das pessoas que nada me acrescentam, dos amores vagos, dos sabores amargos e me cercar apenas de tudo o que me faz bem. Tenho tentado não fazer do ato de sair da cama um grande drama. Tenho preferido ler bons livros e dar boas risadas, a gastar minha energia me tornando mais amarga e deprimida. Meu mantra de meditação tem sido o “foda-se”. Repito o tempo inteiro.

Fodam-se os caretas e os caga-regras. Fodam-se os patrulheiros da vida alheia. Eu quero os encontros de alma, os corajosos, os que não têm medo de dar grandes passos e cair grandes quedas. Quero aqueles feito bonecas russas, que sempre guardam mais dentro de si mesmos do que transparecem aos olhares desatentos. Quero gente me que olhe nos olhos, me agarre na nuca e não tenha medo de ser invadida!

Vida essa reticente. Que não sabe como começa e só acaba quando termina.Um jocoso trocadilho…

Solidão acompanhada

Era sempre a mesma sensação, o mesmo incômodo doído no peito, aquele vazio… Era culpa da existência aquele buraco ali aberto, precisando ser preenchido, a fazendo se sentir incompleta. “Segunda opção”, “deposito de porra”, “capacho” eram algumas formas como ela às vezes referia-se à si mesma com desprezo. Como poderia ter uma auto- estima tão pequena e uma certeza tão grande de que merecia algo bom de verdade? Como podia odiar tanto suas falhas e, ao mesmo tempo, se achar muito mais incrível e até se passar por prepotente por se achar tão especial? Contradições.

Ela se distraia com os caras com quem compartilhava o tesão, aquela infíma parte do seu desejo, a ponta do iceberg. Vivia numa espécie de satisfação sexual que não sabia se lhe fazia mais bem ou mal. Gozava com alguma facilidade duas ou três vezes, e depois sentia que uma solidão a acompanhava a preenchia. Sexo é subestimado, pensava. Talvez fosse mais proveitosa uma siririca bem tocada a uma foda que lhe cansava os músculos e depois doía a alma.
Fato é que sentia que havia muito mais para dar de si do que apenas a boceta e achava tudo aquilo um desperdício de tempo, energia, sanidade. Pensava no quanto aqueles seres desnudos ao seu lado perdiam e no quanto ela mesma, em sua liberdade sexual que a taxava de biscate, retraia um pulsar incessante no âmago. Sentia sede de intensidade, de entrega, coisa que socar algumas vezes aqui e outra ali não sanava.
Levantou-se daquele cômodo impessoal de motel, colocou a calcinha jogada na ponta da cama e vestiu as roupas enquanto saía de fininho. Deixou o rapaz dormindo. Na maioria das vezes aquelas fodas filosóficas lhe pediam uma caminhada e um cigarro com gosto de câncer e cool. Culpa cristã era o caralho. O buraco era mais para dentro e sangrava.

Notas musicais: Bárbara Eugênia ♪

Recentemente me flagrei ouvindo coisas que nunca havia imaginado. Eu, que era assumidamente do rock, dos clássicos, me peguei ouvindo também os clássicos do samba, os grandes nomes da MPB, as novidades incríveis do Rap.

Então esse ano na Virada Cultural de São Paulo, com uma programação completamente distinta das edições passadas em mãos, vi com um amigo um show incrível do Criolo, que ficou ecoando na minha cabeça por semanas e acabamos por ver a Bárbara Eugênia, meio que por falta de algo melhor pra fazer (eu sendo sincera) e eu simplesmente me apaixonei, assim, à primeira vista mesmo. A voz limpa mesmo entre os cigarros, o batom vermelho e o sorriso enigmático e sedutor no canto dos lábios da cantora bastaram para que ela ocupasse as primeiras posições entre as músicas mais ouvidas no meu player em poucos dias. Vi inclusive mais um show após o primeiro, coincidentemente, o lançamento de seu segundo disco, “É o que temos”, que traz uma versão impecável do clássico “Porque brigamos?”, canção dos tempos de minha avó.

Journal de BAD é o primeiro lançamento da artista, e meu favorito.

Carioca, mas Paulista, Bárbara Eugênia canta sobre desilusões amorosas e amores, com uma pegada retrô e empolgante. Edgar Scandurra gravou as guitarras de seu disco e também o produziu. O resultado foi um daqueles discos que a gente escuta também com a alma.

Sobre Pensar e Permanecer na Zona de Conforto

Ignorância é uma bênção, sempre afirmei. Ignorância é cômodo. Incomodo é pensar, porque leva a querer tomar atitudes e, novamente, agir não é cômodo.

Pensar me dá burburinhos na alma, me indigna. Quando leio um bom livro que coloca em cheque minhas verdades inabaladas, então, sai de perto. São dores de cabeça, músicas revoltadas no talo do meu ouvido e até uma vontade incontrolável de não segurar as lágrimas de revolta que me brotam volta e meia.

Ser pensante não é confortável, já me fez inclusive abrir mão daqueles amores fáceis. Vivo naquele dilema do “é bonitinho, mas…”. Mas é machista, mas é homofóbico, mas é reacionário, mas é alienado. Nunca dá certo. Ser pensante já me fez querer saltar pela janela do ônibus nas diversas vezes em que fui obrigada a ouvir conversas quase surreais e os absurdos que as pessoas trazem em suas mentes comuns. Ser pensante é perigoso.

Por mais prazeroso que seja aprender a olhar por outros parâmetros, ser pensandte e inquieto na cabeça é perder o direito àquela ignorância gostosa que nos permite assistir à televisão sem pensar em mais nada. Ah… aquela ignorância que não me permite ir dormir pensando nas notícias que li no jornal e das mazelas do país.

E o pior sobre ser pensante, é a sensação de impotência. A sensação de ser só mais um que não sabe se é esperto ou burro por querer nadar contra a maré mesmo sabendo que quando precisar pagar as contas e dar a cara a tapa sozinho, vai sentir aquela câimbra inconveniente e se deixar levar pela correnteza.

A ignorância é a bênção pela qual rezo todos os dias antes de dormir.

A mulher e o medo

Em 1949, ano em que foi lançado o livro O Segundo Sexo, uma célebre frase transformaria sua autora, Simone de Beauvoir, em um ícone do feminismo: “Não se nasce mulher, torna-se”. Com essa frase Simone, filósofa existencialista, quebrava o estigma de que as mulheres tinham um destino biológico já formulado, tirando-as dos papéis socialmente estabelecidos para elas, que eram obrigatoriamente o casamento e a criação dos filhos, ou então, o magistério. Em sua obra, a autora se propôs a traduzir o que significava ser mulher, dizendo que “A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”.

Em termos práticos, o que Simone de Beauvoir queria dizer é que desde os primeiros passos a mulher recebe uma série de restrições e uma educação que a coloca em desigualdade para com os homens. Enquanto as mulheres crescem procurando se adequar à vaidade deles para que possam encontrar bons maridos e, assim, adquirir uma posição em seu universo extensamente mais interessante, os homens estão livres para alçar voos maiores, pois já são os donos desse espaço que elas tanto almejam. Enquanto os homens desperdiçam seu tempo livre como bem entendem, as mulheres estão ao lado das mães aprendendo as tarefas do lar, como pregar botões e seduzir seu homem pelo estômago.

Embora muitas mudanças culturais e comportamentais tenham ocorrido nas últimas seis décadas, a obra de Beauvoir ainda continua clara e atual, nos mostrando a história de opressão que a mulher sofreu e ainda sofre. E mesmo com tantos avanços, não são poucos os exemplos dessa herança paternalista e machista que carregamos. A mulher convive diariamente com medo e com a dualidade de escolher viver a sua vida e fazer suas próprias escolhas, assumindo todas as consequências cruéis que daí podem surgir, ou seguir todas as regras e ser recompensada por fazer aquilo tudo que se espera que uma mulher faça. Se assumir como ser humano dotado de imperfeições e desejos, muitas vezes, requer que a mulher dê sua cara para bater, que tenha coragem, que tenha discernimento para não sucumbir às diversas agressões que sofrem, que vão desde insultos não muito criativos à surras para que se ponham em seu devido lugar. Atire a primeira pedra a mulher que nunca foi chamada de “vadia”, “puta” ou adjetivo pior e aquela que nunca ouviu entre as amigas histórias de agressões que foram parar numa delegacia, num hospital ou numa cova. É só abrir o jornal.

Tudo isso me faz questionar porque tem sido tão difícil livrar as mulheres dessa carga cultural, porque ainda precisamos do feminismo e porque as lutas que vivenciamos parecem infinitas. Não posso culpar as mulheres pela opressão que elas sofrem, assim como seria inviável culpar os negros pelo seu passado de escravidão e os judeus por terem sido vítimas do holocausto. As mulheres, assim como outras minorias, tornaram-se, em grande parte, machistas porque acreditam nas enormes recompensas de se apropriarem do discurso do opressor, porque não têm parâmetros para conduzir sua própria liberdade.

A liberdade da mulher é uma eterna desconstruções de padrões e conceitos que foram firmados por uma vida inteira.A liberdade da mulher passa pelo questionamento do padrão de beleza que as condiciona, pelo fim da liberdade sexual somente quando convém aos interesses masculinos, pelo exercício da empatia e da sororidade com outras mulheres. E até a liberdade, há um longo e árduo caminho.

Recomendo: Veias Abertas da América Latina

Eduardo Galeano tem sido sinônimo de gênio para mim desde que comecei a ler Veias Abertas da América Latina. É um livro imprescindível, deveria ser obrigatório nas escolas e pra qualquer pessoa que deseja conhecer mais a fundo a história de seu país e continente e entender de quais maneiras a colonização invasão europeia influencia nossa cultura, nossa organização social e os problemas que nos impactam atualmente.

O livro é interessante, nos mostra uma perspectiva histórica que não aprendemos com os livros da escola. Temos uma visão muito mais clara e menos romântica ao ler as constatações do autor, que, ao contrário de autores didáticos, não maquia as opressões pelas quais passaram os nativos habitantes da América, os negros, as mulheres e as classes oprimidas pelo capitalismo em suas diversas fases. Por vezes, as palavras irônicas e duras do autor doem como um tapa na cara.

O autor nasceu em Montevidéu nos anos 40, se tornando um dos grandes jornalistas e escritores do Uruguai. Foi perseguido pela ditadura militar em seu país e foi obrigado a se exilar na Argentina e Espanha, tendo sido incluso na lista do esquadrão da morte e caçado por seus ideais socialistas e revolucionários. Escreveu em 1971 sua mais conhecida obra, Veias Abertas da América Latina e esta parece atemporal, nos fazendo entender melhor tempos de protestos, de mídias compradas e sujas, de governos que fazem desapropriações e matam moradores das favelas.

Para desvendar os mistérios da extração do ouro e das misérias.

Livro disponível em PDF.

A Primavera Brasileira tem mais festa do que fúria

Empatia significa apropriar-se do sofrimento do alheio, mas pode ser definida também como um exercício diário que a gente pratica sempre que se dispõe a sair do nosso mundo e mergulhar no universo do outro. Mas o problema com a empatia é que ela anda em falta e não é fácil cria-la diante daquilo que não é tão óbvio. Empatia é tomar para si a revolta de uma mãe que perde seu filho em um assalto, mas também é mais do que isso.

Em uma palestra muito acertada, o escritor Mia Couto já afirmava que é preciso quebrar as barreiras do medo e passar a conhecer aqueles que por décadas nos acostumamos a chamar de eles, mas o problema com a empatia é que chegamos a um grau tão alto de violência em que não conseguimos mais enxergar humanidade no outro, naquele que vive uma realidade diferente da nossa.

Vivemos em uma sociedade que todos os dias exclui, segrega e mata, estratificada de tal forma a satisfazer apenas o interesse de uma dúzia de senhores que concentram quase a totalidade dos bens produzidos pelo país e define quais devem ser as aspirações da classe média que os sustenta. Sociedade essa que criou um monstro chamado Desigualdade Social e com o qual até hoje não sabe lidar e nem faz questão de saber.

E por que estou dizendo isso? Porque é da Desigualdade Social que nasce o menor abandonado, o morador de rua, o sem-teto, o analfabeto funcional, o colarinho branco, a fome, a chacina. O monstro chamado Desigualdade Social contribui para o aumento da criminalidade, para o tráfico de drogas, contra os quais o cidadão de bem quer lutar, mas sem saber, alimenta. Porque o monstro sucateia escolas, hospitais e bens públicos, mas a classe média que pode optar pelo privado não sofre nem se comove com isso. Porque o mostro Desigualdade Social está diretamente ligado ao desenvolvimento das cidades e esse trânsito caótico, essas favelas que não se incendeiam sozinhas e esse transporte público que não funciona.

A lógica sempre me disse que quando uma pessoa possui muito é porque falta algo a alguém, e que isso se aplica a tudo. Se um grupo ostenta mais privilégios, é porque a outro falta direitos e riquezas. Se há concentração de bens e serviços em determinada região, é porque em outra há carência de infraestrutura. Se há especulação imobiliária e as casas se tornam cada vez mais caras enquanto há quem more em condomínios luxuosos, cercados de câmeras, grades e proteção, é um tanto óbvio que isso criará moradias irregulares, ocupações, favelas e pessoas vivendo em situação de extrema pobreza.

E o que me choca mais é estarmos tão inertes a ponto de estarmos protestando por inúmeras causas, algumas válidas e outras não, mas sem entender a fundo a gravidade dos problemas do nosso país. Será que estamos mais uma vez tentando curar os sintomas sem nos preocuparmos com a doença? Até quando vamos fingir que não vemos a opressão que sempre esteve presente na periferia insone  e que, de diversas formas, nos atinge também? Se me preocupo com essas questões é porque não vejo sentido em uma sociedade que faça bem apenas para mim e uma pequena parcela de sua população. Não me interessa privilégios, me interessa igualdade, para que nem eu nem ninguém precise se preocupar mais em resolver o que fazer com os delinquentes, com a falta de bons hospitais públicos, o não cumprimento das leis. Me preocupo porque é o mínimo que eu poderia fazer, porque fazer protesto seguindo cartilha de bons modos e obediência civil só incentiva os donos do poder a tapar o sol com a peneira para acalmar os bobos.

E diante dessas minhas constatações só posso concluir que esse gigante sonolento, criado a leite com pera e revista Veja não pode ir muito longe a não ser que deixe de defender os interesses da minoria e passe a caminhar rumo à destruição de monstros que ele próprio criou. A grande maioria das pessoas não entendeu o que são esses protestos. A maioria não descobriu como ser empático o bastante para não defender apenas seus próprios privilégios. E não me chamem para essas micaretas conservadoras de ideais elitistas e direitistas. Me chamem para uma revolução de verdade, me chamem contra a opressão do pobre e do desfavorecido, mas não pra essa patifaria com teor de carnaval. Não é revolução de verdade se não houver luta de classe, se não for subversivo o bastante para entrar nos livros de história e nos sonhos da juventude. ““Se Não Posso Dançar Não é a Minha Revolução” Emma Goldman

“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força.” George Orwell, 1984.

Lugares comuns

Às vezes me pergunto se é sinal de coragem ou muita burrice insistir em ser quem eu sou e pensar da forma que penso. Aliás, penso demais, sinto demais, quando poderia ser igual a qualquer outro cidadão. Seria muito mais cômodo me interessar por pessoas comuns, ouvir músicas e assistir a filmes comuns, estar em lugares comuns e não ter que me preocupar em convencer as pessoas do meu ponto de vista. É uma tarefa um tanto árdua ser de fato quem a gente é e aprender a lidar com a necessidade que os outros têm de que a gente se justifique o tempo inteiro.

Mas desde que me entendo por gente, não sei não questionar, não sei não pensar ou dar minha opinião. Meus ídolos são quase todos anti-heróis, meus livros favoritos são sarcásticos e críticos, meus amigos são os desalinhados, poetas de quartos escuros, sonhadores tanto quanto eu. E é esse o universo que me nutre. O espaço entre o sonho e a discórdia é onde eu vivo.

Quando tenho insônia ou estou presa nesse trânsito insuportável de São Paulo tento imaginar como seria minha vida se eu fosse uma pessoa comum, mas me dá desespero. Não consigo imaginar minha vida presa nas zonas cinzas do planeta, chegando aos trinta anos e trabalhando num emprego que eu odeio, que me paga pouco e quer controlar minha vida, meus planos, meus horários. Não consigo conceber a ideia de ter uma família nos padrões arcaicos e passar todos o resto dos dias pensando nas crianças, assistindo Jornal Nacional e nos domingos o Faustão. Parece arrogância, mas é auto-estima: mereço mais!

Quando estou no mercado, no shopping ou nas redes sociais ruminando vejo uma porção de pessoas fúteis com as quais não me identifico. Elas cuidam cuidam da minha vida mais do que das suas, estão preocupadas com a novela, com o que os gays e as lésbicas fazem na cama, mas não com seus próprios valores. Estão preocupadas em arrotar títulos e etiquetas de marca, mas não em arrotar valores de espécia alguma.

Se essas pessoas se indignam com meu cabelo, minhas preferências políticas e meus protestos, continuarei a me indignar com seu conformismo e com todos os cidadãos de bem que fecham os olhos diante do caos e sentem medo diante do diferente. Cidadãos de classe média que se julgam a nata da sociedade, que defendem o interesse dos ricos e se esquecem que é por eles que são oprimidos. Gente que anda feito cordeiro.

Prefiro seguir me ferrando e me cansando de separar sempre o joio do trigo a me adequar a todos os anseios. Prefiro seguir compactuando com o pensamento de Krishnamurti e acreditando que não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente. “Se é coragem eu não sei”.

Mas nós, que sonhamos com a liberdade, a justiça e o respeito, não somos cidadãos de bem…

No início desse ano (re)assisti a uma peça de teatro que me marcou muito: Luís Antônio – Gabriela. Um espetáculo sobre respeito, inclusão e, acima de tudo, humanidade, palavra essa muitas vezes esquecida quando simplesmente aceitamos colocar pessoas e outros seres em condição inferior à nossa. A peça fala sobre um rapaz transsexual obrigado a entrar no mundo da prostituição para sobreviver em plena ditadura militar, mostrando os abusos que sofreu, a discriminação, o rompimento com a família e a vida que levava à margem da sociedade. Luís Antônio, ou Gabriela, como era conhecida, morreu em 2006 já muito debilitada pela aids e pelas complicações de seu estilo de vida; era uma figura grotesca: um homem com seios e coágulos de silicone industrial acumulados por suas pernas, o que causava grande dor e desconforto. Sucesso de público e crítica, a peça termina com um grande momento de lucidez e reflexão, com os atores cantando Your Song, do Elton John, após uma fala emocionante de Luís Antônio: “a vida é tão curta e eu vou ficar me doando pela metade?”. Luís Antônio só sabia retribuir amor e compaixão, não fazia distinção entre seres humanos, para ele, totalmente dignos de respeito, carinho e compreensão. “Para quê eu vou dar uma mão, se posso me doar de corpo inteiro?”, ele se perguntava. Assisti a peça duas vezes, sempre enxugando as lágrimas no final, com esperança de mais igualdade, respeito, compaixão entre as pessoas, que fosse muito além de religiões e interesses políticos, gritando dentro do peito…

As indiferenças diárias, o descaso, a omissão, os preconceitos e violências sofridas pelas minorias desse país me doem. Sinto que sangro toda vez que presencio o ato de tapar o sol com a peneira, tão comum nesse nosso país. Sofro toda vez que me lembro que na nossa sociedade, escrever essas coisas como escrevo, é quase um ato de subversão: nós, que sonhamos com direitos humanos, com progressos reais e para todos, com respeito e dignidade, somos os vilões da história. Ser cidadão de bem no Brasil é lutar para manter os privilégios daqueles que não os merecem!

Parece que estamos cada vez mais distantes de conquistar um país verdadeiramente independente, laico e humanista. Perdemos a nossa humanidade, inevitavelmente, toda vez que naturalizamos formas de violência, que discriminamos, que negamos ao outro direitos e liberdade para ser e existir, que não conseguimos o enxergar com a alma que enxergamos em nós mesmos. Perdemos nossa humanidade, nosso espírito democrático e nossa dignidade ao aceitarmos Marco Feliciano e Bolsonaro na Comissão de Direitos Humanos.

 

 

Estupro não é sexo, é violência!

Desde o início desse ano, o estupro é um dos assuntos mais falados na mídia devido aos fatos ocorridos na Índia. Acontece que no Brasil a situação de vulnerabilidade das mulheres também é preocupante. Em São Paulo, por exemplo, segundo dados, em 2011, o Estado registrou 10.399 casos de estupro, contra 12.886 em 2012 – um crescimento de 23,9% na incidência do crime. Isso significa que só no Estado de São Paulo, em média 35 mulheres sofrem violência sexual por dia!

O que mais me preocupa é que a mídia que divulga notícias de violência contra a mulher – não só sexual, mas também do que eles insistem em chamar de “crime passional” – trata esses casos como fatos isolados, quando, na realidade, eles estão ligados a uma cultura de estupro e desigualdade de gênero. A forma como os veículos de informação tratam dos crimes sexuais dão a falsa ideia de que os estupradores são maníacos, quando, na verdade, em sua grande maioria fazem parte do círculo social da vítima, sendo amigos, colegas, maridos ou parentes. Além disso, levam à convicção que o aumento desse tipo de violência é gerado pela falta de leis mais severas, quando, na verdade, se trata de uma deficiência cultural que precisa ser superada.

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A cultura de estupro quer que todos nós acreditemos que mulheres são seres naturalmente dados à pureza, que não gostam de sexo e que, por isso, precisam ser convencidas e forçadas a aceitar o ato sexual, enquanto homens, têm uma necessidade natural de fazer sexo e por isso, são seres irracionais incapazes de frear seus impulsos sexuais ao ver uma mulher com decote ou roupa curta. Essa cultura também decide quem é ou não digna de respeito: usava roupas curtas demais, tinha parceiros sexuais demais, estava andando sozinha à noite na rua, bebeu na balada?, então não presta, mereceu ser estuprada! Em ambos os casos, a culpa sempre é colocada na vítima.

O que a cultura do estupro não nos ensina é que estupro não se trata de sexo, mas de violência e demonstração de poder e que quando uma mulher diz “não”, ela realmente está querendo dizer “não”! Além disso, não nos deixa perceber que a roupa que uma mulher veste não pode definir seu caráter e muito menos dizer se ela é digna ou não de respeito. A cultura do estupro não nos ensina que mulheres são seres capazes, que possuem muitos atributos que não suas belezas, que não são feitas para enfeitar e nem para satisfazer desejos masculinos.

Quantos mil casos de estupros precisarão acontecer em 2013 para que a mídia e as pessoas comecem a entender que não se trata de mudar as leis e sim de parar de tapar o sol com a peneira e de lidar com os fatos como eles realmente são? Estupro é uma manifestação de violência e misoginia! Um estupro nunca é um caso isolado!

Então você quer dizer que machismo é ruim e feminismo é bom?

Desde Felipe Neto e PC Siqueira, os vlogs viraram uma mania no youtube. Até eu gostaria de ter um, e penso muito nisso, mas minha câmera não é tão boa e eu morro de preguiça de editar filmagens, então vou continuar com meu blog! Hoje assisti a dois vídeos, um do canal do Clarion De Laffalot, e outro no canal do Felipe Buarque, ambos fazendo críticas ao feminismo, o que me deixa muito satisfeita, na verdade, porque acho legal ver homens que se declaram não machistas tentando levantar argumentos e enriquecendo as discussões.

Os pontos que mais achei legais para levantar discussões, foram os seguintes colocados:

  • “O feminismo tem sido tratado como uma religião. As feministas o tornaram um assunto blindado, acham que ele é imune à críticas (…) o feminismo tem deixado de lado a ideia de lutar por igualdade e vem lutando por privilégios.”
  • “As leis brasileiras sempre discriminam em função da mulher: aposentadoria, proteção ao mercado de trabalho da mulher, separação, guarda dos filhos, licença maternidade.”
  • “As mulheres, em média, são condenadas a penas 40% menores do que os homens, quando cometem o mesmo crime que eles.”
  • “Com as conquistas já garantidas nas leis, as mulheres não precisam de novas leis feministas, e criar novas leis seria conceder privilégios a elas. Porém ainda são válidas mudanças promovidas na base da educação e na conscientização das pessoas.”
  • “As feministas não reivindicam o fim do alistamento obrigatório para os homens nem a igualdade na aposentadoria por tempo de contribuição (30 mulher e 35 homem) ou idade (60 mulher e 65 homem).”
  • “As mulheres vivem mais do que os homens, em média 7 anos: contribuem menos e vivem mais, desfrutando do INSS mais do que eles, que tem menos tempo livre para desfrutar de seu esforço.”
  • “As feministas são chatas que gostam de ficar discutindo etimologia, ou seja, acham que tudo é uma forma de discriminação.”
  • “As feministas gostam de patrulhar as roupas das mulheres, fazendo agora o papel que antes era dos homens, ou seja, estão apenas trocando o opressor e mantendo a opressão. Acham que se a mulher está usando roupas curtas demais, é um absurdo pois está se rendendo à sociedade sexistas e acham outro absurdo mulheres com roupas demais, pois dizem que estão sendo oprimidas pela sociedade machista.”

Esses foram alguns argumentos, que reuni resumidamente e que você pode entender melhor o contexto assistindo aos vídeos, e achei mais interessantes para desfazer algumas confusões acerca do assunto.

Acho muito engraçado que em grande parte desses vídeos fazendo críticas ao feminismo, os autores tentam provar por a mais b que os homens são tão ou mais discriminados que as mulheres, buscando colocar em xeque a importância do feminismo e invalidar sua luta porque eles acreditam que tudo não passa de ociosidade de mulher que não tem louça na pia para lavar. E, curiosamente, esses rapazes não se consideram machistas, são apenas bons homens esclarecidos, cof cof! Para eles, machismo é só quando uma mulher apanha do marido, sofre um estupro e é chamada de puta. O resto, é uma invenção do feminismo para acabar com a significância masculina.

Primeiramente, o que a maioria das pessoas não entende é que a luta contra o patriarcado beneficia a todos, tanto homens quanto mulheres. Ela é a base do feminismo, o que leva as pessoas a definirem, por isso, que ele é uma ideologia em favor da igualdade e não quer ostentar nenhum privilégio. Como eu já disse no meu texto de ontem, a extinção do patriarcado conseqüentemente levaria à queda dos papéis de gênero que promovem a desigualdade entre homens e mulheres.

Entretanto, é muito óbvio que o feminismo é dotado de imperfeições e discordâncias entre as próprias feministas, assim como acontece com todo e qualquer movimento de minorias políticas em que não há nenhuma centralização, ou seja, uma carteirinha e um conjunto de normas que incluam ou não pessoas em determinado âmbito político. Além disso, sabemos que houve muita confusão entre feminismo, igualdade e misandria. Algumas mulheres que se dizem feministas acreditam sim que devemos inverter a lógica da opressão e submeter os homens aos interesses femininos. Não preciso nem falar da desonestidade intelectual daqueles que afirmam que, porque existem loucas pregando o ódio, todas as feministas são loucas que pregam o ódio e fazem reivindicações furadas. Seria o mesmo que dizer que porque alguns homens estupram, todos os homens são estupradores em potencial.

Acho engraçado quando o Clarion diz que as leis favorecem as mulheres: me parece um tanto natural que em uma sociedade patriarcal onde as leis foram fundadas em cima de papéis de gênero muito bem estabelecidos, algumas leis pareçam beneficiar as mulheres, como por exemplo o fato de a mulher se aposentar mais cedo e com menor tempo de contribuição. Haja vista que na maioria dos casos as mulheres que trabalham enfrentam uma jornada dupla ou tripla de serviço, ao fazer a maior parte do serviço doméstico (foi aumentado em apenas 8 minutos o tempo que os homens dispensam fazendo essas tarefas), tenho a impressão que a redução no tempo de contribuição e idade para a mulher se aposentar seja a maneira que o legislador encontrou de criar alguma igualdade. Aprendi que isonomia no Direito significa “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de duas desigualdades”.

Porém, a suposta desigualdade na questão da aposentadoria tende a mudar ao passo em que o homem tenha a mesma responsabilidade que a mulher sobre as tarefas do lar, o cuidado com os filhos do casal e esta, desempenhe com mais facilidade o papel de chefe da família, assim como desigualdade a falácia do listamento militar obrigatório, que a Lola abordou muito bem nesse post.

E vou ainda mais fundo dizendo que são necessárias leis novas, mais eficientes e adequadas à realidade da mulher que se torna mãe hoje em dia. Precisamos sim de leis que aumentem o tempo de licença maternidade e ajudem a mulher a retornar ao mercado de trabalho após a maternidade, que façam força frente à cobrança desumana que a mulher que se torna mãe sofre da sociedade, que exige que ela seja bem sucedida, independente emocional e financeiramente, tenha tempo para estar impecável e eduque muito bem seus filhos.Não vivemos mais nos tempos de nossas mães e avós, onde leis mais eficientes não se faziam tão urgentes. Hoje, as mulheres que têm filhos não trocam, mas acumulam funções e papéis.

Além de proteção à maternidade, licença maternidade com maior duração, leis onde o Estado ampare a mulher que deseja ser mãe e facilite sua vida, também precisamos de leis que descriminalizem o aborto e cuidem do planejamento familiar para que as mulheres tenham como escolher se querem ou não ter filhos. E nada disso se trata de vitimização, de colocar a mulher em uma posição de fragilidade só quando nos convém, mas de lutar para que tenhamos um retorno do Estado proporcional à contribuição que nós mulheres damos, literalmente povoando o mundo com nossos úteros e amamentando a humanidade, afinal, todo mundo nasceu de alguma mulher e a sociedade precisa de pessoas para se manter.

O feminismo não é uma ideologia perfeita que está imune à críticas, pelo contrário, ainda precisa crescer muito e buscar soluções mais eficientes para os problemas que necessita enfrentar. Dito isso tudo acima, sugiro que os que tentam invalidar as importância do movimento, tentando mostrar o quanto a sociedade é injusta com homens, branços, héteros, cissexuais e de classe média, procurem entender melhor as questões que se dispõem a discutir e venham dotados de argumentos realmente válidos e não falácias e desonestidade intelectual.

Enquanto feminista, quero liberdade. Quero que as mulheres possam se vestir da forma que acharem melhor, dependendo unicamente de sua consciência e livre arbítrio, sem a influência de padrões machistas. Desejo que os homens eliminem os tabus, e passem a fazer exames preventivos e a cuidar melhor de sua saúde para que sua expectativa de vida aumente, além de torcer para que a violência entre os jovens, homens, negros e pobres, diminua que haja uma melhora na qualidade de vida masculina! A patrulha moralista pelas roupas, a violência, a falta de incentivo à saúde dos homens, são invenções do patriarcado, não nossas. Nós feministas, lutamos exatamente contra isso!

Lugar de mulher não é na cozinha… é onde ela quiser!

Ontem foi um daqueles dias complicados em que tive certeza que é obrigação de qualquer pessoa com o mínimo de esclarecimento e coragem, ser feminista e lutar por mudanças. Em um almoço de família recebi alguns conselhos de grego dizendo sobre o quanto a mulher precisa saber cozinhar (o que é melhor do que ter uma boa formação acadêmica ou uma bela carreira), arrumar a casa e não pode ser preguiçosa nem desrespeitar o marido para não lhe dar o direito de agressão, além do quanto é feio que saia sozinha, esteja acompanhada apenas de amigos do sexo masculino ou chegue tarde em casa  – o que além de condenável é perigoso. Nas entrelinhas do assunto, percebi que ainda existe o pensamento de que a mulher não gosta de sexo: para elas o sexo é um limitador de sua honra, motivo de vergonha enquanto, para eles, é uma vitória conquistada e motivo de muito orgulho. Ou seja, como mulher, eu teria a obrigação de me resguardar e me dar o respeito!

Não preciso dizer que fiquei – e ainda estou – horrorizada, já que eu acreditava que o machismo não me atingia de maneira tão contundente. Mas ouvir essas ideias de pessoas da minha própria família me fez imaginar que provavelmente me consideram marginal por eu ter 20 anos, não namorar ninguém e nem estar empolgada com a ideia de filhos e casamento pelos próximos cinco anos pelo menos, e me deu também mais vontade de falar sobre o assunto, pensar em soluções e trabalhar mais nessa coisa de “ativismo digital”. O machismo e o patriarcalismo não fazem mais nenhum sentido em tempos nos quais as mulheres não dependem mais dos homens, sendo padrões de comportamento prejudiciais para ambos os sexos.

De acordo com a psicanalista e escritora Regina Navarro, em entrevista ao Ig, o patriarcado “instaurou a propriedade privada e o homem tornou-se obcecado pela paternidade para não deixar herança para o filho de outro. Nisso, a mulher foi aprisionada de maneira terrível”. Entretanto, segundo a autora, esse sistema tem perdido sua força e razão de existência desde a invenção da pílula anti-concepcional: “Antigamente, a mulher tinha quantos filhos o homem quisesse, passava a vida toda amamentando. A pílula desassociou o sexo da criação e a mulher se livrou da gravidez indesejada. No patriarcado, os papéis sempre foram bem definidos. Aos homens: força, sucesso, poder e coragem. Às mulheres: ser meiga, gentil, suave, submissa e cordata. Com o desmoronamento do sistema patriarcal causado pela pílula, a fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo.”.

Com tantas mudanças, é preciso lutar por sociedade igualitária, que dê assistência a todos, visto que não faz nenhum sentido nos prendermos a tradições culturais que não abrangem a totalidade dos fatos e apenas nos levam a tapar o sol com a peneira ao invés de permitir que encontremos soluções para as questões que nos cercam, como diversidade e liberdade sexual, poli amor  relacionamentos abertos, famílias não convencionais, etc..

Antigamente as mulheres se casavam porque eram obrigadas, hoje, compreendemos que nem todas as pessoas veem no casamento um sonho de vida. Muitos casais optam por não ter filhos e alguns, ainda que tenham possibilidade de engravidar, recorrem à adoção, e não há nada de errado com isso. As famílias não são mais constituídas por uma mulher, um homem e seus filhos. Precisamos nos livrar da herança machista e ceifadora que nos foi deixada pelo pensamento judaico-cristão, que com a invenção do pecado e da castidade, sem dúvida alguma, criou o meio mais eficiente de controle social: a patrulha da sexualidade humana.

Não precisamos mais disso, podemos ser livres para escolher o que fazer com nossas vidas, assim permitindo que o outro possa ser feliz a seu modo também, não importa se solteiro, homossexual ou casado há 30 anos com uma pessoa sem nunca tê-la traído.

Tenho 20 anos e muito a viver até resolver me casar um dia, caso dê vontade. Enquanto isso, quero me dedicar a bons livros, boas festas e amigos nos quais confio. Quem sabe passar um tempo fora do Brasil, conhecendo e me enriquecendo pelo mundo… Quero escrever um livro (que está na fase do rascunho), plantar uma árvore, aprender falar uma terceira língua e depois disso, eu talvez pense nos filhos. Será que ainda vão me discriminar muito por eu achar uma baboseira essa ilusão de amor romântico?

Luís Antônio – Gabriela: Uma peça sobre diversidade e humanidade

Nesse domingo, fui com um amigo rever a peça Luis Antônio – Gabriela, escrita por Nelson Baskerville, eleita pelos críticos da APCA como a melhor de 2011. Durante a apresentação, tudo o que eu conseguia pensar era que o mundo seria muito mais humano e agradável se todas as pessoas a assistissem. O espetáculo conta a história de um travesti que sofre por assumir sua transsexualidade em plena Ditadura Militar e, mais do que uma lição sobre a aceitação da diversidade e a quebra de papéis de gênero, é uma lição sobre humanidade, amor e generosidade.

luis antonio

Maltratado pela vida, saindo de casa aos dezesseis ano e obrigado a entrar no mundo da prostituição para sobreviver, tendo acabado em Bilboa, na Espanha, onde veio a falecer em 2006, aos 53 anos, já muito debilitado pela Aids e  os efeitos das injeções de silicone, Luís Antônio jamais perdeu a alegria de viver. Ele falava sobre a entrega a vida, sobre distribuir amor às pessoas, sobre a generosidade. “A vida é tão curta e eu vou ficar me doando em pedaços?”, ele dizia.

Na plateia do teatro lotado havia pessoas de todos os gêneros, idades, sexualidades e estilos dando risadas, se emocionando e possivelmente imaginando um mundo onde a felicidade, a diferença e o gozo do outro, não sejam capazes de incomodar ninguém. Me levantei da poltrona ao término ainda com lágrimas brotando dos olhos, e após aplausos intermináveis e calorosos, voltei para casa sonhando com um mundo de mais amor e menos julgamento.

Com o fim da temporada em São Paulo, no teatro Alfredo Mesquita, em Santana, a peça irá viajar por várias capitais do Brasil. Para quem é de SP e não conseguiu ver a tempo, também há o livro recém-lançado por Nelson Baskerville, que além de contar a história de seu irmão Luís Antônio – Gabriela, traz também o roteiro da peça.

“O Riso dos Outros” e a Caretice no Politicamente Incorreto

Manhã de sábado quente e eu resolvi escrever sobre um tema já falado aqui antes: o humor. Depois finalmente arrumar algum tempo para assistir ao documentário “O Riso dos Outros”, com direção de Pedro Arantes, algumas falas dos participantes me deixaram com vontade de falar mais sobre o assunto aqui. Mas antes de tudo, gostaria de dizer que o documentário foi muito bem dirigido e que faltava mesmo um bom posicionamento acerca do tema vindo de quem tem realmente visibilidade na mídia, já que os blogs contemplam um público muito seleto.

Afinal, o humor precisa ou não ter limites? É negativo ser politicamente correto? O humorista precisa ter noção sobre a responsabilidade social de suas piadas? Devemos proibir piadas sobre determinados assuntos? Essas foram algumas das perguntas feitas pelo documentário e que geraram argumentos muito interessantes, mas lendo os comentários de alguns telespectadores no youtube, percebi que ainda é difícil para algumas pessoas entender porque é complicado fazer piadas com negros, mulheres, judeus, homossexuais, estupro e que há muita gente que crê na “patrulha do politicamente correto”, que acha que é uma caretice imensa se indignar com piadas do gênero, revelando um pensamento no mínimo paradoxal.

o riso dos outros

É um tanto óbvio que o humor tem a função de fazer rir sobre o que há de torpe e caricato na sociedade, e que, sendo assim, ri com os preconceitos já existentes, não necessariamente criando preconceitos novos. O problema é que o riso gerado nesses casos, serve para perpetuar o que já se pensa sobre o assunto, enaltecer o câncer que é o senso-comum e não há nada de transgressor, inovador e revolucionário em falar o que já vem sido dito por décadas. Sinceramente, não entendo a graça de ser politicamente incorreto e defender que as mesmas piadas continuem sendo feitas com minorias que lutam diariamente para que sua realidade possa ser mudada. Isso é ser careta, reacionário, conservador, acreditar que privilégios precisam ser mantidos para um seleto grupos de cidadãos merecedores, enquanto os outros devem ter seus direitos negados e ceifados. Há algum aspecto positivo em ser uma dessas coisas? Acredito que não.

Por outro lado, fazem uma confusão imensa com o ser estereotipado de “politicamente correto”. “Ah, é o fulano que não acha graça em nada”, “É o certinho sem graça”, “É um careta, vive no sáculo passado”. Não faz sentido, são ideais controversas e paradoxais. O politicamente correto é justamente o oposto disso, é aquela pessoa cansada de viver por décadas em uma sociedade que não desfaz seus preconceitos, que exclui as mesmas minorias, e que é revolucionário e transgressor o bastante para se posicionar contra o que o senso-comum acredita que é o correto e natural, e cobrar mudanças. Não há nada de errado em ser politicamente correto e é preferível ser considerado um desses chatos a ser um “normal” totalmente adaptado a uma sociedade esquizofrênica e doente!

Na minha humilde opinião, caricato e torpe é que ainda existam pessoas que consideram negros inferiores, que se preocupam e são contra a sexualidade do outro, que creem na incapacidade das mulheres, que acham muito legal fazer piadas com judeus que foram dizimados e carregam um sofrimento terrível em sua história. O problema não está no tema da piada, mas no alvo da piada. Como foi dito no documentário “”O melhor tipo de humor é o que faz a gente rir do carrasco, e não da vítima…”, não porque devamos escolher novos alvos de discriminação, mas porque é necessário um humor que faça pensar.

A arte de nunca ancorar…

Final de ano chegando e todos, inevitavelmente, começam a se fechar e fazer balanços de tudo de positivo e negativo que ocorreu no ano. É o momento em que  nos desprendermos de uma série de coisas e pessoas que, muito embora tenham  nos viabilizado uma porção de experiências e momentos incríveis, cumpriram seu papel e precisam ir embora. Um verdadeiro ciclo shivariano: coisas novas vêm ocupar o lugar das antigas num processo de renovação e desapego.

E é essa sensação de encerramento de mais um ciclo que venho tendo com o início das despedidas do Agridoce, que até o fim do ano não terá novas apresentações e deve retornar no início de 2013 para seus últimos shows – tudo muito incerto ainda.

Talvez o projeto paralelo tenha ganhado tanto destaque por ter gerado um dos discos mais belos e sinceros do último ano. Um disco para refletir sobre questões profundas, sem pressa – com aquela calma das conversas na sala de casa, acompanhadas de uma garrafa de vinho. Um álbum que é uma unidade viva com ritmo e essência próprios, que revela suas nuances, texturas, experimentações, ironias e entrelinhas ao longo do tempo.

O surgimento de possíveis novos trabalhos para Pitty, Martin e banda é animador para a maioria, mas traz um misto de felicidade e saudade antecipada aos que compreenderam e se identificaram com o projeto paralelo que revelou outros lados de uma mesma Pitty,  muito mais madura e ousada, capaz de se desvincular de cobranças externas  e se reinventar através de um disco acústico, mantendo sua essência. Quem prestou atenção sabe, está tudo ali: a mesma compositora, as mesmas inquietações, a mesma jocosidade e o espírito guerreiro, hedonista e “pé na porta” presentes desde sempre.

O Agridoce proporcionou a seus fãs o maior privilégio que poderia: a possibilidade de fazer com que alguns se apaixonassem a segunda vez pelos mesmos artistas. Uma conquista digna de românticos que, com verdade e honestidade, nutrem sua relação, cativando, apesar de alguns desentendimentos, a mesma pessoa diariamente.  O Agridoce me ganhou com a possibilidade de redescobrir a mesma compositora que ao escrever sobre si e seus anseios, indiretamente escreve sobre mim e tantos outros e me seduziu mostrando a extensão do talento de um guitarrista que tocando violão, fez com que incríveis composições ganhassem vida e fizessem ainda mais sentido.

Se o Agridoce se despede, ainda com a saudade, desejamos que Pitty continue mestre na arte de nunca ancorar.

Gente negra, parda, miscigenada e linda!

Recentemente, li uma pesquisa sobre o racismo muito entristecedora, que revelava o quanto o preconceito se manisfesta nas crianças. Segundo o estudo (que você pode ler clicando aqui), crianças negras e pardas são muito mais rejeitadas na escola do que seus colegas brancos, manifestando na adolescência problemas como a insegurança e a falta de auto-estima, traços que acabam se perpetuando pelo resto de suas vidas.

Os motivos dessa discriminação desde a infância são vários. Além de aprenderem observando o comportamento dos adultos e interiorizarem a rejeição àqueles que não fazem parte do seu convívio (no caso de crianças que não convivem com pessoas negras), as crianças desde sempre aprendem que o padrão de aceitação é o europeizado. Seus ídolos da música são garotos brancos da elite que falam de corações partidos, os heróis dos desenhos que passam na TV não são negros, mas as empregadas nas novelas quase sempre são. Na escola, essas crianças aprendem desde cedo qual é a sua posição no mundo, a de subalternos.

Embora não seja comum presenciar pessoas pregando o ódio, a perseguição, inferioridade contra algum negro, o nosso racismo existe e é um racismo velado; fomos ensinados a não admitir nossos preconceitos, a existência de desigualdades inadmissíveis e a presença de minorias, culpa daquela velha e tacanha lógica que nos faz acreditar que só há fogo quando há fumaça, que ao ignorar nossos problemas eles automaticamente deixarão de existir. O Brasil é um país racista e que acredita não ter racistas. O racista brasileiro é aquele que costuma fazer declarações dizendo “não tenho nada contra, mas… eu não gostaria que minha filha se casasse com um rapaz negro”, “nada contra, mas… tenho que confessar que a maioria dos negros pobres são bandidos”, isso quando não ri de piadinhas racistas que escuta por aí. “Está na moda ser politicamente incorreto, esse povo chato e metido a besta é que adora chamar os outros de reacionários!”.

O exemplo mais concreto disso é o nosso padrão de beleza eurocêntrico. Mesmo após mais da metade da população brasileira ser reconhecidamente negra, ainda acreditamos que a beleza de alguém é diretamente proporcional ao quanto se encaixa nos padrões eurocêntricos. A preferência nacional ainda é pelas loiras, mesmo entre os homens negros, assim como boa parte das mulheres negras prefere se relacionar com homens brancos.

O racismo está implícito e faz com que milhares de pessoas negras, pardas, miscigenadas e lindas cresçam achando que são inferiores. Nas famílias onde não há uma forte identidade negra para fazer nascer o orgulho pelas origens e a aceitação, os miscigenados se acham menos bonitos do que seus irmãos que nasceram um pouco mais branquinhos. As meninas crescem achando que têm cabelo ruim, e acabam fazendo com que seus cabelos fiquem ruins mesmo de tanta química para tentar alisá-los. Não que seja errado alguém que queira alisar os cabelos ou quem prefira pessoas com determinadas características físicas, mas não vamos tapar nossos olhos e tentar acreditar que boa parte dessas “preferências” interioriza inconscientemente um histórico de racismo.

Se para as mulheres existe essa cobrança para se adequarem cada vez mais aos padrões excludentes, os meninos também não escapam: estão acostumados a serem trocados por outros brancos ou loiros, que sempre têm muito mais mulheres dispostas a relacionamentos e amizade, e as meninas a quase sempre serem a segunda opção na disputa com uma amiga igualmente bonita, mas branca. Os meninos negros estão acostumados a serem revistados pela polícia, enquanto seus amigos brancos não levantam muitas suspeitas. O branco encontrado com maconha no bolso da calça é vagabundo, filhinho de papai e mimado, o negro é bandido, marginal.

Tento pensar que o Brasil está mudando. Todos os dias, ao menos em São Paulo, vejo mulheres lindas assumindo seus cabelos crespos ou cacheados e homens ganhando auto-estima e orgulho por sua cor e miscigenação. E sonho todos os dias em ver cada vez mais pessoas ignorando imposições absurdas e inatingíveis, e sendo felizes se aceitando como elas são. Bonitas ou não. Capas de revista ou não.

Livrem-me da neocaretice e da falta de personalidade existente nesse planeta, amém!

Estamos tão habituados a viver no nosso universo particular ao lado de amigos e frequentando ambientes onde todos pensam como nós, que, ao sairmos dessa nossa bolha ideal, tomamos um susto! Nem todos pensam como nós e lá fora ainda existe um mar de preconceito e uma quantidade enorme de gente alienada, arcaica, que tenta impor sobre nós suas regras e verdades inquestionáveis acerca da vida, da moralidade, quase literalmente cagando regras de como devemos pensar e agir!

Essa gente me faz pensar que os preconceitos e essa repressão silenciosa crescem à medida em que avançamos nas questões de direitos sociais e liberdades individuais. Eles ainda acham válido que gays sejam espancados e discriminados para que se tornem “homens de verdade” e que a estes sejam negados direitos sociais primordiais em nome de uma duvidosa vontade divina! Também acham que devemos educar nossas crianças e adolescentes à base de pancadas, para que aprendam desde cedo a se defenderem da vida. Já vi muitos deles afirmarem que bons tempos eram o da ditadura, que jovens só deturpam a sociedade e que deveríamos restringir o uso dos computadores para menores de idade! Parece mentira, mas não é! Esses cidadãos se esforçam para tapar o sol com a peneira, defendendo proibições e ideais absurdos como se eles fossem capazes de solucionar questões muito mais complexas.

São as mesmas que, de forma sutil, insistem em achar estranho que alguém coma uma comida diferente, que vista uma roupa que não está na moda, que se sinta bem sendo quem é, gordo, magro, alto, baixo, que tenha outras concepções de certo, errado, moral, imoral, feio, bonito, e que não se sujeite totalmente às regras que elas entendem como determinadoras do bom caratismo de alguém!

Que elas livrem a todos nós dessa neocaretice!  Nossas ruas ficam mais bonitas quando há diversidade e nossa vida fica mais feliz quando não precisamos julgar todos a todo momento. Que elas nos livrem dessa falta de personalidade, porque não seríamos plenos se  obrigássemos pessoas a serem o que não são em nome do que entendemos por moral, e porque temos consciência de que atentar à liberdade de alguém desse modo, é ferir a nossa própria liberdade de sermos quem somos, amar quem quer que amemos e viver como vivemos.

Que tenhamos a paz de um dia viver em nossos mundos ideais sem nos trancarmos em mundos imaginários!

Trecho de Caio Fernando Abreu:

” (…) Saí do cinema pensando: é preciso estar atento e forte, colega, a Idade Média está de volta. Discretamente, todo dia, de muitas formas estamos sendo bombardeados por mensagens tipo: não saia da linha, não cometa nenhuma transgressão, não se apaixone. Caso contrário, você será punido por isso. O vírus da Aids materializou nas cabeças burras aquela velha suspeita de que toda a nudez, um dia, seria inevitavelmente castigada. O que confirma a culposa lenga-lenga judaico-cristã de que este planeta não passa mesmo de um sofrido vale de lágrimas, onde todo prazer é sinônimo pecado. Para quem acompanhou a luta das minorias nos anos 60 e 70, resta um espanto no ar: o que está acontecendo? É um retrocesso? Foi tudo inútil? Como se entrássemos coletivamente numa máquina do tempo moral e mental, para negar a História e ignorar todos aqueles vislumbres de felicidade individual conquistados nas últimas décadas. Tentar ser feliz agora, saindo fora do esquema, é crime. Homossexuais, mulheres independentes, homens descasados, rebeldes de todo tipo, artistas, loucos mansos e varridos: a nova moral está no seu encalço.

A neocaretice está solta pelas ruas. Ela mora no apartamento ao lado, na casa da esquina e anda muito preocupada com a possibilidade de Jocasta e Édipo consumarem seu colorido incesto às oito da noite. Ela quer que o sexo que não se destine exclusivamente à procriação seja varrido da face da Terra. Ela sorri amável no elevador, dá bons-dias, boas-tardes, boas-noites, depois fica prestando atenção na sua vida para ver se você está andando direitinho dentro da linha. E se não estiver, tome cuidado, porque de alguma forma você pode ser punido. Despejo, desemprego – você sabe, essas pequenas tragédias que acontecem com quem ainda é capaz de não só acreditar em um pouco de prazer, mas até de lutar por isso. Embora, concordo, ninguém saiba mais direito o que seria “o prazer” a estas alturas da década de 80.
Quanto a nós, meio gauches, meio bandidos, dinossauros sobreviventes daquele tempo em que tudo parecia que ia mudar – não resta muito mais a fazer senão resistir. Movidos, no mínimo, pela curiosidade de onde vai dar tudo isso. E sempre se pode cantarolar baixinho aquele velho blues (Milagres) de Cazuza, que diz assim: “Mas que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver?”. Caio Fernando Abreu – 20 janeiro de 1988

Artistas e Músicas do meu Fim de Semana

O título do último post aqui do blog é “VISCERAL E PONTO”. “Visceral” é uma palavra que pode resumir o meu jeito de sentir e pensar sobre as coisas: Ou é ou não é, ou toca ou não toca! Cansada de estudar, passei o final de semana quase inteiro ouvindo músicas e descobri que de alguma forma, todas elas se uniam pela visceralidade.

Charles Bradley – É um cantor americano, nascido na Florida, que faz Soul, Jazz, Funk, R&b, tudo com altíssima qualidade! Em 2011 ele lançou um disco chamado “No Time For Dreaming”, o qual eu não consigo parar de ouvir!

 

Mariana Volker – Conheci a Mariana Volker, carioca na MTV alguns anos atrás, vendo a banda Unidade Imaginária, da qual ela é/era vocalista, tocar. Ainda gosto da banda, que não se ainda existe ou já acabou. Me encantei com essa versão de Todo Amor que Houver Nessa Vida que ela fez tocando piano.

 

5 a Seco – Conheci a banda de um jeito engraçado: fui a um show deles com participação da Tiê pensando que o show era apenas da Tiê, e o resultado foi que me encantei pela banda! É um sopro de vida e criatividade para a música popular do cenário paulista! Quem gosta do Lenine, certamente irá gostar do som deles!

 

 

Mallu Magalhães – Já falei da Mallu em outro post, e pois é, ainda não consegui parar de ouvir o disco dela. A música da vez é “Cena”, me identifico dos pés à cabeça, o som é uma delícia!

 

Etta James – Fazia tempo que eu não ouvia, e estava com saudade do exagero, da comoção que ela me proporciona. Como ela, jamais haverá cantora igual! Ela morreu esse ano, mas faz parte daquela liga de artistas cuja sinceridade fará com que sejam eternos.

VISCERAL E PONTO

Aos 16 eu acreditava que para ser boa, uma música precisava ser pesada. Hoje, aos 20, descobri que tudo o que é bom precisa, obrigatoriamente, ser sincero. Com o tempo, notei que os melhores momentos não são  necessariamente os que geram as melhores histórias, mas os que geram as lembranças mais simples, como aquelas que se transformam em pequenos retratos animados, com cheiros, sabores e sentimentos que, de tão profundos, acabam impossíveis de se descrever. Percebi que as pessoas mais incríveis não são as mais populares e badaladas, e que os melhores filmes às vezes passam na Sessão da Tarde.

A maioria das coisas é simples, somos nós quem complicamos. Queremos ser pop, mostrar que temos opinião, que possuímos cultura e somos modernos. Porém, nos deixamos levar pelas nossas manias horríveis como criar regras e ditar o que é aceitável ou não, enquanto deveríamos nos deixar guiar pelos nossos instintos mais genuínos: a busca pelo amor e pela felicidade. Mas o que são sentimentos em um mundo onde os cérebros são cada vez mais contemplados?

Hoje, vivo de acordo com as minhas regras. E quanto a música, eu quero que se foda o ritmo desde que no cantor eu encontre alma, visceralidade ou quem sabe dor. No amor, pouco me importa o tamanho do seu nariz, a cor dos seus olhos, o grau de seus óculos ou o que existe entre as suas pernas, desde que no seu coração exista coragem para se entregar e, na sua alma, exista liberdade para ser e aceitar que todos sejam exatamente como são. A respeito dos filmes, não faz a mínima diferença se são um Almodóvar, um Woody Allen ou um Blockbuster qualquer, desde que sejam capazes de me transportar para outros universos incríveis ou me emocionar. Já li muitos livros ruins que me pareceram bons e muitos livros bons que achei horríveis no final.

A vida é muito mais sobre se permitir e parar de criar regras para tudo…

Tradução grosseira: Viva por beijos profundos, aventuras estranhas, mergulhos noturnos e conversas desconexas….

Sessão Pipoca: Filmes da Semana

Mesmo com pouco tempo não consigo deixar o vício pelos filmes de lado! Me deixem sem livros, sem chocolate, sem cappuccinos, mas não me deixem muito tempo sem ver um bom filme!

Tomates Verdes Fritos (1991) – Eu sempre via as pessoas comentarem, até que essa semana resolvi ir atrás do filme. O resultado foi que eu amei e o filme acabou entrando na minha lista de preferidos. Além de um roteiro incrível, a trama é boa porque faz reflexões incríveis sobre a vida, o envelhecimento, a coragem e a morte, tanto que acabei com um trecho escrito por Charles Bukowski na cabeça:

“O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. (…) A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer.”

Elena Undone (2010) – Um filme, mais uma vez, para pessoas de mente aberta, pois se trata de uma história de amor entre duas mulheres: Peyton, uma lésbica  assumida e Elena, uma mãe de família casada com um pastor evangélico. Além da história muito bem abordada, o filme também fala sobre amores verdadeiros de toda forma e faz pensar em destinos e almas gêmeas. Enquanto Peyton tenta inibir seus sentimentos, Elena mostra coragem para ir adiante com seus sentimentos. É um filme belíssimo, que marca sem dúvidas a história do cinema, por ser tão corajoso! Trailer aqui.

Mallu Magalhães: Mais Velha e Mais Louca

Me perdoem pela piadinha impensada do título, mas eu realmente acredito que o último CD da Mallu Magalhães nos trouxe essa certeza de que ela cresceu e está muito mais madura musicalmente falando! Sempre gostei da música e do fato dela ter começado a carreira bem menina, disponibilizando música através do My Space e, mesmo sendo tímida, ter saído tocando por aí quando começou a obter retorno. E sempre torci para que ela lançasse coisas novas que me tocassem como algumas músicas fizeram no início da carreira. A influência do Marcelo Camelo fez bem pra ela!

Achei o clipe de Velha e Louca de uma beleza ímpar. Tanto letra quanto música são espetaculares e a Mallu está linda no clipe, perdeu o ar de adolescente e se desprendeu de algumas neuras! A transição do Folk para a música essencialmente brasileira caiu muito bem à Mallu! Não consigo mais parar de ouvir o disco, acho que o descobrimento da liberdade e da força pessoal dela estão condizendo comigo!

O clipe de Sambinha Bom também é incrível, tanto em termo de linguagem quanto em fotografia:

Não consigo parar de ouvir: John Mayer e Carla Bruni

Há algumas semanas, resolvi reativar meu tumblr e escolhi um novo tema para ele: amor. Não apenas o amor romântico, mas também o amor carnal e, preparando a playlist que começa a tocar automaticamente assim que o blog abre, adquiri alguns vícios musicais novos.

O primeiro é o John Mayer, que já conheço há bastante tempo. Seu primeiro disco foi lançado em 2001 e desde então ele está aí nas paradas, arrasando o coração de muitas mulheres e esquentando o clima de outras. Seus principais sucessos são Daugthers, Your Body is a Wonderland, Why Geoergia, Neon, Waiting on the World to Chance, entre outras.

Carla Bruni é mais conhecida por ser modelo, atriz e casada com o ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy. Mas o que interessa aqui é o talento musical da moça, que tem canções em Inglês e Francês igualmente incríveis. A mais conhecida, sem dúvida alguma, é Quelqu’un m’a ditnome também de seu primeiro disco, lançado em 2003. Depois dele, foram lançados mais dois discos: No Promises (2007) e 

Em inglês, Those Dancing Days Are Gone (o clipe é lindo e ela está muito bonita nele – aliás, ela nunca está feia!)

Alain de Botton e Religião Para Ateus

Estou lendo um livro muito curioso, que ora me irrita ora me leva a conclusões muito interessantes: “Religião para Ateus”, do inglês Alain de Botton. Não sou ateia, ainda tenho minhas dúvidas e minhas crenças. Já falei isso em outro post, mas o livro anda me deixando tão intrigada que resolvi falar novamente!

Alain de Botton afirma em seu livro que apesar dos ateus – categoria na qual ele mesmo se inclui – não acreditarem na existência de Deus, é possível encontrar aspectos positivos nas religiões que levam as pessoas a lidarem melhor com a vida secular. Segundo ele, o fato de não crer em Deus não elimina as nossas principais questões existenciais como “o sentido da vida”, “a morte”, “a solidão” e que, nesse ponto, as religiões possuem meios de confortar em indicar bons caminhos até mesmo àqueles que não possuem nenhuma fé. Não há como discordar disso, pois, se não cremos em Deus, estamos ao mesmo tempo livres e jogados à nossa própria sorte, o que pode ser positivo para uns e muito danoso para outros.

Porém, há uma grande diferença entre ter conhecimento espiritual (conhecimento dos ensinamentos e valores religiosos) e ser uma pessoa espiritualizada (aplicar esses valores que remetem à bondade e ao bem, e que nem sempre são adquiridos através da religião), e é essa a questão: nem todo mundo que possui uma religião é espiritualizado e há pessoas que mesmo sem religião são muito espiritualizadas.

Será que o problema do mundo e dos ateus é mesmo a falta de valores religiosos para guiar todos a uma vida moral e digna?

Eu acredito que não: “o buraco é bem mais embaixo”! Precisamos de educação e entender que os princípios básicos de fé e não-fé são muito pessoais, não devendo ser aplicados a todos. Por melhores que sejam as intenções do livro e de tantos ensinamentos religiosos, ainda acredito que tudo seja questão de caráter e consciência, não de quem possui ou não valores religiosos em seus princípios.

Afinal, o que é ser feminista?

Defender o feminismo se confunde o tempo todo com o ato de declarar uma guerra, afinal, como são chatas e extremistas essas feministas! Não entendem uma piada! Quem elas pensam que são para acharem que podem dar sua opinião sem serem questionadas? E compreendo a dificuldade que as pessoas têm de entender o feminismo porque não existe uma lista de atributos que enquadram ou excluem alguém do rótulo de feminista. Além disso, enquanto vindas de pessoas diferentes, com vidas e interesses muitas vezes opostos, as reivindicações feministas variam muito. A prova disso é a existência de vertentes totalmente contrárias dentro do feminismo que nunca entrarão em acordo.

O feminismo é uma luta de gênero que age pela igualdade, pelo fim da discriminação sexual, pela equidade de direitos, o que é completamente diferente de lutar para extinguir direitos alheios ou querer privilégios! Mas as pessoas distorcem, infelizmente. E o caso mais batido – vou começar a chover no molhado aqui – é quando se referem à Marcha das Vadias! Não sei qual o motivo de tamanha dificuldade para entender, talvez a ironia do termo “vadia” para nomear o movimento e a preguiça de dar uma boa pesquisada antes de sair afirmando coisas, sejam alguns dos responsáveis por tantas más interpretações acerca do protesto.

Usar o termo vadia de forma irônica, como foi feito na marcha, é apenas um meio de expressar que nenhuma mulher deve ser discriminada por querer ser livre. Uma forma de expressar tamanha frustração por ainda hoje termos uma convenção social que faz acreditar que mulher tem que casar, cuidar de filho, que quando dá opinião demais é porque está sem louça suja na pia! Se fugir da regra do que é uma mulher respeitosa, decente e para casar, é obrigatoriamente taxada de puta! E pra afirmar que se nos chamam de vadias porque não agimos conforme as regras, vamos continuar sendo vadias e isso não nos tira o direito de sermos respeitadas.

Mas aí afirmam: fazem uma Marcha das Vadias para dizer que querem ser respeitadas pelo fato de quererem “dar” pra todo mundo, sair pegando geral e mostrar os peitos na rua! E quando afirmo que as pessoas não se coçam pra fazer uma pesquisa sobre o que motiva esse tipo de protesto, estou sendo uma feminista chata e hipócrita. Primeiro: se uma mulher quer fazer sexo com 902802 homens, problema dela! Segundo: se fosse um homem que quisesse transar com 1 milhão de mulheres e conseguisse, ia ter quem aplaudisse. Querem ditar regra sobre o que as mulheres podem ou não podem fazer com o próprio corpo, e elas que não questionem, claro! Mas, sinceramente, apenas uma pessoa muito babaca vai às ruas lutando exclusivamente para ser respeitada por “pegar geral”, né? Falta o mínimo de bom-senso aos que pensam e afirmam que essa é a reivindicação mor do feminismo!

O real motivo das mulheres estarem saindo às ruas, muitas mostrando sim os seios, foi uma forma de se posicionarem contra a erotização do corpo feminino. A Marcha das Vadias surgiu após um segurança canadense dar uma palestra em uma universidade afirmando que para evitar que os estupros aconteçam as mulheres precisam parar de se vestir como vadias (sluts – daí o nome original “Slut Walk”) – eu avisei que ia chover no molhado! Ou seja, é pertinente se manifestar contra a erotização do corpo feminino (considero aqui a possibilidade de haver quem não concorda com a forma utilizada para protestar, mas em um país onde sair pelada no carnaval e na playboy são coisas hiper aceitas, acho de um moralismo e de uma hipocrisia sem tamanho não poder ficar pelada para protestar), principalmente em uma sociedade em que temos o costume de atribuir a culpa de um estupro sempre à vítima. Não é raro ouvir que se uma mulher estava bêbada, vestindo pouca roupa, andando sozinha durante a noite “estava pedindo para ser estuprada” ou “facilitou”! E afirmar isso reduz a culpa do estuprador! Qual a menina que nunca se sentiu mal por usar uma roupa curta, ter sido cantada na rua das formas mais ridículas possíveis e ficou achando que valia a pena passar um pouco mais de calor? Protestar mostrando os seios, usando roupas curtas, é uma maneira de dizer que a forma como nos vestimos ou nossa conduta não dá a ninguém o direito de invadir o nosso corpo! Usar roupas curtas ou não, não faz ninguém menos merecedor de respeito!

Eu estaria muito satisfeita se as confusões com as motivações por trás da Marcha das Vadias fossem a única causa que gera tanto conflito entre as feministas e o resto do mundo. Mas não. Ainda há quem afirme que as feministas são chatas por fazerem tempestade em copo d’água; essas pessoas devem ignorar todas as estatísticas já que acham que a existência de uma lei que puna a violência contra a mulher é garantia de que o problema está com seus dias contados e se esquecem de que nessa questão há um problema social muito grave: a crença de que a mulher pertence ao homem e deve respeitá-lo sob qualquer outro aspecto! Há quem afirme que a culpa por as mulheres estarem tão insatisfeitas com a tripla jornada de trabalho seja do feminismo; essas mesmas pessoas também são incapazes de questionar os padrões que eximem o homem da responsabilidade de cuidar da casa e dos filhos. Fora os inúmeros lugares comuns que vivem afirmando que mulher não sabe dirigir, que mulher “tem que ter onde pegar”, que homem depende da mulher por ser incapaz de lavar uma louça, fazer comida e que mulher é que nasceu pra isso. A opinião de uma mulher é chamada de TPM! No fim, acabo concluindo que essas pessoas não fazem ideia do quão reacionárias e levianas acabam sendo!

Não há uma cartilha que exponha todas as causas que fazem parte do rol de reivindicações feministas ou que dite quais os comportamentos a serem seguidos pelas feministas. Mas ser feminista é questionar padrões, estruturas e verdades aparentemente inquestionáveis. As feministas não são gordas ogras e peludas, mal amadas que só conseguem homens sendo vulgares objetos sexuais, ou que obrigatoriamente são lésbicas e pior, mulheres de modo geral, que odeiam os homens (a isso damos o nome de misandria). Não é preciso abolir a depilação e nem a chapinha ou crucificar a instituição do casamento para se enquadrar no feminismo, apenas respeitar sua essência pessoal a ponto de não ser escravizado por padrões inatingíveis da perfeição feminina.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Simone de Beauvoir

Descriminalizar o Aborto ou dar Amparo às mães?

Assunto ampla e calorosamente discutido por leigos, feministas e religiosos, a descriminalização do aborto ainda é um tema que carrega consigo muitos pontos polêmicos, que, por vezes, dificultam o seu entendimento e conversas no mínimo civilizadas sobre o assunto. Do ponto de vista de alguns especialistas e feministas, a sua descriminalização nada mais é do que regulamentar o direito que a mulher deve ter de tomar decisões que digam respeito a seu próprio corpo, levando em consideração os parâmetros científicos que afirmam que a vida inicia-se após a  oitava semana de gestação. Já para os religiosos, não há meio termo, sendo o aborto para eles um desrespeito à vida.

Muito discute-se acerca dessas questões, porém pouco fala-se a respeito de que medidas poderiam ser tomadas com maior eficácia para evitar que mulheres engravidem sem desejar e para garantir o apoio àquelas que optam por ter seus filhos. Já é batido falar da educação sexual, do planejamento familiar, mas e quando as duas coisas falham e a mulher opta por ter a criança?

A nova piada do país é o auxílio pré-natal, no qual o governo disponibiliza uma quantia de míseros R$50,00 –  pagos em duas parcelas! – para que as gestantes que fazem acompanhamento pelo SUS possam se deslocar até os hospitais. Melhor do que nada, mas será que essa contribuição ainda não é muito pequena se comparada à contribuição que uma mãe dá a sociedade? E mais: e quanto ao amparo que deveria ser dado às mesmas após o nascimento, que é onde o desafio começa de fato?

Por questões de mudanças na estrutura das famílias, hoje, a tarefa de ser mãe se tornou muito mais complicada e exige muito mais da mulher, que, no momento em que se torna mãe, apenas sofre um acúmulo de tarefas: trabalha, é dona-de-casa, estuda e ainda precisa tomar conta de seus rebentos. É justo que o governo dê amparo a essas mulheres, prolongando o período de licença maternidade, criando mais e melhores creches e berçários, mantendo hospitais capazes de dar auxílio às mães nos primeiros meses de vida da criança, melhorando a educação das escolas públicas e, principalmente, não tratando a mulher como se suas dificuldades fossem iguais as dos homens, porque não são.

Se questões culturais e burocráticas ainda nos impedem de descriminalizar o aborto, por que não trabalhar para evitar que este se faça necessário?

Tirem seus padrões do meu corpo

De tempos em tempos surge alguma polêmica envolvendo machismo e feminismo que gera discussões imensas na internet. As meninas acusam os rapazes de fazerem piadinhas infames reduzindo sua condição de mulheres e dizem que eles usam a palavra “mulherzinha” como xingamento, tratando-se de ofensa ao gênero. Do outro lado, os rapazes afirmam que a graça do humor está no politicamente incorreto e que isso não é machismo coisíssima nenhuma. Basta uma pronunciação em 140 caracteres e a guerra está declarada!

Embora muita gente tente tapar o sol com a peneira, é inegável que vivemos em uma sociedade machista, que cultua o estupro (veja definição de estupro aqui se você acha exagero) e ficar me atendo a isso só levaria esse texto a ser idêntico aos milhares de textos feministas que circulam por aí – não os desmerecendo. A questão é: será que temos dimensão do quanto esse problema nos afeta?

Hoje, para ser socialmente aceita, a mulher precisa ter peito, bunda, cintura esbelta e fazer depilação à cera! Coitada da que não estiver em dia com a depilação, afinal, que nojo ter pelos! Se outrora os padrões eram outros e permitia-se alguns quilos e pelos a mais, a evolução da moda e dos padrões está nos levando a um retrocesso enorme chamado de caretice! É feio ser diferente! Estamos fabricando garotas cada vez mais inseguras que baseiam suas vidas e auto-estima nesses padrões e, por conta deles, acabam levadas a quadros depressivos, distúrbios alimentares e, muitas vezes, à morte! Mulheres que perdem um dos bens mais precisos que poderiam ter: o amor próprio, e são levadas diariamente a se sentirem péssimas por não se parecerem com beldades, com quilos de photoshop nas nádegas, ditando regras em capas de revistas feitas para satisfazer o gosto masculino.

Elas fazem de tudo para se adequar, de dietas malucas a procedimentos cirúrgicos dolorosíssimos. Dentre as cirurgias plásticas que mais estão em alta, o implante de próteses de silicone para os seios é o líder no Brasil, seguido da lipoaspiração e das plásticas de rosto. E não é que já existe até plástica íntima?

Penso que um dos papeis mais importantes do feminismo é levar as mulheres a aceitarem o próprio corpo e respeitarem a si mesmas. Nascemos um país miscigenado, nada mais natural que cada mulher possa ser bonita de sua maneira. Branca, Parda, Oriental, Negra, mulher-não-capa-de-revista!

Essa é uma tarefa árdua, principalmente quando percebemos que mesmo em manifestações incríveis como a Marcha das Vadias (não entende ou acha que as meninas que participam querem apenas mostrar os seios, leia esse texto explicativo), em que os protestos agem no sentido de liberar o corpo feminino dos padrões machistas, há quem veja as fotos para dizer que gorda não pode sair pelada, se sentir bem consigo mesma, que peito não pode ser caído, que mulher de verdade precisa ter seios como os de qualquer mulher-objeto por aí, etc.. E, muito embora façamos trabalho de formiguinha, ainda acredito que num futuro não tão distante, vamos chegar ao nível evolutivo de respeitar as diferenças e nos livrar dessa massificação horrível de peitos, bundas e cérebros. Que o feminismo seja usado menos para causar polêmica e mais para ajudar na construção de uma nova identidade feminina, livre de padrões doentios e limitadores.

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Acho engraçado: mostrar peito e bunda no carnaval e na playboy as mulheres podem, né?

Sessão Pipoca: Do Começo ao Fim

Consumida pelas séries e pelos livros, há tempos eu não reservava lugar para um bom filme! O da vez é um nacional: Do Começo ao Fim. Só consigo me perguntar por que demorei tanto para assisti-lo!

Simplesmente amei o filme, tanto que não quis que acabasse tão rápido! Cheio de atuações incríveis e atores que se encaixaram perfeitamente nos papéis. A fotografia e trilha sonora impecáveis fazem perfeitamente possível sentir a emoção dos personagens na própria pele. É, entretanto, um filme para quem é livre de preconceitos – ou quem sabe, para desfazer preconceitos – já que conta uma história de amor entre dois rapazes com uma abordagem bastante corajosa por se tratar de um filme nacional. Quem não viu, veja!

A felicidade é imoral

Érico Veríssimo já dizia: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”. E é verdade, vivemos à procura dela como uma forma de garantir a efetividade de nossas vidas. Seja quando estamos fazendo novos amigos, pensamos em que carreira seguir ou estamos à procura de um novo amor, nossa real motivação é a busca pela felicidade. Queremos ter a certeza de que não estamos desperdiçando o nosso tempo e nossa dedicação a troco de nada.

Mas parece que ser feliz é um tanto imoral.

Sempre nos disseram quando pequenos que não devemos nos achar superiores a ninguém, mas isso não significa que temos que ser piores do que todo mundo e deixar que nos tratem como se fôssemos inferiores em algum aspecto. Não somos e, aliás, quem é que delimita o padrão do que é ser melhor ou pior do que alguém? Está na hora de conhecer mais o mundo, olhar mais profundamente para os outros e, depois, voltar os olhos para nós mesmo e ver que há uma quantidade enorme de idiotas muito mais idiotas do que nós!

A felicidade parece imoral por que abdicamos dela toda vez que nos impedimentos de viver experiências além da inércia por medo de recomeços. Imoral porque temos medo de lutar por aquilo que queremos, e eu digo lutar de verdade, com força, garra, dedicação e crença de que vamos ter sucesso no final das contas. A felicidade parece distante e irreal demais para ser alcançada, mas talvez não o seja!

Então, que nos hesitemos quando for necessário confiar em nós mesmos e agir, nem que seja preciso abrir mão de uma porção de coisas. Que não deixemos que a nossa felicidade, presente ou futura, seja abalada por quem apenas nos suga ao invés de ajudar para que sejamos sempre mais alegres. Que chutemos a rotina toda vez que ela for mais do que podemos aguentar. Que possamos ir de bicicleta toda vez acordar no horário para não perder o ônibus pareça mais difícil do que levantar um saco de pedras. Não precisamos rir da desgraça alheia e nem falar mal dos outros para que possamos nos sentir melhores conosco. Mas podemos agradecer sim aos idiotas e ao sucesso que eles, inevitavelmente, nos proporcionam.