Feminismo

Algumas reflexões feministas

Antes de sequer pensar na palavra “feminista” como definição, eu já era bem feminista. Imaginava que, se aos 16 anos eu era madura o bastante para ter responsabilidades e rotinas de um adulto, como sair cedo, cumprir obrigações e voltar pra casa no horário de pico, poderia ser considerada madura o bastante também para ser dona de mim mesma, decidir sobre o meu corpo, sobre minhas escolhas afetivas e para ter o controle sobre minha sexualidade. E foi então que decidi encontrar um ginecologista que pudesse me deixar mais segura em relação a essas questões e descobri que muitas adolescentes não têm esse direito: ao invés de médicos, muitas vezes encontram fiscais de seus corpos. Foi o que aconteceu comigo.

Eu estava cansada de sofrer com cólicas infernais, com as alterações de humor que eu já não suportava, queria saber que tipo de distúrbio me afetava, se eu tinha algum problema, aprender a lidar com meu corpo em mudanças e, quem sabe, resolver as inseguranças que eu tinha por não saber como lidar com meu próprio corpo. Queria começar a tomar pílula anticoncepcional, já havia lido na internet sobre interromper o ciclo menstrual, mas todas as minhas expectativas foram frustradas quando entrei no consultório de uma médica de postura absolutamente machista e tradicionalista. Era a ginecologista que minha mãe frequentava há anos.

No consultório minha mãe teve que me autorizar a entrar sozinha na sala da médica. Eu tinha passado a noite anterior sem dormir, inclusive, listando tudo o que eu queria saber. E lá fui eu, confiante, apesar de bastante envergonhada, pensando que resolveria uma parte da minha vida naquele dia. Contei para a médica sobre as cólicas,o ciclo irregular, perguntei sobre a possibilidade de pílula anticoncepcional, porém tudo para a ~doutora~ não passava de frescura. Como eu, adolescente, poderia perder o tempo dela com minhas dúvidas idiotas? Eu nem dona do meu próprio corpo era. Tudo era normal: as cólicas e o ciclo irregular eram parte do fardo que eu deveria enfrentar até a menopausa porque Eva mordeu uma merda de uma maça. Eu deveria me conformar. Sexo na minha idade, então? Nem pensar. Minha sexualidade foi absolutamente tratada como tabu, como se sequer existisse.

Sozinha numa sala impessoal, com uma estranha tomando propriedade do meu corpo e me julgando, me senti coagida a mentir sobre diversos pontos e fui embora frustrada, me achando uma hipocondríaca e nunca mais voltei a médico nenhum até bastante tempo depois. Quando voltei, foi para descobrir que aquela médica me deu diagnósticos completamente equivocados.

O corpo feminino é extremamente complexo, todas as semanas passa por mudanças e isso acaba refletindo diretamente em nossa auto-estima e na maneira como lidamos com a nossa sexualidade. Naquela ocasião, fui embora me sentindo extremamente culpada e amedrontada. É assustador não saber o que se passa consigo e achar que você pode ser punida por exercer sua sexualidade. E pior não poder falar sobre virgindade, sobre sexo, com o profissional que deveria nos proporcionar segurança e informação a respeito desses tópicos, afinal, eles fazem parte do leque de assuntos mais relevantes durante a adolescência.

Por isso, hoje eu busco ao máximo lidar com profissionais que não me vejam como uma incubadora e não objetifiquem meu corpo e minha sexualidade. Infelizmente, a maioria dos profissionais da ginecologia não se diferenciam dessa doutora e de tantos médicos que frequentei e acabei sentindo que perdi meu tempo. E sei que, embora preservativos sejam distribuídos em qualquer UBS, a amplitude dos métodos contraceptivos é negada a muitas adolescentes simplesmente porque há péssimos profissionais responsáveis por lidar com a saúde íntima feminina. Há despreparo da família, dos médicos, das escolas e tudo contribui para que sejamos reféns de uma estrutura machista e arcaica. 

Se esses médicos tratam adolescentes como se elas não tivessem direito à sexualidade ou como se sua sexualidade fosse um erro porque precisam ir em busca de métodos contraceptivos ainda muito jovens ou porque engravidam, obviamente não serão bons profissionais para lidar com a saúde das mulheres adultas. Nas salas de parto ainda insistem em fazer episiotomia sem que a mulher ao menos possa consentir ou ser avisada e nos consultórios médicos acabamos entupidas de remédios sem saber as causas das mazelas que afligem nosso corpo. 

Somos conduzidas a procedimentos traumáticos, a cesarianas desnecessárias, a remédios que vão tratar sintomas e não causas, sem que nos seja oferecida qualquer alternativa. E, o mais preocupante, é que para que tenhamos acesso a profissionais qualificados prontamente, temos que desembolsar. E nunca sai barato o que deveria ser gratuito e de acesso a todas nós.

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Obrigada, patriarcado, por me fazer um pedaço de carne fritando a 37,8 graus!

São Paulo. Sexta-feira. 37,8 graus. Acordo cedo, brindando ao fim de mais uma semana e escolho um vestido laranja, com desenhos da Frida Kahlo de estampa. Visto, tomo café da manhã, escolho os sapatos correndo e enfrento mais um dia de suor no transporte público entulhado dessa cidade, rumo ao trabalho. No rosto, apenas um óculos de sol e uma maquiagem leve pra não derreter com o calor. Assim que entro no ônibus noto olhares que me desagradam. Desço do ônibus e preciso andar cerca de 300 m até o prédio onde trabalho, em plena Anhaia Mello. Na calçada, sou distração para os motoristas estacionados no congestionamento. Ando o mais rápido que posso. Na volta para casa, a mesma coisa. Entro no ônibus e tenho que ficar me esquivando dos olhares de um sujeito que dava um jeito de me incomodar mesmo eu estando de costas para ele e com fones de ouvido. A bolsa transversal cobrindo a bunda pra não ser tão encoxada.

Esse é um relato meu, falando sobre hoje, dia em que escolhi usar um vestido de tecido leve, depois de ter me arrependido de sair de calça e morrer de calor a semana inteira para não me estressar com esses olhares constrangedores, mas poderia ser uma história vivenciada por qualquer uma de nós. Como prova disso, bastou abrir o twitter para ler o seguinte relato:

Assedio 2 Assedio

Por diversas vezes me sinto repetitiva, chata, porém nem para todo mundo é óbvio que mulher também sente calor. E que se eu saio debaixo de um sol de 37,8 graus usando vestido é porque quero trabalhar mais confortável e não chegar ao trabalho com queda de pressão e transpirando as 8 da manhã. Pra muitos não é obvio que o fato de eu estar de vestido e levemente maquiada, usando um batom, não significa que quero chamar a atenção de algum homem.

E diante de situações como essas, tudo o que sinto é raiva, muita raiva mesmo e a sensação de impotência. O que fazer? Xingar o imbecil que te chama de gostosa na frente da portaria do seu trabalho e mostrar o dedo do meio, pra ouvir risadinhas dele em troca e ainda ficar parecendo uma maluca? Ou não fazer nada e ficar achando que dá brecha para o babaca acreditar que está te elogiando? E ainda se conformar com machista dizendo que se tomei cantada é culpa minha, que eu devia usar calça – ou quem sabe uma burca – para não sofrer esse tipo de violência? Passar calor e ainda me sentir feliz por culpabilizada ao sofrer assédio?

Assédio não é elogio, não é flerte. Assediar com olhares constrangedores, tirar foto por baixo da saia, chamar de gostosa na rua reduz a mulher a um mero ser sexual, com uma função apenas: servir de enfeite. Objeto que usa um vestido, que passa um batom para satisfazer o prazer masculino. Não devemos nos cobrir ou inventar ar condicionado acoplado à roupa, e aceitar ficar espremidas dentro de um vagão rosa para deixar de sofrer esse tipo de agressão. É preciso educar e repetir quantas vezes for necessário que a culpa por existir essa porção de abusadores nos transportes públicos, desde os que olham e dão risinhos, aos que violam de fato a nossa integridade, não é nossa culpa. É culpa do desrespeito e da cultura do estupro.

Minha sudorese não tem a ver com você, machistinha de merda! Meu calor não existe pra ser seu fetiche doente!

A (não) sexualidade da mulher

Sou feminista porque, dentre outros motivos, a vida inteira fui e vi mulheres sendo tratadas como seres sem sexualidade. Parece que foi ontem que eu, em meus quatorze ou quinze anos, frequentava a escola e me sentia excluída das aulas de biologia destinadas à uma ~tentativa~ de orientação sexual. Nessas aulas nunca  ouvi temas relacionados ao orgasmo feminino, à masturbação feminina ou nada que tivesse relação com a libido que as garotas presenciam na adolescência tanto quanto os garotos. O clima era tenso e a sensação era de que aprendíamos minimamente sobre sexo para temer sexo. Os garotos não. Eles podiam falar de bronha, era feita vista grossa quando eles tomavam viagra e ficavam exibindo seus membros sob a calça de tactel do uniforme escolar e levavam escondidas suas revistinhas pornográficas. Nunca ouvimos palestras sobre consentimento, mas nós, meninas, sempre ouvíamos instruções sobre o quão perigoso era andar desacompanhada, sobre o quão preocupante era nossa relação com álcool e todo aquele blá blá blá sobre culpabilização da vítima mulher que todo ser do sexo feminino conhece. Entre minhas amigas, a maioria de criação machista, um mero absorvente interno era tabu. Temia-se que um O.B. fizesse o hímen se romper, como se este, oras, fosse patrimônio do homem que “tiraria nossas virgindades”, afinal, a sexualidade feminina para poder se afirmar, precisa ser descoberta através de um homem. Ser lésbica, jamais. Siririca, nem pensar.

Ontem, durante meu momento de procrastinação, resolvi dar uma pesquisada nos temas que circulam sobre “Saúde Feminina” no Yahoo Respostas e acabei horrorizada com a quantidade de meninas sem qualquer orientação sobre temas que deveriam ser banais. Garotas de 13, 14, 18 anos assustadas com probleminhas femininos que facilmente seriam solucionados por uma visita de 15 minutos a um ginecologista e uma receita de pomada inofensiva e indolor. Ou que, às vezes, nem são problemas, são apenas nosso corpo. Deixam de ir ao médico por medo, vergonha, culpa, por temer represálias da mãe, por falta de autonomia sobre seus próprios corpos. São essas meninas que engravidam cedo por falta de orientação e prevenção adequada, ainda que tenham acesso à internet. Garotas que, como eu e muitas amigas, saíram horrorizadas da primeira visita ao ginecologista por termos nos sentido absolutamente constrangidas a responder perguntas quase inquisitórias como: você já fez sexo? usou preservativo?, nos fazendo sentir que transar fosse algo muito errado, como se valesse mais a nossa idade do que nossa maturidade para iniciar a vida sexual. Ignora-se a sexualidade feminina para evitar ter que lidar com ela. Se os médicos, que deveriam estar preparados para lidar com o quesito educação não estão, quem então estará?

Esses são apenas alguns exemplos do quanto à mulher é negado o direito de acesso ao próprio corpo, à sua autonomia e sexualidade. Acontece a negação desses direitos a cada vez que vamos ao médico por uma simples dor de garganta, pegamos a receita de um antibiótico, e o médico nem sequer nos informa que pode haver interação com a pílula anti-concepcional, porque nossa sexualidade é invisível e problema nosso se ocorrer uma gravidez indesejada: “na hora de dar foi bom, não? Se tivesse fechado as pernas!”. Acontece toda vez que abrimos uma revista destinada ao público feminino e fala-se tudo sobre sexo menos o primordial: que é impossível aproveitar o sexo sem antes aproveitar a si mesma e sempre que vemos um pornô e foi desenvolvido para o público masculino. Brochamos. Ocorre sempre que mulheres que não se adaptam à anti-concepcionais hormonais procuram ajuda médica para encontrar um outro método eficaz e não o conseguem porque os valores são inacessíveis e o Estado não os provê. A mulher não tem sexualidade para a indústria pornográfica e nem para o Estado.

Precisamos romper essa redoma de silêncio. Dialogar com as amigas, fazer verdadeiras excursões às Sex Shop espalhadas por aí sem medo de sermos felizes, descobrir a literatura erótica esquecida nas estantes das livrarias É necessário cessar a invisibilidade que se inicia no momento que temos o nosso lado mais genuíno apagado por uma cultura machista. Se, por um lado, somos vítimas desse tipo de construção, por outro, podemos e devemos utilizá-la a nosso favor como um meio de empoderamento da mulher e do ~universo feminino~. Escrevi esse texto por mais Oficinas de Siririca acontecendo por aí e pra que, em um futuro não tão distante, nenhuma mulher sofra slut-shaming por usar um O.B. ou tenha que se ocupar com os fiscais de sua (não) sexualidade.

 

 

 

A mulher e o medo

Em 1949, ano em que foi lançado o livro O Segundo Sexo, uma célebre frase transformaria sua autora, Simone de Beauvoir, em um ícone do feminismo: “Não se nasce mulher, torna-se”. Com essa frase Simone, filósofa existencialista, quebrava o estigma de que as mulheres tinham um destino biológico já formulado, tirando-as dos papéis socialmente estabelecidos para elas, que eram obrigatoriamente o casamento e a criação dos filhos, ou então, o magistério. Em sua obra, a autora se propôs a traduzir o que significava ser mulher, dizendo que “A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”.

Em termos práticos, o que Simone de Beauvoir queria dizer é que desde os primeiros passos a mulher recebe uma série de restrições e uma educação que a coloca em desigualdade para com os homens. Enquanto as mulheres crescem procurando se adequar à vaidade deles para que possam encontrar bons maridos e, assim, adquirir uma posição em seu universo extensamente mais interessante, os homens estão livres para alçar voos maiores, pois já são os donos desse espaço que elas tanto almejam. Enquanto os homens desperdiçam seu tempo livre como bem entendem, as mulheres estão ao lado das mães aprendendo as tarefas do lar, como pregar botões e seduzir seu homem pelo estômago.

Embora muitas mudanças culturais e comportamentais tenham ocorrido nas últimas seis décadas, a obra de Beauvoir ainda continua clara e atual, nos mostrando a história de opressão que a mulher sofreu e ainda sofre. E mesmo com tantos avanços, não são poucos os exemplos dessa herança paternalista e machista que carregamos. A mulher convive diariamente com medo e com a dualidade de escolher viver a sua vida e fazer suas próprias escolhas, assumindo todas as consequências cruéis que daí podem surgir, ou seguir todas as regras e ser recompensada por fazer aquilo tudo que se espera que uma mulher faça. Se assumir como ser humano dotado de imperfeições e desejos, muitas vezes, requer que a mulher dê sua cara para bater, que tenha coragem, que tenha discernimento para não sucumbir às diversas agressões que sofrem, que vão desde insultos não muito criativos à surras para que se ponham em seu devido lugar. Atire a primeira pedra a mulher que nunca foi chamada de “vadia”, “puta” ou adjetivo pior e aquela que nunca ouviu entre as amigas histórias de agressões que foram parar numa delegacia, num hospital ou numa cova. É só abrir o jornal.

Tudo isso me faz questionar porque tem sido tão difícil livrar as mulheres dessa carga cultural, porque ainda precisamos do feminismo e porque as lutas que vivenciamos parecem infinitas. Não posso culpar as mulheres pela opressão que elas sofrem, assim como seria inviável culpar os negros pelo seu passado de escravidão e os judeus por terem sido vítimas do holocausto. As mulheres, assim como outras minorias, tornaram-se, em grande parte, machistas porque acreditam nas enormes recompensas de se apropriarem do discurso do opressor, porque não têm parâmetros para conduzir sua própria liberdade.

A liberdade da mulher é uma eterna desconstruções de padrões e conceitos que foram firmados por uma vida inteira.A liberdade da mulher passa pelo questionamento do padrão de beleza que as condiciona, pelo fim da liberdade sexual somente quando convém aos interesses masculinos, pelo exercício da empatia e da sororidade com outras mulheres. E até a liberdade, há um longo e árduo caminho.

Então você quer dizer que machismo é ruim e feminismo é bom?

Desde Felipe Neto e PC Siqueira, os vlogs viraram uma mania no youtube. Até eu gostaria de ter um, e penso muito nisso, mas minha câmera não é tão boa e eu morro de preguiça de editar filmagens, então vou continuar com meu blog! Hoje assisti a dois vídeos, um do canal do Clarion De Laffalot, e outro no canal do Felipe Buarque, ambos fazendo críticas ao feminismo, o que me deixa muito satisfeita, na verdade, porque acho legal ver homens que se declaram não machistas tentando levantar argumentos e enriquecendo as discussões.

Os pontos que mais achei legais para levantar discussões, foram os seguintes colocados:

  • “O feminismo tem sido tratado como uma religião. As feministas o tornaram um assunto blindado, acham que ele é imune à críticas (…) o feminismo tem deixado de lado a ideia de lutar por igualdade e vem lutando por privilégios.”
  • “As leis brasileiras sempre discriminam em função da mulher: aposentadoria, proteção ao mercado de trabalho da mulher, separação, guarda dos filhos, licença maternidade.”
  • “As mulheres, em média, são condenadas a penas 40% menores do que os homens, quando cometem o mesmo crime que eles.”
  • “Com as conquistas já garantidas nas leis, as mulheres não precisam de novas leis feministas, e criar novas leis seria conceder privilégios a elas. Porém ainda são válidas mudanças promovidas na base da educação e na conscientização das pessoas.”
  • “As feministas não reivindicam o fim do alistamento obrigatório para os homens nem a igualdade na aposentadoria por tempo de contribuição (30 mulher e 35 homem) ou idade (60 mulher e 65 homem).”
  • “As mulheres vivem mais do que os homens, em média 7 anos: contribuem menos e vivem mais, desfrutando do INSS mais do que eles, que tem menos tempo livre para desfrutar de seu esforço.”
  • “As feministas são chatas que gostam de ficar discutindo etimologia, ou seja, acham que tudo é uma forma de discriminação.”
  • “As feministas gostam de patrulhar as roupas das mulheres, fazendo agora o papel que antes era dos homens, ou seja, estão apenas trocando o opressor e mantendo a opressão. Acham que se a mulher está usando roupas curtas demais, é um absurdo pois está se rendendo à sociedade sexistas e acham outro absurdo mulheres com roupas demais, pois dizem que estão sendo oprimidas pela sociedade machista.”

Esses foram alguns argumentos, que reuni resumidamente e que você pode entender melhor o contexto assistindo aos vídeos, e achei mais interessantes para desfazer algumas confusões acerca do assunto.

Acho muito engraçado que em grande parte desses vídeos fazendo críticas ao feminismo, os autores tentam provar por a mais b que os homens são tão ou mais discriminados que as mulheres, buscando colocar em xeque a importância do feminismo e invalidar sua luta porque eles acreditam que tudo não passa de ociosidade de mulher que não tem louça na pia para lavar. E, curiosamente, esses rapazes não se consideram machistas, são apenas bons homens esclarecidos, cof cof! Para eles, machismo é só quando uma mulher apanha do marido, sofre um estupro e é chamada de puta. O resto, é uma invenção do feminismo para acabar com a significância masculina.

Primeiramente, o que a maioria das pessoas não entende é que a luta contra o patriarcado beneficia a todos, tanto homens quanto mulheres. Ela é a base do feminismo, o que leva as pessoas a definirem, por isso, que ele é uma ideologia em favor da igualdade e não quer ostentar nenhum privilégio. Como eu já disse no meu texto de ontem, a extinção do patriarcado conseqüentemente levaria à queda dos papéis de gênero que promovem a desigualdade entre homens e mulheres.

Entretanto, é muito óbvio que o feminismo é dotado de imperfeições e discordâncias entre as próprias feministas, assim como acontece com todo e qualquer movimento de minorias políticas em que não há nenhuma centralização, ou seja, uma carteirinha e um conjunto de normas que incluam ou não pessoas em determinado âmbito político. Além disso, sabemos que houve muita confusão entre feminismo, igualdade e misandria. Algumas mulheres que se dizem feministas acreditam sim que devemos inverter a lógica da opressão e submeter os homens aos interesses femininos. Não preciso nem falar da desonestidade intelectual daqueles que afirmam que, porque existem loucas pregando o ódio, todas as feministas são loucas que pregam o ódio e fazem reivindicações furadas. Seria o mesmo que dizer que porque alguns homens estupram, todos os homens são estupradores em potencial.

Acho engraçado quando o Clarion diz que as leis favorecem as mulheres: me parece um tanto natural que em uma sociedade patriarcal onde as leis foram fundadas em cima de papéis de gênero muito bem estabelecidos, algumas leis pareçam beneficiar as mulheres, como por exemplo o fato de a mulher se aposentar mais cedo e com menor tempo de contribuição. Haja vista que na maioria dos casos as mulheres que trabalham enfrentam uma jornada dupla ou tripla de serviço, ao fazer a maior parte do serviço doméstico (foi aumentado em apenas 8 minutos o tempo que os homens dispensam fazendo essas tarefas), tenho a impressão que a redução no tempo de contribuição e idade para a mulher se aposentar seja a maneira que o legislador encontrou de criar alguma igualdade. Aprendi que isonomia no Direito significa “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de duas desigualdades”.

Porém, a suposta desigualdade na questão da aposentadoria tende a mudar ao passo em que o homem tenha a mesma responsabilidade que a mulher sobre as tarefas do lar, o cuidado com os filhos do casal e esta, desempenhe com mais facilidade o papel de chefe da família, assim como desigualdade a falácia do listamento militar obrigatório, que a Lola abordou muito bem nesse post.

E vou ainda mais fundo dizendo que são necessárias leis novas, mais eficientes e adequadas à realidade da mulher que se torna mãe hoje em dia. Precisamos sim de leis que aumentem o tempo de licença maternidade e ajudem a mulher a retornar ao mercado de trabalho após a maternidade, que façam força frente à cobrança desumana que a mulher que se torna mãe sofre da sociedade, que exige que ela seja bem sucedida, independente emocional e financeiramente, tenha tempo para estar impecável e eduque muito bem seus filhos.Não vivemos mais nos tempos de nossas mães e avós, onde leis mais eficientes não se faziam tão urgentes. Hoje, as mulheres que têm filhos não trocam, mas acumulam funções e papéis.

Além de proteção à maternidade, licença maternidade com maior duração, leis onde o Estado ampare a mulher que deseja ser mãe e facilite sua vida, também precisamos de leis que descriminalizem o aborto e cuidem do planejamento familiar para que as mulheres tenham como escolher se querem ou não ter filhos. E nada disso se trata de vitimização, de colocar a mulher em uma posição de fragilidade só quando nos convém, mas de lutar para que tenhamos um retorno do Estado proporcional à contribuição que nós mulheres damos, literalmente povoando o mundo com nossos úteros e amamentando a humanidade, afinal, todo mundo nasceu de alguma mulher e a sociedade precisa de pessoas para se manter.

O feminismo não é uma ideologia perfeita que está imune à críticas, pelo contrário, ainda precisa crescer muito e buscar soluções mais eficientes para os problemas que necessita enfrentar. Dito isso tudo acima, sugiro que os que tentam invalidar as importância do movimento, tentando mostrar o quanto a sociedade é injusta com homens, branços, héteros, cissexuais e de classe média, procurem entender melhor as questões que se dispõem a discutir e venham dotados de argumentos realmente válidos e não falácias e desonestidade intelectual.

Enquanto feminista, quero liberdade. Quero que as mulheres possam se vestir da forma que acharem melhor, dependendo unicamente de sua consciência e livre arbítrio, sem a influência de padrões machistas. Desejo que os homens eliminem os tabus, e passem a fazer exames preventivos e a cuidar melhor de sua saúde para que sua expectativa de vida aumente, além de torcer para que a violência entre os jovens, homens, negros e pobres, diminua que haja uma melhora na qualidade de vida masculina! A patrulha moralista pelas roupas, a violência, a falta de incentivo à saúde dos homens, são invenções do patriarcado, não nossas. Nós feministas, lutamos exatamente contra isso!

Lugar de mulher não é na cozinha… é onde ela quiser!

Ontem foi um daqueles dias complicados em que tive certeza que é obrigação de qualquer pessoa com o mínimo de esclarecimento e coragem, ser feminista e lutar por mudanças. Em um almoço de família recebi alguns conselhos de grego dizendo sobre o quanto a mulher precisa saber cozinhar (o que é melhor do que ter uma boa formação acadêmica ou uma bela carreira), arrumar a casa e não pode ser preguiçosa nem desrespeitar o marido para não lhe dar o direito de agressão, além do quanto é feio que saia sozinha, esteja acompanhada apenas de amigos do sexo masculino ou chegue tarde em casa  – o que além de condenável é perigoso. Nas entrelinhas do assunto, percebi que ainda existe o pensamento de que a mulher não gosta de sexo: para elas o sexo é um limitador de sua honra, motivo de vergonha enquanto, para eles, é uma vitória conquistada e motivo de muito orgulho. Ou seja, como mulher, eu teria a obrigação de me resguardar e me dar o respeito!

Não preciso dizer que fiquei – e ainda estou – horrorizada, já que eu acreditava que o machismo não me atingia de maneira tão contundente. Mas ouvir essas ideias de pessoas da minha própria família me fez imaginar que provavelmente me consideram marginal por eu ter 20 anos, não namorar ninguém e nem estar empolgada com a ideia de filhos e casamento pelos próximos cinco anos pelo menos, e me deu também mais vontade de falar sobre o assunto, pensar em soluções e trabalhar mais nessa coisa de “ativismo digital”. O machismo e o patriarcalismo não fazem mais nenhum sentido em tempos nos quais as mulheres não dependem mais dos homens, sendo padrões de comportamento prejudiciais para ambos os sexos.

De acordo com a psicanalista e escritora Regina Navarro, em entrevista ao Ig, o patriarcado “instaurou a propriedade privada e o homem tornou-se obcecado pela paternidade para não deixar herança para o filho de outro. Nisso, a mulher foi aprisionada de maneira terrível”. Entretanto, segundo a autora, esse sistema tem perdido sua força e razão de existência desde a invenção da pílula anti-concepcional: “Antigamente, a mulher tinha quantos filhos o homem quisesse, passava a vida toda amamentando. A pílula desassociou o sexo da criação e a mulher se livrou da gravidez indesejada. No patriarcado, os papéis sempre foram bem definidos. Aos homens: força, sucesso, poder e coragem. Às mulheres: ser meiga, gentil, suave, submissa e cordata. Com o desmoronamento do sistema patriarcal causado pela pílula, a fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo.”.

Com tantas mudanças, é preciso lutar por sociedade igualitária, que dê assistência a todos, visto que não faz nenhum sentido nos prendermos a tradições culturais que não abrangem a totalidade dos fatos e apenas nos levam a tapar o sol com a peneira ao invés de permitir que encontremos soluções para as questões que nos cercam, como diversidade e liberdade sexual, poli amor  relacionamentos abertos, famílias não convencionais, etc..

Antigamente as mulheres se casavam porque eram obrigadas, hoje, compreendemos que nem todas as pessoas veem no casamento um sonho de vida. Muitos casais optam por não ter filhos e alguns, ainda que tenham possibilidade de engravidar, recorrem à adoção, e não há nada de errado com isso. As famílias não são mais constituídas por uma mulher, um homem e seus filhos. Precisamos nos livrar da herança machista e ceifadora que nos foi deixada pelo pensamento judaico-cristão, que com a invenção do pecado e da castidade, sem dúvida alguma, criou o meio mais eficiente de controle social: a patrulha da sexualidade humana.

Não precisamos mais disso, podemos ser livres para escolher o que fazer com nossas vidas, assim permitindo que o outro possa ser feliz a seu modo também, não importa se solteiro, homossexual ou casado há 30 anos com uma pessoa sem nunca tê-la traído.

Tenho 20 anos e muito a viver até resolver me casar um dia, caso dê vontade. Enquanto isso, quero me dedicar a bons livros, boas festas e amigos nos quais confio. Quem sabe passar um tempo fora do Brasil, conhecendo e me enriquecendo pelo mundo… Quero escrever um livro (que está na fase do rascunho), plantar uma árvore, aprender falar uma terceira língua e depois disso, eu talvez pense nos filhos. Será que ainda vão me discriminar muito por eu achar uma baboseira essa ilusão de amor romântico?

Afinal, o que é ser feminista?

Defender o feminismo se confunde o tempo todo com o ato de declarar uma guerra, afinal, como são chatas e extremistas essas feministas! Não entendem uma piada! Quem elas pensam que são para acharem que podem dar sua opinião sem serem questionadas? E compreendo a dificuldade que as pessoas têm de entender o feminismo porque não existe uma lista de atributos que enquadram ou excluem alguém do rótulo de feminista. Além disso, enquanto vindas de pessoas diferentes, com vidas e interesses muitas vezes opostos, as reivindicações feministas variam muito. A prova disso é a existência de vertentes totalmente contrárias dentro do feminismo que nunca entrarão em acordo.

O feminismo é uma luta de gênero que age pela igualdade, pelo fim da discriminação sexual, pela equidade de direitos, o que é completamente diferente de lutar para extinguir direitos alheios ou querer privilégios! Mas as pessoas distorcem, infelizmente. E o caso mais batido – vou começar a chover no molhado aqui – é quando se referem à Marcha das Vadias! Não sei qual o motivo de tamanha dificuldade para entender, talvez a ironia do termo “vadia” para nomear o movimento e a preguiça de dar uma boa pesquisada antes de sair afirmando coisas, sejam alguns dos responsáveis por tantas más interpretações acerca do protesto.

Usar o termo vadia de forma irônica, como foi feito na marcha, é apenas um meio de expressar que nenhuma mulher deve ser discriminada por querer ser livre. Uma forma de expressar tamanha frustração por ainda hoje termos uma convenção social que faz acreditar que mulher tem que casar, cuidar de filho, que quando dá opinião demais é porque está sem louça suja na pia! Se fugir da regra do que é uma mulher respeitosa, decente e para casar, é obrigatoriamente taxada de puta! E pra afirmar que se nos chamam de vadias porque não agimos conforme as regras, vamos continuar sendo vadias e isso não nos tira o direito de sermos respeitadas.

Mas aí afirmam: fazem uma Marcha das Vadias para dizer que querem ser respeitadas pelo fato de quererem “dar” pra todo mundo, sair pegando geral e mostrar os peitos na rua! E quando afirmo que as pessoas não se coçam pra fazer uma pesquisa sobre o que motiva esse tipo de protesto, estou sendo uma feminista chata e hipócrita. Primeiro: se uma mulher quer fazer sexo com 902802 homens, problema dela! Segundo: se fosse um homem que quisesse transar com 1 milhão de mulheres e conseguisse, ia ter quem aplaudisse. Querem ditar regra sobre o que as mulheres podem ou não podem fazer com o próprio corpo, e elas que não questionem, claro! Mas, sinceramente, apenas uma pessoa muito babaca vai às ruas lutando exclusivamente para ser respeitada por “pegar geral”, né? Falta o mínimo de bom-senso aos que pensam e afirmam que essa é a reivindicação mor do feminismo!

O real motivo das mulheres estarem saindo às ruas, muitas mostrando sim os seios, foi uma forma de se posicionarem contra a erotização do corpo feminino. A Marcha das Vadias surgiu após um segurança canadense dar uma palestra em uma universidade afirmando que para evitar que os estupros aconteçam as mulheres precisam parar de se vestir como vadias (sluts – daí o nome original “Slut Walk”) – eu avisei que ia chover no molhado! Ou seja, é pertinente se manifestar contra a erotização do corpo feminino (considero aqui a possibilidade de haver quem não concorda com a forma utilizada para protestar, mas em um país onde sair pelada no carnaval e na playboy são coisas hiper aceitas, acho de um moralismo e de uma hipocrisia sem tamanho não poder ficar pelada para protestar), principalmente em uma sociedade em que temos o costume de atribuir a culpa de um estupro sempre à vítima. Não é raro ouvir que se uma mulher estava bêbada, vestindo pouca roupa, andando sozinha durante a noite “estava pedindo para ser estuprada” ou “facilitou”! E afirmar isso reduz a culpa do estuprador! Qual a menina que nunca se sentiu mal por usar uma roupa curta, ter sido cantada na rua das formas mais ridículas possíveis e ficou achando que valia a pena passar um pouco mais de calor? Protestar mostrando os seios, usando roupas curtas, é uma maneira de dizer que a forma como nos vestimos ou nossa conduta não dá a ninguém o direito de invadir o nosso corpo! Usar roupas curtas ou não, não faz ninguém menos merecedor de respeito!

Eu estaria muito satisfeita se as confusões com as motivações por trás da Marcha das Vadias fossem a única causa que gera tanto conflito entre as feministas e o resto do mundo. Mas não. Ainda há quem afirme que as feministas são chatas por fazerem tempestade em copo d’água; essas pessoas devem ignorar todas as estatísticas já que acham que a existência de uma lei que puna a violência contra a mulher é garantia de que o problema está com seus dias contados e se esquecem de que nessa questão há um problema social muito grave: a crença de que a mulher pertence ao homem e deve respeitá-lo sob qualquer outro aspecto! Há quem afirme que a culpa por as mulheres estarem tão insatisfeitas com a tripla jornada de trabalho seja do feminismo; essas mesmas pessoas também são incapazes de questionar os padrões que eximem o homem da responsabilidade de cuidar da casa e dos filhos. Fora os inúmeros lugares comuns que vivem afirmando que mulher não sabe dirigir, que mulher “tem que ter onde pegar”, que homem depende da mulher por ser incapaz de lavar uma louça, fazer comida e que mulher é que nasceu pra isso. A opinião de uma mulher é chamada de TPM! No fim, acabo concluindo que essas pessoas não fazem ideia do quão reacionárias e levianas acabam sendo!

Não há uma cartilha que exponha todas as causas que fazem parte do rol de reivindicações feministas ou que dite quais os comportamentos a serem seguidos pelas feministas. Mas ser feminista é questionar padrões, estruturas e verdades aparentemente inquestionáveis. As feministas não são gordas ogras e peludas, mal amadas que só conseguem homens sendo vulgares objetos sexuais, ou que obrigatoriamente são lésbicas e pior, mulheres de modo geral, que odeiam os homens (a isso damos o nome de misandria). Não é preciso abolir a depilação e nem a chapinha ou crucificar a instituição do casamento para se enquadrar no feminismo, apenas respeitar sua essência pessoal a ponto de não ser escravizado por padrões inatingíveis da perfeição feminina.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” Simone de Beauvoir

Tirem seus padrões do meu corpo

De tempos em tempos surge alguma polêmica envolvendo machismo e feminismo que gera discussões imensas na internet. As meninas acusam os rapazes de fazerem piadinhas infames reduzindo sua condição de mulheres e dizem que eles usam a palavra “mulherzinha” como xingamento, tratando-se de ofensa ao gênero. Do outro lado, os rapazes afirmam que a graça do humor está no politicamente incorreto e que isso não é machismo coisíssima nenhuma. Basta uma pronunciação em 140 caracteres e a guerra está declarada!

Embora muita gente tente tapar o sol com a peneira, é inegável que vivemos em uma sociedade machista, que cultua o estupro (veja definição de estupro aqui se você acha exagero) e ficar me atendo a isso só levaria esse texto a ser idêntico aos milhares de textos feministas que circulam por aí – não os desmerecendo. A questão é: será que temos dimensão do quanto esse problema nos afeta?

Hoje, para ser socialmente aceita, a mulher precisa ter peito, bunda, cintura esbelta e fazer depilação à cera! Coitada da que não estiver em dia com a depilação, afinal, que nojo ter pelos! Se outrora os padrões eram outros e permitia-se alguns quilos e pelos a mais, a evolução da moda e dos padrões está nos levando a um retrocesso enorme chamado de caretice! É feio ser diferente! Estamos fabricando garotas cada vez mais inseguras que baseiam suas vidas e auto-estima nesses padrões e, por conta deles, acabam levadas a quadros depressivos, distúrbios alimentares e, muitas vezes, à morte! Mulheres que perdem um dos bens mais precisos que poderiam ter: o amor próprio, e são levadas diariamente a se sentirem péssimas por não se parecerem com beldades, com quilos de photoshop nas nádegas, ditando regras em capas de revistas feitas para satisfazer o gosto masculino.

Elas fazem de tudo para se adequar, de dietas malucas a procedimentos cirúrgicos dolorosíssimos. Dentre as cirurgias plásticas que mais estão em alta, o implante de próteses de silicone para os seios é o líder no Brasil, seguido da lipoaspiração e das plásticas de rosto. E não é que já existe até plástica íntima?

Penso que um dos papeis mais importantes do feminismo é levar as mulheres a aceitarem o próprio corpo e respeitarem a si mesmas. Nascemos um país miscigenado, nada mais natural que cada mulher possa ser bonita de sua maneira. Branca, Parda, Oriental, Negra, mulher-não-capa-de-revista!

Essa é uma tarefa árdua, principalmente quando percebemos que mesmo em manifestações incríveis como a Marcha das Vadias (não entende ou acha que as meninas que participam querem apenas mostrar os seios, leia esse texto explicativo), em que os protestos agem no sentido de liberar o corpo feminino dos padrões machistas, há quem veja as fotos para dizer que gorda não pode sair pelada, se sentir bem consigo mesma, que peito não pode ser caído, que mulher de verdade precisa ter seios como os de qualquer mulher-objeto por aí, etc.. E, muito embora façamos trabalho de formiguinha, ainda acredito que num futuro não tão distante, vamos chegar ao nível evolutivo de respeitar as diferenças e nos livrar dessa massificação horrível de peitos, bundas e cérebros. Que o feminismo seja usado menos para causar polêmica e mais para ajudar na construção de uma nova identidade feminina, livre de padrões doentios e limitadores.

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Acho engraçado: mostrar peito e bunda no carnaval e na playboy as mulheres podem, né?

Dia da Mulher: “Igualdade a gente conversa quando for de verdade”.

O Dia Internacional da Mulher teve início em 8 de março de 1917 na Rússia, com greves feitas por operárias das grandes fábricas têxteis contra as más condições de trabalho, a fome, contra o czar Nicolau II e contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial,  tendo sido o estopim para o início da Revolução Russa de 1917. Na Europa e nos EUA, porém, a ideia de criar um dia internacional para a mulher já era mais antiga, e além das reivindicações soviéticas, tinha também intenção de lutar pelo direito ao voto, pelo fim dos casamentos arranjados e a propriedade que os maridos tinham sobre suas esposas.

Depois de ficar por muito tempo esquecida, foi em 1960, com o nascimento do movimento feminista, ou segunda onda do movimento feminista, que a data passou a ser lembrada e adquiriu maior importância, ganhando um sentido mais político na luta contra a  desigualdade e o fim da discriminação. Um marco também importante  para o movimento feminista, foi a obra da escritora e filosofa francesa Simone de Beauvoir, chamada O Segundo Sexo, de 1949. Tendo dois volumes “Fatos e Mitos” e “A experiência vivida”, O Segundo Sexo defende a teoria existencialista de Sartre que diz “A existência precede a essência”, ou seja, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Para isso, Simone de Beauvoir argumenta que as mulheres sempre receberam uma educação e um tratamento de inferioridade em relação aos homens: “A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.”, e que para reverter esse fato, a mulher deveria deixar de ter no homem o seu modelo e aspiração.

Posteriormente a todos esses fatos importantes que trouxeram diversas conquistas para as mulheres e fizeram com que o dia 8 de março tivesse uma grande importância histórica e social, o Dia Internacional da Mulher adquiriu um caráter completamente festivo e comercial, em detrimento das lutas sociais e discussões que ainda precisam ser feitas em relação aos direitos da mulher e sua função na sociedade moderna.

Apesar de todas as conquistas, ainda vivemos numa sociedade machista e patriarcal, onde paradoxalmente a mulher vem ganhando destaque em seu trabalho e carreira, mas ainda que desempenhe a mesma função de homens, recebe menos que eles e, em casa, sofre um acúmulo de tarefas. Além disso, o Brasil está entre os 25 países que mais assassinam mulheres, e isso significa que 66 mil são assassinadas a cada ano, sendo 17% vítimas de homicídios intencionais, e nisso podemos incluir violência doméstica e estupro. São números que chocam não só pelos fatos que revelam, mas por fazer perceber que ainda estamos muito longe de reverter a situação a favor de um país mais igualitário, onde as mulheres não tenham que vestir burca para serem respeitadas e muito menos serem tratadas como propriedade dos homens a ponto de serem violentadas. E principalmente um país onde as mesmas tenham informação, para que dessa forma, possam entender, cuidar e decidir sobre seu próprio corpo.

Discutir soluções para esses problemas é muito mais importante do que qualquer “parabéns” que possa ser dado a uma mulher. Para demonstrar isso, em protesto às comemorações do dia 8 de março, a cantora Karina Buhr, ao lado de Naná Rizzini,  Mariah Teixeira, Marina Gasolina e do músico Adriano Cintra, resolveu lançar uma campanha de forma muito bem humorada na internet. A ideia era gerar questionamentos e fazer pensar sobre o machismo e a hipocrisia em torno dessa data, e para isso, os músicos aparecem de topless num ensaio com textos provocantes: “Seu amigo fica sem blusa e você não”, “Tem vergonha de farol aceso na rua”, entre outras. Em entrevista à Revista TPM, Karina Buhr afirmou que o protesto era uma forma de “Lembrar, relembrar e frisar sempre que isso de igualdade entre homens e mulheres ainda tá bem longe de acontecer. Que o Brasil é um país muito machista (os homens e as mulheres), que tem um discurso lindo a respeito da burca alheia, mas não olha pro próprio pé. E mostrar que mulher não precisa ter vergonha do corpo, de se esconder o tempo todo pra evitar piadas escrotas e violência. E, afinal, se um amigo seu pode tirar a blusa, você não poderia por que?”.

Outra iniciativa importante e bastante engraçada foi a Marcha das Vadias, onde mulheres saíram às ruas de vários países, inclusive em passeata na Avenida Paulista, com roupas provocantes em forma de se opor à afirmação de um policial que afirmou durante uma palestra em Toronto, no Canadá, que as mulheres deveriam parar de usar roupas de vadias para evitar estupros. Ficam as dicas e a reflexão. Mais do que poemas e flores, precisamos de discussões e conscientização para celebrar o Dia Internacional da Mulher e isso não precisa ser necessariamente feito de uma maneira chata e massante. 

Dicas relacionadas:

Texto sobre o aborto e a assistência às mães, de Juana Diniz, aqui.

Ensaio de Karina Buhr, aqui.

Fotos da Marcha das Vadias em SP, aqui.

E para fechar, Desconstruindo Amélia.

Segundo Pitty, a música surgiu da ideia de investigar e entender “como seria a Amélia do século XXI ? Depois de queimar o sutiã , obter direito ao voto e passar a exercer cargos de comando em poderosas empresas, como sentem-se hoje as mulheres? Aliviadas por terem mais autonomia ou sobrecarregadas porque além dos afazeres domésticos acumulam a função de sustentar uma casa? Pesquisei , e não pude deixar de (re) ler O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir; obra esta que me ajudou a clarear os pensamentos e a trazer para a música a  seguinte frase: “Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também.”  A Amélia de Ataulfo e Mario Lago mudou. Aquela que “era mulher de verdade e que não tinha a menor vaidade” hoje se desdobra entre a delicadeza de saber preparar uma refeição e a garra de acordar cedo pra ir trabalhar e tomar decisões. E, claro, se por acaso der pra fazer as unhas no intervalo do almoço, melhor ainda.”

Assunto de Meninas: O Tabu do Sexo.

Essa madrugada uma amiga, ainda dos tempos de escola, veio dormir em casa e ficamos lembrando de professores e colegas antigos, de como nós tivemos uma fase de odiar o colégio e muitas pessoas com as quais tínhamos uma convivência forçada. A escola tem um papel fundamental na formação de indivíduos, e não falo só da educação que está nos livros, mas de um processo muito mais profundo e humano que educar consiste. É engraçado olhar pra trás e ver como era nossa vida há 4 anos, e como fomos educadas para sermos meninas recatadas que abaixam a cabeça para tudo e não tem direito a questionar qualquer tipo de regra.

Me veio à memória um episódio em que eu quase tomei uma advertência porque eu estava desesperada para ir ao banheiro e, mesmo depois de terminar a lição, a professora simplesmente decidiu que eu, com uns 14 anos então, não poderia de forma nenhuma sair da sala e deveria esperar 40 minutos até a aula acabar. Coca-cola é diurética e, pra que nenhum acidente acontecesse, saí da sala sem permissão e fui ao banheiro.Voltei pra sala de aula e encontrei a professora  possessa porque, segundo ela,  minha atitude era muito subversiva! Foi uma confusão imensa e fui levada à direção para assinar uma advertência (?)!  Oi? Posso ter necessidades íntimas? Sem ter que me constranger perante a minha turma inteira e virar lenda na escola de preferência? Não. Fui obrigada a discutir com a professora na frente da classe inteira e soltar: e seu eu estivesse menstruada, a senhora ia me emprestar suas calças pra assistir o restante das aulas e voltar para casa?

Até hoje me lembrar desse momento me trás um pouco de constrangimento e principalmente indignação. Só mostra como alguns professores colocam sua ordem à frente do real motivo de estarem numa sala de aula e como muitos colégios não têm o mínimo preparo para lidar com qualquer tabu, ou situação limite e, por isso, acabam distanciando os alunos da realidade e os dando o sentimento de culpa, ao invés de segurança e sabedoria para lidar com alguns conflitos que surgem naturalmente na adolescência. Me lembro de ter uma momento nas aulas de biologia onde falávamos de sexo e escrevíamos perguntas anônimas que a professora respondia. Todas as dúvidas que fugiam da “normalidade” eram descartadas pela professora. Nada era abordado no sentido de sexo para além da reprodução e a imagem que tínhamos era que qualquer forma de desejo sexual era errado, sujo. Não se podia sentir vontade. Os meninos que perguntavam sobre masturbação eram respondidos, e olha, que glória era ser homem e ter o direito a ter orgasmos. Lembro que para as meninas masturbação era um assunto quase proibido e, se chegava a alguma discussão, era tratado como algo nojento, errado, sujo, mesmo que muitas ali tivessem sim suas experiências com o próprio corpo. A diferença era que para os meninos era legal, para as meninas era errado e ponto final.

Também não se falava de homossexualidade ou outras formas de família que fugissem do padrão pai, mãe e irmãos. Tudo o que fugisse ao padrão era proibido e logo não era abordado. Sorte minha e de algumas meninas que sempre tivemos nossas más influências que nos livravam desse conceito cristão arcaico que só faz reprimir a sexualidade da mulher. Simone de Beauvoir não poderia ser mais clara em sua afirmação: “Não se nasce mulher: torna-se!”. Talvez a escola não tenha mesmo o papel de tratar sobre sexo, pois é de fato um dever dos pais. Mas fujamos à hipocrisia desse tipo de afirmação que desconsidera que é muito raro que pais e filhos se sintam a vontade para tratar do assunto e acabam o ignorando. O ambiente escolar seria então o lugar secundário para tratar da sexualidade e o tema deveria ser abordado por profissionais capacitados e bem preparados para lidar com jovens e não com professores de Biologia, já que esse é o ambiente onde os indivíduos crescem, estão tentando buscar sua auto-afirmação, auto-conhecimento, e é precário  haver ainda esse tipo de repressão que acaba impedindo o desenvolvimento total dos alunos e principalmente das meninas, que são induzidas a ver o próprio corpo com medo.

Desde os anos 60, com a Revolução Sexual que foi iniciada com o uso do anti concepcional, muitas coisas mudaram, mas o machismo permanece arraigado na sociedade e pior, nas próprias mulheres. Elas não tem liberdade com o próprio corpo e sua sexualidade e, algumas, tampouco com suas escolhas. Embora as mulheres tenham conquistado um espaço de maior visibilidade, vejo que muitos pensamentos ainda são os mesmos de 40 anos atrás. Sim, as mulheres hoje trabalham, estudam, mas suas obrigações com casa, marido e filhos, continuam intocadas, há somente um acúmulo de tarefas. Com a suposta liberdade que foi conquistada, ainda hoje atribuímos funções domésticas ao sexo feminino.

Defendo que as mulheres tenham liberdade para observar o próprio corpo e que se quebre com essa cultura machista de que somente o homem irá desvendar a sexualidade feminina. As mulheres precisam conhecer a si mesmas, eliminar o sentimento de culpa que está relacionado a isso, afinal, desejos sexuais são comuns à todos, é uma condição, e negar isso é sucumbir aos preceitos de uma sociedade arcaica que reserva toda a soberania aos homens. E também é necessário que os homens não vejam o feminismo como algo ruim para eles, pelo contrário: com essa libertação das mulheres eles também serão beneficiados. O comportamento das escolas só reflete então, a cultura da sociedade, e esse é o motivo da necessidade da educação sexual como matéria e que esta seja lecionada por profissionais que compreendam que a sexualidade está presente, independente de teorias e tabus que tentem esconder a realidade.

E, por coincidência hoje é Dia das Mães. Parabéns para a minha mãe e todas as mulheres que cumprem jornada tripla de trabalho e mesmo assim não têm reconhecimento da sociedade que  de fato merecem. O mundo deveria ser de vocês.

Pitty – Desconstruindo Amélia

Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar
O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair…

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende porque
Tem talento de equilibrista
Ela é muita se você quer saber
Hoje aos 30 é melhor que aos 18
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra nigth ferver

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro

Recomendo: O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir;